Se eu tivesse casado..

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Ainda verão do ano de 2010, ela tinha viajado por uma semana com os pais para o Norte do Brasil , e eu, como mero namorado, nada podia fazer a não ser ir pra casa todas as noites após o estágio. Em quatro anos de relacionamento na função obediência sim, opiniao zero. Eu podia ir pra casa sem pressa, ficar à toa, beber um pouco e ler algumas promessas literárias empilhadas sobre a TV antiga, que servia de cômodo ( quem vê TV hoje em dia gente?).

Nas primeiras noites, recebi mensagens prontas no celular sobre sentir-se sozinha, estar com saudade e lembrar de algo que fizemos no ano passado. De forma automática respondia conforme lia, sem nenhum entusiasmo.

 No sexto dia, a mensagem que desejei, chegou, : “a viagem iria se estender por mais duas semanas em direção sentido ao litoral nordestino”

 Horas após, a última mensagem da noite elucidou minha premonição: “Na verdade, não estou sentindo a sua falta”

Ufa! como Como pude ser tão covarde  e não ter tomado a iniciativa e ter dito aquelas palavras antes? Não interessa, ela disse e eu não me senti mal por isso, não era um aviso, era uma sentença. O fim.

Sem expectativas, não esperei o fim de fato, eu tinha a minha vida de volta, não gostava de ser acompanhante de luxo em jantar, nem mentir sobre o que ela fazia quando bebia, eu também queria ficar chapado mas tinha que ser a babá da filha única de um casal com muito problemas para serem superados. Talvez eu fosse um dos problemas da família. Com a mensagem agora poderia arriscar um palpite sobre a minha função social naquela família, na vida daquela garota, um bibelô vagabundo substituído por um quadro novo.

Se eu tivesse casado, o meu papel seria cada vez mais programado e melancólico. Provavelmente o pai dela, iria conseguir um emprego para seu genro não ser taxado de homem sem futuro/vagabundo, creio que eu não teria sequer a dignidade de pagar um aluguel sem a intervenção daquele mediador de paz, mas eu não me relacionava com ele e sim com sua filha, que se mostrava a cada dia mais possessiva, inconsequente e mimada. Apesar de linda.

Se eu tivesse casado, no dia da cerimônia meus convidados não poderiam vir, eu não iria saber nada sobre a decoração ou a música a ser tocada durante a nossa recepção. Dificilmente haveria cerveja ou alguma extravagância típica de quem viveu parte de sua vida na periferia, seria uma tragédia em estilo alta classe.

Se eu tivesse casado, os nomes dos filhos seriam imposição dela, provavelmente nomes de santos católicos, grandes nomes da história brasileira ou algum nome bem conhecido que misturasse inglês e mau gosto.

Apesar de não ser a vida que eu queria, acredito que até gostaria de ter casado, já que, mesmo sozinho continuo acorrentado, esperando a próxima namorada para controlar minha rotina.

Se eu tivesse casado, teriam muitas idas e nenhuma vinda.

Droga! Agora bateu saudade.

 

 

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