Vida sem sentido – A saga de Miltinho

“O Sentido da vida é que ela termina.”

Miltinho estava com essa frase na cabeça. A juventude havia chegado ao fim e agora ele tinha uma vida adulta pela frente, iria começar em uma repartição do estado, burocracia dia sim, dia também. Em seu primeiro dia já sentiu o tédio que seria o resto da sua vida naquele lugar. Chefes, mapas, canos e por fim, encontrar os parentes perdidos que se aventuravam no mundo externo e esqueciam de voltar. Ainda havia aqueles que nunca mais voltavam, igual o pessoal que atravessa a fronteira entre o México e os Estados Unidos.

Miltinho era diferente dos seus 41 irmãos, todos eram obcecados por comida e buracos quentes, nem sabia quantos ainda estavam vivos, nem dos pais ele tinha notícia. Tinha que trabalhar para sustentar seus pais que apenas procriavam. A vida era curta e não tinha sentido, o jeito era se ocupar para não enlouquecer. Ele estava cansado e se me permite o trocadilho, tambem estavam esgotado, porque era ali que vivia, uma cidade embaixo da cidade. Os outros, amigos, da mesma idade e de sua turma, sempre o convidavam para viver algumas aventuras.

“Vamos dar um rolê em um novo restaurante. Quer ir, Miltinho?”

“Caralho, fomos em uma festa, descobriram a gente e meteram baygon na rapaziada, ficamos loucas. Bateu uma lombra, mais da metade morreu nesse rolê, hahahaha cof.. cof…”

Por que aquelas criaturas se jogavam no universo da morte? Enquanto ele trabalhava, pensava se havia algo além dessas perspectivas para sua vida.

“Hoje vou no irmão Joe, tá afim?”

Irmão Joe, era um ser evoluído, morava em uma biblioteca, se alimentava de livros, literalmente, mas depois pegou gosto por ler algumas obras também. A cada dois dias, o Irmão Joe falava alguma frase e encerrava sua aparição pública. A biblioteca que ele habitava era de uma família que fazia questão de bons títulos mas não se preocupava tanto com a limpeza, o que favorecia a permanência do Irmão Joe. Naquela noite, ele disse para um público de quatro membros, havia um novato, Miltinho.

“O Sentido da vida é que ela termina.”

Aquilo tirou a fome de Miltinho por semanas, e acredite, era super possível ficar semanas sem comer. Depois de uns dias, saindo da repartição,  entrou no cano que levava a biblioteca do Irmão Joe, não era dia de reunião. Miltinho queria bater um papo em particular.

“Hoje eu não tenho o que dizer”

Irmão Joe, tinha um aspecto bem mais velho, talvez fosse o mais antigo de todos, se houvesse um livro dedicado ao Irmão Joe, seria o Guinness, o livro dos recordes.

“Isso é possível? Logo você que mora em uma biblioteca” Disse Miltinho.

“Você não sabe a energia que reside no silêncio.”

Desse jeito Miltinho iria explodir de tanta reflexão.  Pela primeira vez conversava com alguém que sabia algo além do universo de um bueiro. Será que o destino o colocou ali?

“Como eu faço pra ser igual a você?”

“Você é diferente de mim e isso basta, mas você podia ler alguma coisa.”

Irmão Joe falou do único livro que ele leu todo: A Metamorfose. Falava de um homem que ajudava a sua família, mas um dia acordou e viu que havia se tornado um inseto horroroso, abandonado à própria sorte, excluído pela família. Miltinho sabia que a sinopse era idêntica a da sua vida, esse tal de Greg Samsa não percebeu, que todo seu esforço para sustentar a família não foi visto quando ele não pode mais manter seus compromissos, mas a vida de Miltinho não podia acabar daquele jeito, ele precisava mudar de vida, ele precisava ter um sonho para acreditar.

“Já sei, eu quero ver o oceano, esse vai ser o sonho que vou lutar até o fim da minha vida”

Irmão Joe já estava se alimentando de algum livro enquanto Miltinho falava sozinho para aquelas páginas amarelas e empoeiradas, com as folhas medindo dez vezes o seu tamanho. Mesmo que soubesse, não tinha tanto tempo de vida para realizar aquele sonho, o primeiro segredo é contar para todos, assim eles o chamariam de louco, mas talvez alguém ajudasse com alguma ideia.

“O oceano? Tem uma piscina de esgoto aqui pertinho, isso é o oceano para mim”

“Esse tal de Oceano é o restaurante que a galera foi comer anteontem, né?”

“Eu não conheço o oceano, mas sei como chegar lá! Basta ir até o final do último cano”

De fato, não era muito difícil entender essa metáfora

“Mas tem que ir pela superfície”

Agora estava complicado. Como sair daquela zona de conforto?Como despistar a família e os 41 irmãos, na verdade não sabia mais quantos eram. Dane-se! Miltinho agora tinha um sonho e precisava realizá-lo, mesmo que isso lhe custasse sua insignificante vida. Ele tinha um plano, não muito requintado, mas tinha. Iria se fingir de morto e deixar que as formigas o levassem o mais longe possível, assim não levantaria suspeitas sobre o seu paradeiro, de acordo com o livro, Greg Samsa se torna um peso quando se transforma em um inseto, Miltinho queria que sua família deixasse de ser um peso para ele. Com o anúncio de sua morte, ficaria para outro irmão levar comida para os pais.

Assim o fez, ficou sem respirar, esperou que algum transeunte do bueiro notificasse seu falecimento. As formigas entraram em ação, foi levado a superfície, pela primeira vez viu o mundo externo. O sol, como queimava, ardia todo o seu corpo, mas era lindo, pensava se alguém já havia tentado tocá-lo. Era a primeira vez que Miltinho sentia calor, mesmo que não desse certo seu sonho, decidiu que gostaria de sentir o calor do sol para o resto de sua curta vida. Chegaste ao final da linha, se aproximava de seu corpo umas formigas maiores, com presas maiores. Miltinho sentiu uma sensação que nunca experimentara, não era uma sensação boa. Aquelas formigas pareciam muito sedentas por cortar em pequenas partes o corpo do Miltinho e entrar com elas no formigueiro, o jeito foi improvisar. Acordou como  Greg Samsa acordou de uma noite intranquila. Virou de barriga pra baixo e desatinou a andar, como quem percebe que está no lugar errado, cercado por todo o formigueiro e mesmo tendo mais agilidade que elas, ele não se via a salvo, as formigas já o cercavam. Não havia saída, será que alguém poderia ajudá-lo? Se o Sol fosse alguém ele pediria ajuda, e por que não pedir? Enquanto Miltinho olhava o sol firmemente, pensou que se estivesse mais perto,  ele o ouviria, quando percebeu estava voando em sua direção e assim viu-se distanciando do formigueiro e novamente pela primeira vez, sentiu o vento na face enquanto sobrevoava a cidade, tinha asas e não sabia que podia voar. Enquanto se dirigia ao sol, não desejava mais lhe pedir socorro, mas lhe agradecer, olhava a cidade cada vez menor lá embaixo, será que seus semelhantes já fizeram isso? 

Agora ele conseguia ver as cores do mundo, o verde, o marrom, uma faixa cinza e branca que subia em direção ao azul do céu, e por falar em azul, no horizonte, em oposição ao sol era possível ver uma faixa azul escura, o oceano. Miltinho usou suas asas na maior potência em direção ao mar, já era possível sentir o cheiro da maresia e ouvir o barulho das ondas. Quando pousou suas seis patas na areia molhada, notou o sentido da frase citada por irmão joe:

“O Sentido da vida é que ela termina.”

Para Miltinho, que não sabia ao certo quanto tempo levou até aquele momento, talvez semanas ou meses, a vida havia feito sentido, de certo ele poderia ter sido o único a ter realizado tal façanha, mas sabia que nenhum livro contaria sua história. E ali ele ficou, deitado na areia, olhando as ondas se quebrarem.  E a vida com sentido havia chegado ao fim.