Sobre divórcio e um sonho na caixa

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Marisa estava organizando suas caixas, como pode guardar tanto papel em 23 anos de casada? Pensou se algum dia iria ler pelo menos um terço daquilo, quem sabe? Não hesitou, resolveu queimar tudo, se era pra terminar uma vida, que fosse por inteiro. Pegou as caixas e os vestidos que já não faziam sentido, jogou alcool encima e pronto, agora é assistir o fim de 23 anos em papéis e roupas.

Uma pequena caixa lhe sobrara por último, Marisa estava curiosa, não lembrava do que havia dentro, nem sabia da existência daquela caixa, segurou a respiração, apertou a caixa com as duas mãos e… não resistiu, aquela caixa não poderia ser apenas queimada sem uma única espiadela, abriu.

Fotos, fotos e mais fotos, pior do que todos os textos do mundo, as fotos nos deixam embaraçados, nos fazem chorar, ter compaixão e aquilo que salvamos na memória, saudade.

A saudade deve ser dipirona em gotas, ruim mas com efeito. Marisa não queria alívio e sim dor. Chorar, quebrar a porcelana que ganharam em algum aniversário de casamento, arranhar a merda do carro que ele dá tanta atenção, cortar a cama ao meio com uma faca e exigir sua metade em todo o resto da vida mesquinha e egoísta que suportou ao lado daquele ser invisível, de fato havia pensado em morrer, mas aí já era demais, tem muita gente ocupando os noticiários com atitudes estúpidas.

Uma separação não começa com um simples “é o fim” mas, com pequenas atitudes que somadas chegam ao resultado de três separações com reconciliação e um filho entre uma delas, tinham dois filhos, um casal, o mais novo com 16 e a mais velha com 21, ambos crescidinhos para entenderem que aquele casamento era um teatro para dizer a eles que estava tudo bem, que eles eram uma família unida e perfeita com direito a um cachorro no quintal que os recebia todos os dias latindo de alegria pelo reencontro mas que na verdade até o cachorro sabia a merda que tava aquele relacionamento.

E por que chegamos ao fim? Porque Marisa traiu seu amado marido, e como não trair aquele que se tornou apenas um homem que paga as contas de casa? Aroldo havia tornado-se um homem invisível há anos, trocou a esposa pela bebida, o amor por sexo pago e os filhos pelos presentes sazonais, também havia esquecido de si, não cuidava-se, não tinha intenção em melhorar em nada, acreditava que, enquanto nada faltasse no lar ninguém o incomodaria, de fato, nem ele se via naquela casa.

Voltando as fotos, Marisa as olhou com descrédito, não podia ser, as fotos do baile do colegial, onde estão todos? De repente bateu uma saudade em Marisa, não eram apenas fotos, eram a escolha de Marisa, tudo aconteceu no baile de formatura, mas ela não queria lembrar, 23 anos nos deixam endurecidas, não acreditamos mais em paixões.

Optou por não amar o Reinaldo por puro egoísmo, deu ouvidos a sua família e ficou com aquele que teria garantias para lhe proporcionar vida estável. Reinaldo era artista ou desejava ser, rabiscava com perfeição, tocava gaita e adorava filmes franceses, havia formado por sorte, era amado por todos mas só amava Marisa que no fim se deu conta que também amou Reinaldo naquela época, desperdiçou uma vida imprevisível para viver o sonho de toda menina de sua geração, uma família ideal.

Marisa, tomou uma atitude, iria procurar Reinaldo, usaria a internet e alguns contatos, conseguiu um numero, um endereço e um email.O telefone não existia, o endereço era de uma pizzaria no centro e por último um email que ninguém respondeu até que um dia ao apagar sua caixa de spam se assustou ao ler uma resposta, era Reinaldo.

Marcaram um encontro, ele estaria na cidade, adoraria vê-la novamente, combinaram um café que ficava próximo a antiga escola, chegou no horário marcado. Marisa trouxe um guarda chuva por precaução, segurou-o forte para não demonstrar suas mãos tremendo, sentou sem cumprimenta-lo.

– Oi!

– Oi.

Se olharam por alguns segundos, Reinaldo apreciou aquele silêncio como uma confissão, Marisa ficou pensando na próxima pergunta que iria fazer.

– Porque demorou 23 anos para me procurar?

Se olharam novamente, Marisa pensou que devia ter queimado aquela caixa, não queria explicar uma vida inteira para um antigo amigo de colégio.

– Eu nunca esqueci de você Marisa.

Marisa olhou em seus olhos e leu a verdade por trás daquelas palavras, sorriu.

– Vamos começar com você me contando o que fez durante esse tempo, não me diga que virou funcionário público?

– Não, sou escritor.

Sorriu novamente, sentiu um alívio, seus sonhos voltavam à tona, aquelas fotos naquela caixa ressuscitaram uma Marisa que decidiu viver novamente mesmo que isso durasse um café próximo ao antigo colégio.

PS: Marisa me contou sua vida, eu editei acreditando esta ser a parte que ela gostaria de contar para um desconhecido.

Perereca Monstrão!

Há anos, Samuel era atormentado pelo mesmo sonho, já havia terminado o ensino médio, concluído a faculdade, iniciado inglês, espanhol e árabe, fez curso de dublê, aprendeu a usar o taquígrafo, torceu pelo Flamengo e Corinthians no mesmo ano, tinha perdido um dente num show de rock, já tinha viajado escondido dos pais para conhecer uma mina do bate papo e obviamente perdido a virgindade também com a mesma, sonhou, escreveu cartas de amor, pensou em voltar sem avisa-la mas não foi preciso, levou um fora via MSN, se fudeu, chorou, queria cortar os pulsos e ouvir todos os discos do Fresno e Nx Zero mas, nada disso superava a peripécia que havia cometido com treze anos que hoje podemos dizer que tornou um pesadelo, pois as imagens daquele dia não envelhecem nunca, agora elas voltam em sonhos.

– Samuel! (Toda virada começa com alguém gritando seu nome)

Desceu, não levou nada além da roupa e sua identidade, para onde ia não precisava de mais que isso.

– To pronto, vambora.

Quando chegaram, sem muitas surpresas, a velha cachoeira de sempre, não importa a época, a merda da placa nunca foi corrigida, era “caxuera” e o preço a “2 rel”, a globalização tornou nossa vida um inferno, as conversas de MSN assassinaram a gramática,.

Ah, o sonho, tinha esquecido, mas Samuel não. Tudo aconteceu quando ele foi à locadora, queria alugar um filme diferente, de aventura, ação, ficção cientifica, topava até desenho mas tinha que ter porrada. A loja estava sem movimento, Samuel correu, chegou esbaforido, sentiu sede.

– Posso tomar água ¿

– No final do corredor, a porta à esquerda.

A locadora não era muito grande mas Samuel sabia na porta à direito era onde estavam os filmes de sacanagem, não hesitou, entrou sem acender a luz, decidiu que no tato pegaria qualquer filme, colocou por baixo da camisa, não alugou nada para não levantar suspeitas, típico de quem tem treze anos.

Esperou o momento certo, a hora que a mãe dormia vendo a novela do “Vale a pena ver de novo” foi até o quarto da irmã onde havia um vídeo cassete e assistiu, achou estranho a capa não ter fotos, seguiu em frente com o plano.

Após os créditos iniciais, não foi possível interromper, era um filme de terror, em que uma mulher usava sua genitália para matar os homens que a desejavam, todos os homens perdiam seu falo e assim se matavam,  a vida no filme não era fácil pra ninguém. As cenas foram tão marcantes que durante sua puberdade Samuel não dedicou nenhuma para as meninas que conheceu, somente as famosas, o que ajudou a frustrar-se quando teve sua primeira vez.

No filme apenas o último rapaz foi salvo, aquele que gritou seu nome e assim se encerrava esta obra de arte, isso fez que Samuel nunca tivesse esquecido aquela história, sexo tinha virado carma na vida de Samuel.

– Como é que é, vai pular ou não¿ Eu to filmando.

– Preciso de concentração. Respondeu Samuel

– Dá um grito de coragem

Samuel pensou em todos aqueles anos que passaram, nunca havia tido coragem de contar a história do filme que assistiu aos treze anos, pensou que nunca tinha feito nada para se livrar daquele pesadelo, lembrou-se das palavras do único homem que se salvou no filme.

– PERERECA MONSTRÃO!

perereca monstrao

Caiu na água, e no fundo deixou seu pesadelo de vez.