Quartinho da Bagunça (+18)

 quarto bagunçado

– Cidinho cadê seu pai?

– Foi comprar cigarro.

– Vai me ajudando a encaixotar as coisas do quartinho da bagunça.

Lá vai Alcides (Cidinho) em busca da terra do nunca, o quartinho da bagunça era o fim de todas as coisas que não tinham serventia mas que não precisava ser jogado fora. Imagine você, acumular 19 anos de coisas em um único quarto. As primeiras decorações de natal, calendários e papel. Papel capaz de fazer 20 cópias da bíblia em braile. Agora uma etapa chegava ao fim, os meninos cresceram, não precisavam mais de uma casa, estavam se endireitando para a vida adulta. Clara havia passado para a federal e Cidinho começara um cursinho, seu Jadson decidiu: Vamos mudar.

Não é fácil colocar uma vida em caixas, como iria ser o relacionamento com o açougueiro do novo bairro? Seria possível abrir uma conta na padaria? O buteco da esquina tem sinuca? Alguém faz aposta no bicho na área?

Cidinho ainda não estava disposto a entender como seriam os próximos meses, anos e décadas sem aquela casa, tinha uma dificuldade enorme de se livrar do passado, olhava as paredes e conseguia ver os desenhos que fazia com giz de cera, quando comeu muito bolo com anilina e mijou azul pela casa inteira jurando ser seu ultimo dia na terra.

–  FUI INFECTADO, UM VÍRUS, VOU MORRERRRRRRR

E a mãe lhe acalmou dizendo que isso era o resultado de comer tanto bolo de festa.

Ainda no quarto da bagunça, Cidinho olhava as caixas empilhadas, os potes de pedaços de coisas que o pai sempre trazia da rua, já era noite, parecia que não havia mais ninguém na casa, apenas Cidinho e Nina, a cachorra meia idade que fazia companhia. No meio daquela mundo véio de troço, achou uma pasta de tecido com um peso dentro, devia ser algo importante, naqueles tediosos 18 anos nada mais lhe interessou tanto. Uma pasta misteriosa.

– Caraca,o velho tem coleção da playboy.

E tinha mesmo, só coisa rara.  Vera Fischer, Luiza Brunet, Cláudia Raia, Luma de Oliveira, Mara Maravilha e a Xuxa. Deviam valer alguma coisa, estavam todas bem conservadas. Cidinho não se conteve, apesar de já ter visto de tudo pela internet, sabia o valor do papel, tem sensações que apenas uma folha pode transmitir, por isso os livros nunca irão morrer.

Abriu e folheou todas elas, folha por folha, quanta mulher bonita, não entendia como as mulheres de hoje querem ser parecidas com homens, cheios de músculos. A beleza está no natural, na originalidade de cada uma, no cheiro, no sorriso, na curva singela da bunda, no desenho dos seios e no dançar das pernas.

Dedicou uma para todas aquelas beldades, limpou com o pano que estava usando para tirar a poeira, ficou sentado imaginando quando seria sua primeira vez, que fosse com uma musa inspiradora daquelas.

Já com as panelas encaixotadas, só restara comer uma pizza na sala. Nani adentrou a sala com uma coisa na boca.

– O que é isso Nani? Cidinho, voce deixou a Nani pegar o pano cheio de poeira? Aff, Vem cá Nani…

E lá foi a Nani lambendo um por um no sofá, exceto Cidinho que a repeliu com um tapa.

– Cachorra Esquisita.

Enquanto ela lambia a cara de todos, Cidinho pensava: Gozei na cara de todo mundo.A vingança por ninguém ter lhe consultado sobre mudar, mudar é foda. Bota foda nisso.

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Toca essa bola

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Cadu, nascido no fim da geração TV com início da geração internet, filho do Costa, um apaixonado por futebol. Ambos viram suas humildes vidas modificadas quando souberam que a próxima copa seria no Brasil, a nossa terra amada aonde até o cocô pode virar uma pelota.

O filho, desinteressado, nunca foi muito de ligar para esporte, preferia ouvir música e video game, tudo que não dependesse de outra pessoa para ser realizado. Com quase 22 anos, ainda não havia decidido seu futuro, trabalhava de vez em quando, estudava quando lhe convinha e namorava quando não restava nada mais interessante, extremamente versátil (preguiçoso).

O pai, seu Costa, filho de seu Antônio, cresceu na periferia do Rio, a primeira copa que assistiu foi a de 70 com o Brasil ganhando o tri campeonato, dali em diante nunca mais perdeu uma sequer. Era sempre a mesma história, enfeita a casa, compra tv nova, coleciona o álbum da copa, música, tudo pronto para o maior espetáculo da terra. Tinha uma simpatia, em dia de jogo do Brasil não pode usar sapato, ninguém da casa. Durante a copa de 98, o Brasil perdeu por conta de um conhecido que veio assistir direto do trabalho, deu tudo errado. Em 2002 ganhamos, seu Costa trancou todo mundo em casa, o que foi a gota d’água para Cadu que odiou aquilo tudo, pegou antipatia de futebol.

A casa nunca mais foi a mesma, ninguém se importava com a copa, Costa assistia na sala sozinho, som baixo, nem comemorava, as vezes dormia durante a partida. Mas tudo mudou quando foi anunciada a festa em nossa terra, viu que aquela seria a chance de reconciliar a amizade do filho e trazer a alegria do mundial para dentro do lar.

Comprou ingressos para todos os jogos possíveis, sempre dois, queria ver ao lado do filho.

– O primeiro vai ser Brasil e Croácia.

Disse entusiasmado

– Acho que não vai dar. Respondeu Cadu

Costa saiu cabisbaixo

– Tudo bem.

A mãe, dona Nina interveio, não queria ver o marido assim.

– Meu filho, seu pai só quer companhia.

– Então por que você não vai com ele?

– Por que ele sempre quis ir ao estádio contigo. Na vida as vezes optamos pela felicidade dos outros, pense em tudo que seu pai já fez por ti.

Cadu não dormiu aquela noite. Estava decidido, iria com o pai. No dia do jogo, na mesa do café aparece Cadu usando uniforme azul da seleção, no peito quatro estrelas e atrás escrito Cafu.

– Vamos ou não para esse jogo?

Seu Costa se animou, trocou de roupa e partiram para o Itaquerao, chegaram três horas antes, queria ver tudo.

O jogo começou, bola rolando, o povo em ebulição, clima de festa, mulher bonita pra todo lado. Cadu estava feliz pelo pai, não lembrara de quando havia visto aquele Costa feliz, brincalhão.

– Tá gostando Cadu?

-Tô.

– E porque não tá dizendo nada?

Cadu olhou o percurso da bola até que os croatas trouxeram para nosso lado, a multidão em silêncio.

– OLHA PRA FRENTE! TOCA A BOLA!

E foi gol contra.

Cadu ficou calado o resto do jogo e o Brasil ganhou de 3×1, para seu Costa já era um começo, pelo menos o filho não estava de sapato.