Vingança (A Bicha Má)

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Samuel já havia conquistado o pouco da vida que lhe bastava, casa própria (financiada), carro (parcelado e em atraso), um bom emprego e família. Mesmo levando uma vida modesta e sem muitos luxos se permitia agradecer ao pouco que Deus lhe deu, um filho educado (Com satanás no corpo) uma filha feliz (Estilo quem toma Diazepan com Whisky) e uma esposa fiel (mas que acabava com a dispensa antes de 15 dias).

Se fosse jogar no bicho, seria a esperança, mas nunca jogou até porque esperança é nome de sogra ruim e o bicho não contempla essa delicadeza dos gramados. A boa sorte adentrava naquele lar e os problemas como racionamento de água e a crise politica institucional não eram assuntos tratados na mesa do café, o segredo de todo Bon Vivant é ceder às pequenas vontades dos entes familiares: um almoço na rua, um sorvete depois da escola e  porque não um cinema na terça a tarde? Tantos perguntavam a sabedoria para uma família daquela e ele dizia: “- É só deixar a vida me levar” mesmo não sabendo nada sobre Zeca pagodinho.

Naquela manhã antes de sair para o trabalho, o telefone fixo tocou com o sentimento de ser mais uma mensagem gravada com a voz da Xuxa pedindo doação para Igreja Universal, afinal, ser funcionária de bispo tem que cumprir meta dentro e fora da telinha. Que saudade do Dr Roberto Marinho! Todos pensavam assim, mesmo que ele torcesse pelo América, era um bom homem. Mas o bispo não era.

– Muca?

Hoje não seria um dia bom, a voz não era reconhecível mas aquele apelido tinha uma origem, a ex namoradinha da adolescência de Samuel.

– Bom dia, quem é?

Ele já sabia, estava tentando ganhar tempo, nesse momento a família já analisava minuciosamente o embargo na voz do patriarca, o café fervia e o aroma inundava a sala.

– Mulher, o café está fervendo!

Todo mundo já sabia que iria dar merda, chamou a esposa de “mulher”, tinha coisa errada.

– Muca, tô querendo mudar, vi no seu condomínio uma casa vazia, queria umas indicações, você tá gostando de morar aí com a sua família?

– Para de me ligar!

Desligou, respirou fundo, olhou para a mesa, um típico quadro de “O jantar” de Claude Monet, onde todos olham para o prato e fingem não terem ouvido o grito histérico do papai.

– Era engano!

(Claro que era, todo mundo notou Muca)

Terminaram o café em silêncio, o que não era comum. As crianças rumaram para o regime semi aberto infantil e a amada esposa foi ao mercado comprar mais pães para saciar sua lombriga. Enquanto dirigia ao trabalho, Samuel pensou como aquela mulher havia conseguido seu número, sabia de sua família e o pior: seu endereço.

Lembrou da vez que conheceu aquele anjo decaído em forma de cabelos loiros e um sorriso encantador. Foi na adolescência, com muitas expectativas e pouca grana a vida se resumia a um copo de refrigerante com Domus e um fandangos. No sol quente daquele setembro de 2003 muita coisa aconteceu, a internet começava a dar seus passos para o futuro, um pouco de Nirvana no discman e uma sombra na praça bastava para matar o tédio da vida vazia daquele casal, até o dia que ela resolveu matar alguém: o Samuel.

Numa crise de ciúme inesperada, estimulada pela bebida alcoólica, a doce companhia viu os olhos de Samuel seguir as nádegas de uma senhora que saia do posto de saúde mancando devido a uma injeção. De fato Samuel a olhava mas com pena, a parada de ônibus estava longe e aquela senhora gordinha lembrara sua mãe, que devia ter preparado macarrão com queijo naquela quarta feira, oque o fez salivar imaginando a iguaria. Tarde demais.

Diabo loiro (anjo nem na foto) teve um súbito de ira e agarrou-se a um galho seco e começou a tangir o bem amado como se houvesse consumado tal ato, isso sim é que é curar ressaca. Samuel ainda tonto pelo álcool e desnorteado pelas galhadas corria em direção oposta a do anjo, chegando em casa, comeu macarrão com queijo e dormiu. O telefone tocou a tarde inteira, 34 vezes precisamente, na última ligação atendeu o que seria um dejavu nos dias atuais:

– PARA DE ME LIGAR!

O tempo passou, a necessidade de álcool e novas rotas para o desencontro foram necessárias nestes últimos quinze anos. Mesmo sem ter notícia, mantinha viva na mente a imagem de que aquela surra deveria ter continuado, podia sentir a raiva de sua ex por onde pisasse e a sensação de que aquela ira era alimentada por ela.

Em uma quarta feira atual, Já anoite, chegando em casa e entorpecido pela idéia de reencontrar o motivo de seu medo na porta de sua casa, sentiu um mal súbito ao olhar para a casa numero 41, não era o diabo loiro, era algo muito pior. A luz apagada da varanda e as janelas fechadas evidenciavam o temor de Samuel, andou lentamente até a porta, bateu duas vezes na porta, não economizou nos pulmões:

– Ei! Alguém abre a porta! Mulher? Meninos?

Não podia sequer pestanejar, o cheiro do gás butano invadia suas narinas preenchendo sua memória com imagens cruéis, como podia ter deixado a família sozinha naquele dia em que o diabo descobriu seu endereço e ligou? Agora era tarde, todos estavam mortos mas, por um instante teve súbito de consciência e ligou para seu pai apenas para averiguar seus pensamentos obscuros.

– Alo?

– Pai?

– Oi Filho.

– Os meninos estão aí?

– Não, aconteceu alguma coisa?

– Ela matou eles!

Abandonou o celular na grama, esmurrou a porta, ainda daria tempo de salva-los. Com uma força sobrenatural arrombou a porta de compensado, gritou pela família, olhou dentro do forno, embaixo da cama, por último foi ao telhado. Nada feito. Não matou ainda, foi sequestro. Imaginou todas as economias e as negociações para resgatar as únicas coisas que tinham valor na vida. Retornou ao celular na grama, seu pai ainda estava na linha.

– Pai, eles não estão aqui.

– Já olhou na vizinha?

– Não.

Desligou o telefone, era quarta feira, dia de juntar a gurizada na casa 45, um verdadeiro clube do terror a base de Danoninho. E lá estavam todos vivos e felizes aguardando Samuel para de repente tomarem um sorvete a noite. Ao chegar em casa a esposa notou a porta encostada.

– Nossa! O que aconteceu aqui?

– Essa porta é muito ruim, só encostei e ela caiu.

Sem muitas explicações, uma boa família não se preocupa em justificar todos os problemas, basta viver e supera los, até surgirem outros. Como o skate que a menina estava querendo ganhar de natal. No fim daquela noite, o telefone tocou novamente. Samuel apressado correu em direção mas a esposa já havia atendido.

– Alo! Hummm, tá, tchau!

Samuel a olhava transtornado

– Era engano…. Muca.

Naquela noite, Samuel não dormiu, não tinha certeza de mais nada, ficou com medo de sua esposa ser igual ao diabo loiro, dessa vez a surra iria até o fim.

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