Alienígenas invadem a capital

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Luzes. Um clarão que não permitia enxergar nada, o som era das vozes que se aproximavam e iam somando naquele ensaio de praça publica com deposito de quinquilharia.

Coisa estranha de ver, parecia um início de romaria sem presépio. Era cada coisa que ouvia e ainda não sabia do que estavam falando.

– Valei-me nossa senhora!

– Chegou a hora!

– É de lascar o cano.

Pouco ou quase nada podia-se definir daquele clarão na capital do cerrado, as fortes luzes não deixavam nem os pensamentos se organizarem. Mas a bagunça sim, esta já estava organizada, o branco se misturava com o vermelho e azul dos rotolights, que juntamente com a guarda municipal tentavam fazer ao menos uma fila.

– Pra que fila?

– Pra organizar.

Respondeu o soldado pensando em uma resposta melhor

– Hoje começa o fim do mundo.

Syrleide (Nome inglês, mistura de Sir com Lady) que chegara no último circular, queria saber o porque daquele furdunço em sua porta aquela hora da noite. Em pouco tempo já foi enquadrada na fila das sem rumo, as outras filas eram: Curiosos, Bêbados e devotos de Santo Expedito.

Ninguém sabia mais o que fazer, nem a polícia, nem o povo, muito menos Syrleide que só queria ver o final da novela.

Quando o clarão acabou, a energia da cidade se foi, no escuro as teorias eram outras, coisa de máfia, tem ET no meio ou seria alguém soldando algum portão velho, mas em poucos segundos tudo se clareou ao menos nas ideias. No fim da rua descia uma mistura de brinquedo assassino com fantasma do filme Ghost.

Era o palhaço Pirulito esfumaçando, depois de uma gato de luz mal-sucedido. Ao encarar a multidão e seus cartazes, não exitou:

– O circo chegou minha gente!

Corre Pirulito.

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Cinismo

 

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– Pouca vergonha!
– Ninguém precisa ver isso.
– E porque você está olhando?
– Para um dia dizer aos meus filhos o que era errado no meu tempo e os outros diziam ser progresso.
– Eu não acho errado, mas na rua não é o local certo para esse tipo de coisa.
– Justamente, por isso devemos ir lá falar com eles.
– Não vamos não.
– Mas se você discorda precisa me apoiar, de que vale toda essa discussão.
– Sou contra isso em público, mas também sou contra a repressão, eu sim vivi a ditadura na pele, nunca fui a um congresso da Uns por medo de ser levado e desaparecer para sempre.
– Comunista enrustido. Pois eu nunca me calei, nem naqueles tempos,dei sorte mas jamais me escondi.
– Então vai lá e acaba logo com isso, seu moralista de mentira. Teu filho já deve ter feito coisa pior e você não fez nada.
– E tuas filhas? Que ninguém sabe onde dormem nos fins de semana.
– Não vamos mudar de assunto.
– Você começou…
– E você termine.

Não ia dar certo. Dois coroas discutindo um simples beijo na boca, mas não era qualquer beijinho não, era a Dona Higina que estava toda agarrada com um rapazote pra lá de vinte poucos anos. Na verdade o que se discute é a legitimidade do ato, sendo que os dois estavam a cortejá-la quatro semanas ininterruptas, cada um com seu repertório de boas histórias, sobre ditadura, bossa nova, a vida no morro, a vida no campo, o Rio de Janeiro em 70, as Minas Gerais do pão de queijo. Mas ninguém havia se preparado para um gole certeiro como aquele.

– Aquilo só pode ser golpe.

– Não tem outra explicação.

– Não há contraindicação porém, não é normal.

– Pois é.

Por mais de uma hora, discutiam se um deveria ou não apartar aquele amasso descarado. Na frente de todo mundo, ato impensável.

– Como amigo vou defendê-la desse patife. Você fica aqui!

Por amizade eu vou também.

Mas não foram. Olharam-se e satisfizeram-se com a derrota.

– Vamos jogar buraco.

– Só até as 17h, hoje eu tenho um encontro.

O negócio é acreditar, sempre, em você mesmo.

Ps: Não havia encontro nenhum, coisa de velho se achando pra outro.