Tchau 2014, desculpa qualquer coisa

foto catedral por thiago maroca

É sempre assim, tudo termina com um desculpa qualquer coisa!  

Deveria ser mais fácil, mas na despedida é importante deixar claro que talvez você tenha feito algo errado, para  não deixar passar batido e nem deixar ninguém magoado, finaliza com:

– Tchau, desculpa qualquer coisa.

Quem de fato se importa com um desculpa qualquer coisa? Já pensou se a mina te diz:

– Você broxou,eu vou indo, desculpa qualquer coisa.

E imagina você ouvir isso no restaurante:

– Hoje não tem comida, desculpa qualquer coisa.

Fico pensando na superação de desculpas que damos toda vez que dizemos desculpa qualquer coisa. Mas é isso mesmo, o ano passou e de repente a casa tá cheia de primos, uma bagunça só, e você se prepara para mais um ano de luta diária com a promessa de qua as coisas deem certo desta vez, quem sabe um carro novo, emprego novo, tudo novo pois afinal é ano novo.

Minha sugestão: deixe de fato as coisas velhas no ano que passa. Desculpas velhas, manias velhas, fofocas velhas, preguiça velha, falsidade velha, vamos de fato sermos novos.

 

Feliz 2015 e Desculpa qualquer coisa!

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À prova de tudo

thiago maroca

– Eu queria dizer uma coisa antes de começar.

– Pode dizer.

– Mas aqui?

– E onde mais? Você veio até aqui para isso.

– Mas não para dizer o que eu quero dizer.

– De antemão lhe digo que nada do que disser irá mudar a situação.

– Nem um boquete?

– É….

Ele hesitou, nunca recebera um boquete como proposta, já tinha recebido cargo comissionado, um caminhão de areia e título remido de clube . Era a última fase do exame para obtenção do título de taquígrafo, a coisa mais importante para Sheila, que havia passado no concurso sem pretensões, mas quando soube do salário se animou, o impedimento era apenas um : ter o certificado, e o único curso era feito por Seu Jesus que aliás era o último taquígrafo do tribunal e estava se aposentando.

Sheila sem muita simpatia pelo assunto não ligou quando soube que havia passado, estudaria e passaria em outro bem melhor, com salário maior e algo em que possuísse interesse, ou seja, fazer porra nenhuma. Viu seu nome no diário oficial, ficou de boa, afinal, havia começado a estudar por agora e este não seria o último. A real, é que Sheila foi a única inscrita para taquigrafia pois ninguém entendia bulhufas, se era comer ou para passar no cabelo. Sheila gosta mesmo é das oportunidades que suas pernas e seu decote proporcionam.

Toda mulher deve saber o ouro que carrega no meio das pernas. Ouviu na rua e guardou como máxima sua vida, inteligência é fazer os outros trabalharem para você.

Seu Jesus era um homem modesto, aprendeu cedo a arte da taquigrafia, estudou sua origem do grego, seu uso no Brasil e suas adaptações. O Taquígrafo é um rapaz com papel e caneta na mão que vai anotando tudo que é dito no tribunal para anexar ao processo depois, o Taquígrafo é de suma importância, mas pouco conhecido no mundo das pessoas comuns.

– Você faz o que Jesus? Além de salvar a humanidade? (piada pronta é uma merda)

– Sou Taquígrafo.

– E que porra faz um Taquigrafo?

E ele começava sempre com a mesma frase.

– Na taquigrafia tudo começa com um ponto.

Seu Jesus já havia escrito o suficiente para biblioteca de Alexandria nos últimos 25 anos dedicados ao tribunal, muito amigos de profissão desistiram do ofício, seu Jesus manteve-se no mesmo lugar  exceto nas férias. Com o aumento de fóruns no país, aumentara a demanda por novos taquígrafos. Por amor a profissão decidiu ensinar, gostaria de saber que seu cargo iria continuar a colaborar com o judiciário do Brasil, já pensou um computador fazer taquigrafia? Foi inventado, mas deve ser usado por um taquígrafo, ao menos isso.

– A taquigrafia começa com um ponto.

Primeira regra do curso, Seu Jesus falava para sua única aluna na aula inaugural, que pelo interesse, mesmo Seu Jesus dizendo que havia descoberto o fim da fome Sheila não se interessaria.Apelou para os causos.

– Uma vez no tribunal o Ferreira aprontou uma que você não acredita.

Sheila continuou olhando seu celular

– Chegou bêbado e vestiu a toga do juiz Queiroz e no meio do júri gritou: Eu sou o Batmam!

Tomou uma advertência mas não foi demitido, realocado na reprografia onde aposentou por invalidez ao adquirir L.E.R. no dedo indicador.

– Professor? Você se importa se eu já for indo mas, é que hoje eu estou super ocupada, prometo chegar cedo nas próximas aulas.

Sem dar tempo de resposta ao Seu Jesus, Sheila saiu da sala e foi embora, aprender pra que?Seu Jesus passou as semanas seguintes esperando sua aluna para continuar a história da taquigrafia.

Sheila descobriu que era burra há menos de uma semana para empossar no único concurso que havia passado.Desesperada contou as mesmas mentiras que sempre conta quando está no sufoco:

Minha mãe estava doente, descobri quem é meu pai, comecei em um emprego novo, roubaram meu carro.

– O senhor precisa me salvar!

– Eu não sou esse Jesus.

– Eu preciso passar neste concurso, porém suplico, que o senhor me dê este certificado.

– Eu só posso lhe dar se você fizer o curso.

– Não há nada que o senhor pode fazer por mim.

– Não!

– Nem com um boquete.

– Nem com uma orgia com tuas primas de odaliscas e você nua, coberta de mel.

Tudo começa com um ponto e a história da Sheila também, com ponto final.

Novo movimento (+18)

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Em tempos que possuir opinião é sinal de cretinice, cresce um movimento nas redes sociais. Movimento este do qual nunca se viu tantos adeptos, em sua maioria jovens.

Esta juventude pertencente a gigante onda que tomou conta da internet não sofreu efeitos colaterais da desestabilização econômica e social de nosso país, também não lembra quanto custava um quilo de carne ou uma calça jeans. O problema destes é apenas este, a falta de memória, pois quem vive de passado é museu segundo alguns.

Os jovens que pedem um governo transparente, não aceitam a democracia. São os mesmos que acham que racismo não existe e que as roupas justificam o estupro. Também não aceitam perder e nem entendem porque ainda não são os chefes em seu trabalho. Culpam os favelados pela violência e se indignam quando os vêem no shopping falando alto em seus iPhones comprando as futilidades que os comerciais juram mudarem suas vidas.

– Os problemas são os pais.

A frase mais ecoada nas conversas, acredito que o problema somos nós de uma forma geral, sempre remediando ou adiando as decisões difíceis.

O movimento e os jovens que participam são ligados sem saber, no passado eram chamados de hipócritas, hoje todos somos hipócritas, este movimento é outro: O PAUNOCUZISMO.

  • Para ser um PAU NO CU não é tarefa simples,  é preciso começar com pequenos gestos, a falta de cortesia é o primeiro deles, basta fingir que está ao celular para não cumprimentar alguém ou para não ceder a vez na fila;
  • Ninguém nasce PAU NO CU , é algo que se adquire ao longo da vida, outro exemplo é sempre deixar desfeito para que o próximo conserte;
  • Também pode ser PAU NO CU aquele que permanece infantil após atingir a fase adulta;
  • PAU NO CU não gosta de sentir se na pele do outro;
  • PAU NO CU de verdade sempre é contra a maioria, por isso apóia coisas como ditadura e violência doméstica.
  • Todo PAU NO CU pede ajuda aos outros porém vive ocupado demais para ajudar.
  • PAU NO CU que se preze precisa falar mal de três pessoas por dia, no mínimo.
  • PAU NO CU não fala na cara, manda recado ou escreve na internet.

 

Pra encerrar só pode ser um PAU NO CU autêntico aquele que diz muita asneira, prolifera idiotices mas não as vive pois acha caro o preço a ser cobrado pelos amigos, se é que tem.

Quando você identificar algum membro do movimento, apenas diga à ele o lema de sua organização:

– Vai tomar no cu, PAU NO CU!

E continue sua vida ouvindo  a música de inspiração para esse texto.

 

 

 

 

Kim, o gatão da baixada.

kim gatao

A dona Alice tinha seis filhos: João, Antonio, Elias, Marta, Adriana, Alberto e Joaquim. É do caçula, o Quinzinho que nós vamos falar. A vida na roça era boa, mas um dia as coisas ficaram ruins e todos tiveram que sair do interior pra sobreviver na metrópole. Família negra e pobre só havia um lugar para morar: A Baixada do Glicério.

Pra quem não conhece a cidade basta saber que a baixada era um aglomerado a Liberdade, o bairro japa de São Paulo, onde algumas famílias o mantinham em ordem.

– Me vê um cigarro e uma cerveja gelada.

– Bar de japonês não entra Joaquim.

– E quem bebe sem deixar fiado? Eu sou o único que paga em dia nessa merda.

– Joaquim não valer nada, aqui não é lugar . Bar de japonês, só japonês, Joaquim ficar na baixada.

– Porra Sato! Voce é da Yakuza? Só vim jogar um papo fora, falando em fora quem é aquela rosa de Hiroshima?

– Cadeia! filha de Fujitama, não é para você.

– E tu sabe o que é bom pra mim?

– Cadeia!

Naquela noite o Quinzinho da Dona Alice tinha levado uma visita para o jantar, a pele clara de olhos puxados e com os cabelos pretos e lisos não agradou muito os olhares desconfiados dos residentes da baixada, mas se era o Joaquim que estava levando, havia respeito, todos sabiam da lábia que tinha o negão.

– Mãe, essa é a Kaori, mas o resto do nome eu não consigo dizer. Uma amiga que eu trouxe pra conhecer o ensopado mais delicioso de toda a baixada.

– Joaquim, você é louco? Essa mulher é da liberdade, tu vai arrumar encrenca, tu já viu japonês andar com gente preta? Marta estava nervosa.

– Deixa minha filha, o Quinzinho sabe se virar, anda vem jantar enquanto tá quente.

E jantaram, Kaori manteve um diálogo monossilábico com a família enorme de Joaquim, Antonio e Alberto moravam em uma obra em Diadema, mas os irmãos Elias e João não paravam de fazer perguntas e as irmãs sempre que podiam alfinetavam o corpo estranho.

– O que significa seu nome? perguntou Adriana curiosa.

– Perfumada como uma flor.

Kaori saiu com um turbilhão de sensações daquela humilde casa, pensou em todos os contrastes culturais,concluiu que aqueles moradores da baixada é que eram os verdadeiros brasileiros, gente que pega três conduções, mulher criando os filhos sozinhos, muambeiros fugindo do rapa e uma onda de sons de tudo quanto é tipo:

– Clóvis, volta aqui que eu vou dar na tua cara e naquela piranha também.

– Joselita, deixa eu entrar, teu homem tá sofrendo aqui fora.

– Maxsuel! Cade você moleque do inferno.

– Neusa tá sabendo do rolo que teve no bar do Juca.

Kaori, contou para as amigas sobre o um rapaz que havia conhecido na liberdade, um cara diferente de tudo que já havia visto. A mulherada do bairro oriental só sabiam seu nome:

– Kim.

– Deve ser coreano.

E assim o nosso Quinzinho virou Kim, mais conhecido como gatão, e na baixada ninguém podia contestar a fama, graças ao nosso pretinho poderoso a baixada era conhecida até no bexiga.

Num desses jantar de família com a Kaori, eis que para dois carros pretos com um bando de olho puxado falando alto:

– Kuro?

Na baixada mal se falava português quem diria japonês, as para Kaori o idioma e o tom da voz era inconfundível, era seu pai. Levantou da mesa e foi para fora, na rua toda baixada ouvia o diálogo que misturava nissin miojo com fujioka.

– Kaori não poder ficar, casar com japones.

– Agente ainda nem começou broto…

– Kuro nunca mais. Disse o senhor Fujitama enfurecido

– Kuro?

– Preto? Falou Kaori

– Kuro é seu cú, meu nome é Kim.

Não houve reação, a Yakuza dos produtos importados entrou nos carros, Kaori foi embora e o Quinzinho da Dona Alice ficou.

– Entra Kim, vamos terminar de jantar, vai esfriar.

Ficou com um nome novo.

 

OBs: Esta é uma história que mau pai me conta, eu precisava contar pra voces, na foto o próprio.Gatão da baixada.