Quem roubou o Brasil?

Durante a entrega de provas corrigidas aos alunos da quinta série, uma aluna questiona.

– Professor! minha prova tem uma questão que está certa e o senhor colocou errada.

O que escrevia errado disse:

– Nossa! Quem diria, o professor mais correto da escola…

– O que nunca adoece – Acrescentou a que estava pendurada por faltas.

– O professor mais inteligente – Concluiu a burra que puxava saco.

– CHEGA! Que questão foi essa? Provavelmente deve ter sido o corretor de palavras do computador, eu jamais imprimo a prova sem antes revisar. Qual foi a questão?

– A que diz ” Quem roubou o Brasi?l”.

– Os portugueses. Chegaram de boa, viu que tinha ouro, levaram tudo.

– Aproveitadores. Disse Joãozinho

–  Mas também, os índios queriam o ouro só pra eles, tem que dividir.

– Socialista!

– Eu coloquei que foi Dom Pedro, chegou, roubou mas não foi embora.

– Monarquista de merda!

– Eu vi no youtube que foi Getúlio Vargas.

– Pelego! – Prosseguia Joãozinho.

– Seu Luis da padaria me contou que foi JK, construiu Brasília sem uma moeda no bolso, os juros tá rolando até hoje.

– Lobo em pele de cordeiro!

– Os militares! foram os militares. Inúmeras obras e nenhum documento que comprove a necessidade delas.

– Gangsters!

– Meu avô me disse que foi o Sarney, primeiro o Maranhão, depois o Brasil.

– Oportunista!

– Foi o Collor, congelando as poupanças.

– Moderninho salafrário.

– Meu falou que foi o FHC, criou a reeleição para continuar roubando.

– Espertalhão!

– Meu tio disse que foi o Lula, roubou tanto que caiu um dedo com o peso das moedas.

– Mentiroso!

– Minha mãe disse que foi a Dilma, roubou mas não conseguiu comprar uma roupa bonita.

– Deselegante!

A turma agitada indaga:

– E aí professor, qual é a resposta correta?

– Fora Temer!

A turma em uníssono respondeu

– FORA TEMER!

– Fora todos!- Retrucou Joãozinho.

E assim começava mais um dia na quinta série.

Se eu tivesse casado..

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Ainda verão do ano de 2010, ela tinha viajado por uma semana com os pais para o norte Norte do Brasil , e eu, como mero namorado, nada podia fazer a não ser ir pra casa todas as noites após o estágio. Em quatro anos de relacionamento na função obediência sim, opiniao zero. Eu podia ir pra casa sem pressa, ficar a à toa, beber um pouco e ler algumas promessas literárias empilhadas sobre a TV antiga, que servia de cômodo ( quem vê TV hoje em dia gente?).

Nas primeiras noites, recebi mensagens prontas no celular sobre sentir-se sozinha, estar com saudade e lembrar de algo que fizemos no ano passado. De forma automática respondia conforme lia, sem nenhum entusiasmo.

 No sexto dia, a mensagem que desejei, chegou, : “a viagem iria se estender por mais duas semanas na direção sentido do litoral nordestino”

 Horas após, a última mensagem da noite elucidação minha premonição: “Na verdade, não estou sentindo a sua falta”

Ufa! como Como pude ser tão covarde  e não ter tomado a iniciativa e ter dito aquelas palavras antes? Não interessa, ela disse e eu não me senti mal por isso, não era um aviso, era uma sentença. O fim.

Sem expectativas, não esperei o fim de fato, eu tinha a minha vida de volta, não gostava de ser acompanhante de luxo em jantar, nem mentir sobre o que ela fazia quando bebia, eu também queria ficar chapado mas tinha que ser a babá da filha única de um casal com muito problemas para serem superados. Talvez eu fosse um dos problemas da família, com a mensagem agora poderia arriscar um palpite sobre a minha função social naquela família, na vida daquela garota, um bibelô vagabundo substituído por um quadro novo.

Se eu tivesse casado, o meu papel seria cada vez mais programado e melancólico. Provavelmente o pai dela, iria conseguir um emprego para seu genro não ser taxado de homem sem futuro/vagabundo, creio que eu não teria sequer a dignidade de pagar um aluguel sem a intervenção daquele mediador de paz, mas eu não me relacionava com ele e sim com sua filha, que se mostrava a cada dia mais possessiva, inconsequente e mimada. Apesar de linda.

Se eu tivesse casado, no dia da cerimônia meus convidados não poderiam vir, eu não iria saber nada sobre a decoração ou a música a ser tocada durante a nossa recepção. Dificilmente haveria cerveja ou alguma extravagância típica de quem viveu parte de sua vida na periferia, seria uma tragédia em estilo alta classe.

Se eu tivesse casado, os nomes dos filhos seriam imposição dela, provavelmente nomes de santos católicos, grandes nomes da história brasileira ou algum nome bem conhecido que misturasse inglês e mau gosto.

Apesar de não ser a vida que eu queria, acredito que até gostaria de ter casado, já que, mesmo sozinho continuo acorrentado, esperando a próxima namorada para controlar minha rotina.

Se eu tivesse casado, teriam muitas indas e nenhuma vinda.

Droga! Agora bateu saudade.

 

 

Alienígenas invadem a capital

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Luzes. Um clarão que não permitia enxergar nada, o som era das vozes que se aproximavam e iam somando naquele ensaio de praça publica com deposito de quinquilharia.

Coisa estranha de ver, parecia um início de romaria sem presépio. Era cada coisa que ouvia e ainda não sabia do que estavam falando.

– Valei-me nossa senhora!

– Chegou a hora!

– É de lascar o cano.

Pouco ou quase nada podia-se definir daquele clarão na capital do cerrado, as fortes luzes não deixavam nem os pensamentos se organizarem. Mas a bagunça sim, esta já estava organizada, o branco se misturava com o vermelho e azul dos rotolights, que juntamente com a guarda municipal tentavam fazer ao menos uma fila.

– Pra que fila?

– Pra organizar.

Respondeu o soldado pensando em uma resposta melhor

– Hoje começa o fim do mundo.

Syrleide (Nome inglês, mistura de Sir com Lady) que chegara no último circular, queria saber o porque daquele furdunço em sua porta aquela hora da noite. Em pouco tempo já foi enquadrada na fila das sem rumo, as outras filas eram: Curiosos, Bêbados e devotos de Santo Expedito.

Ninguém sabia mais o que fazer, nem a polícia, nem o povo, muito menos Syrleide que só queria ver o final da novela.

Quando o clarão acabou, a energia da cidade se foi, no escuro as teorias eram outras, coisa de máfia, tem ET no meio ou seria alguém soldando algum portão velho, mas em poucos segundos tudo se clareou ao menos nas ideias. No fim da rua descia uma mistura de brinquedo assassino com fantasma do filme Ghost.

Era o palhaço Pirulito esfumaçando, depois de uma gato de luz mal-sucedido. Ao encarar a multidão e seus cartazes, não exitou:

– O circo chegou minha gente!

Corre Pirulito.

Trump, Superman e Homem Aranha

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Durante o credenciamento, tumulto, gente mexendo no celular, mulheres histéricas, chihuahuas latindo e muito terno pra pouco defunto. Clark havia se  perdido de Jimmy, com tantos protestos nas ruas nós sabemos onde um fotojornalista gosta de trabalhar. A posse do novo presidente do Estados Unidos estava muito competida, concorrida. Políticos apagados na gestão Obama, militares e muitas socialites.  socialights . As Os Kardashians não conseguiam conter a emoção e a inveja. Clark estava desatualizado  sobre os bastidores da política americana. A última briga com Lex Luthor ocupava sua mente em momentos de folga. Mas, imagine você saber que seu inimigo está mandando snaps para Lois, que por sinal é sua esposa. Por uma simples cabeçada, Lois  tinha feito Clark dormir na sala por uma semana, coisas que um homem casado às vezes precisa sentir na pele. Segundo Lois, não eram nada demais. Algumas mensagens românticas e um pouco de seminu (careca conta). Brincadeiras que nunca foram de se esperar do último conservador vindo de Kripton, que tinha tudo para ser um planeta foda, mas que sem moeda, resolvia tudo era na força e no raio laser. Deu no que deu. Ainda bem que Jonathan e Martha Kent já tinham parado de usar umas coisinhas e viram que tinha um menino na nave que veio do céu. Salve a cultura racional da gringa!

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– Gravador não entra!

Segurança com cara de mau.

– Mas como irei decupar o discurso do presidente?

– Caderninho de anotações também não entra! Nem caneta. Só celular, mas não tem rede.

Clark pensou em ativar o olho vermelho de fogo naquele segurança,  mas lembrou que já havia um Kent Lane Júnior em casa pra alimentar, pagar escola, levar ao parque… Existe superpoder pra tudo, mas pra ganhar dinheiro, só trabalhando mesmo. Ainda na fila imaginou que merda iria fazer naquele lugar sem gravador e sem o parceiro fotógrafo. Tudo seria televisionado do jeito que o novo chefe gosta, só que pela sua emissora, a Fox, de forma careta e tediosa. Provavelmente fizeram curso com a nossa EBC (Empresa brasileira de Comunicação). Ainda na fila, um jovem segurando de forma desajeitada uma Pentax entrava sem parceiro. Clark precisava garantir um furo. A coisa não estava fácil nas redações. Basta olhar o que aconteceu com a Playboy.

– Quanto você quer para fazer uma foto pra mim?

– Eu te conheço.

– 100 dólares.

– Você é o Superman!

– E você o Pateta.

– É sério! Fiquei olhando mas agora tenho certeza, esse cabelo com esse olhar de galã de comercial da Avon… É o Superman!

– Isso é passado, mas pelo meus velhos instintos você também não é normal.

– Peter Parker, sou fotografo do News Luthor.

– Trabalhar para o cara que quer, ainda vai, mas comer minha mulher não pode ser normal.

– Eu preciso de 100 dólares, vou pedir minha namorada em casamento.

– Se tu soubesses o buraco que vai entrar, não cavaria.

–  Como é? Vai precisar de uma foto ou não?

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Era trato feito, afinal Clark não podia vacilar. Entraram e acomodaram-se. Cerimônia careta, Obama com um sorriso branco e feliz, família com cara de foto da revista Quem, todos sorrindo e batendo palmas,  mas no fundo com aquele sentimento de “vai dar merda”.
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Apos o discurso, Peter já havia feito a foto, foi aberto para algumas perguntas, todas sobre economia, Israel e Palestina, petróleo, geração de emprego, qualidade de vida, saúde, fronteiras, aquecimento global. Para Clark  não sobrou assunto nenhum de interesse relevante para o Planeta Diário. Em sua vez aproveitou e fugiu das perguntas tradicionais, resolveu captar uma resposta espontânea.

– Presidente Trump, como vai ficar sua vida pessoal? Sendo mais especifico… e quanto ao sexo?

– Vai ser foda. Não tenho nenhuma estagiária aqui.

–  Se fosse Hilary, iria chover. Garanto!

Clark foi expulso, mas tinha um furo. E um emprego.

Obrigado Peter

 

Sobre a certeza de ter feito a escolha errada

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De repente ninguém teve coragem para lhe perguntar, mas talvez sua feição não permitiu que alguém se aproximasse. De uma forma ou outra, será inevitável em algum momento da sua vida  lhe fazerem a seguinte pergunta:

– Voce está certo de sua escolha?

Mas e aí? Está ou não? No mundo, a reposta precisa ser direta e rápida. As vezes sua opinião ainda  não está totalmente formada, tenho dúvidas sobre quem tem alguma opinião formada. No jornalismo ( o sério) emitir opinião é um privilégio que se conquista com muito tempo e respeito na carreira.Mas voltando ao assunto, a questão é: Você sabe do que está falando?

O que precisamos é no mínimo ter consciência sobre nossos atos, aquele que escolheu ser de determinada religião deverá seguir seus preceitos; Quem decidir torcer por tal time tem que mostrar lealdade no rebaixamento; A opção politica deve ser firme nos momentos de agonização; Dieta não tem pausa; Por fim, até que a morte nos separe.

Os exemplos podem ser milhares, o questionamento é sobre ter culhão, sobre botar a cara para bater, arriscar receber vaias em dia de derrota.

A juventude é para mim o maior desafio da atualidade, podemos identificar rigidez e apatia na mesma pessoa com assuntos diferentes. Um jovem é capaz de se indignar com a má qualidade da educação e escrever errado na redação do enem. Decidir ser vegetariano e usar couro. Escolher ser cristão e condenar a mendicância.

 Opte ser totalmente errado, vai por mim que dar certo, mesmo que soe contraditório.

A sociedade está em dramática, a crise econômica esvazia o bolso e nos devolve tempo para olharmos para dentro de nossa alma que não se alimenta de coisas boas há muito tempo. Durante os últimos anos o consumo exagerado por coisas  não deixou que refletessimos sobre quem nós somos.O pior foi esquecer o sentido da palavra refletir.

Aproveite a virada do ano, agregue a todas simpatias que você acredita, fale para os amigos de verdade sobre suas eternas escolhas erradas.Sobre escolher amar a pessoa errada, optar por não ter futuro na profissão. Descobrir-se Ateu, entender que não ser hétero não lhe torna homossexual no instante seguinte. Vai ver que tá faltando tudo e você fingindo que já pode apagar a luz.

A vida desenhada pelos seus pais não encaixou nos seus planos, tu é maconheiro trabalhador, cristão preguiçoso, revolucionário da web, hétero pão com ovo, escritor analfabeto. Tantas categorias que vão travar a máquina de pensar.

Se quiser, desenha você num papel e se pergunta quem é você, vai escrevendo e tentando encontrar alguma coerência com as regras do mundo tradicional e depois com o mundo contemporâneo.

Seja só você mesmo irmão, mas tenha atitude de segurar a barrar que é gostar de ser errado.

Desejo que esse ano, seja bom, seja cabuloso, seja massa, seja headbanger, seja top, apenas.

Feliz 2017

 Thiago Maroca

Vendedor de Histórias

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Rodoviária de Brasília, seis da tarde, uma corrente sanguínea entre os que precisam ir e os que chegam para irem mais longe de onde vieram. Um pontinho preto no meio do quadro do Romero Brito, este sou eu. Os passageiros disputam espaços entre os pombos que farejam migalhas e os ambulantes que mais parecem anunciantes de Herbalife há um passo para bater a meta do mês. As meninas seguram a saia e os cabelos para não pegar o cheiro da fritura dos pastéis. Os meninos com o vale na mão contam os minutos para chegarem em casa a tempo de verem o início da partida.
As senhoras com suas sacolas enormes pedem ao motorista para entrarem pelos fundos por conta da muamba. Os idosos ostentam sua identidade, intimidando aqueles que ainda pagam passagem.
Eu estou a caminho da fila do meu ônibus que mais parece o último trem saindo da Serra Pelada, sem pressa, vou caminhando observando as peculiaridades daquele lugar exótico e seus personagens.
– Ei brother! Como vai?
– Bem…
– E sua mãe?
– Tá bem.
– Sua mãe é uma mulher de ouro.
– É…
– Brother, saí do lava jato, depois fui tentar algo na padaria da esquina mas também não deu certo.
– Tá difícil pra todo mundo né?
– Oh! Aí resolvi tentar vender uns perfumes aqui.
– Que boa notícia.
– Olha só, leva esse Givenchi para tua mãe e pega esse Ferrari pra você, pelos velhos tempos, tua mãe me ajudou muito, devo muito a ela.
– Eu não tenho dinheiro.
– Quem tá falando em dinheiro? É pela amizade.
– Que seja, obrigado.
Me viro e vou indo em direção a minha fila.
– Oh irmão! Faz um favor pro seu brother aqui.
– O que?
– Me paga um lanche que eu tô cheio de fome.
– Cara mas eu só tenho…..
Neste momento o perfumeiro pegou rapidamente oito reais de minha carteira com um passe me deixando apenas com um.
– Tá tudo certo, com esses oito eu tomo um caldo com pastel e esse passe eu volto pra casa, aquele abraço na sua mãe.
Já na fila, minha namorada chega e pergunta:
– Você tem um vale sobrando?
– Não! Só perfumes.
Contei toda a história que havia acabado de vivenciar, uma história de superação, de força de vontade, de coragem. O cara tá na luta, não desistiu.
– Amor isso não perfume, é água com amaciante.
– Como eu ia saber.
– E você conhece ele de onde?
– Nunca vi mais magro.

Ser ou não ser? Nova classe média.

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– E agora?

– Num sei , nunca pensei nisso.

– Temos que melhorar as palavras, segundo o governo somos a nova classe média!

– já aviso logo que não vou comer banana de garfo e faca.

– Vai ser difícil viu! virar  o livro da pobreza na sua vida né Adalberto?

– Oh Cida! Isso não passa de notícia besta pra gente não perceber a roubalheira que acontece todo dia neste país.

– Seja como for, nós podíamos ao menos tentar melhorar alguns costumes nessa casa né?

– Como o quê?

– Como o hábito nefasto que você tem de arremessar a toalha molhada sobre a cama.

– Isso é pra cama ficar geladinha na hora de deitar, quem aguenta esse calor?

– E quando você chega e saí atirando as roupas pela casa inteira, tá achando que aqui é a casa da sua mãe?

– Infelizmente preciso admitir que isso não é um mal costume, é um rito espiritual com intuito de espantar ancestrais malignos que moravam nesta casa, na casa de mamãe era o espiríto de minha vó Bernadete.

Cida não continha a frustração, achou que a notícia ao menos estimularia Adalberto a vestir-se melhor, fazer a barba com mais regularidade e por fim conseguir um emprego decente. Adalberto que não era trouxa, percebeu pela cara da mulher que algo não ia bem, sabia o fim da história, se adiantou:

– Por que não saímos para jantar, assim praticamos os hábitos da nova classe média.

– Claro, vou me arrumar.

Adalberto sabia a dureza que era dormir na sala, ligou para a mãe e garantiu a grana para a noitada, dessa vez iriam fazer diferente, coisa fina, coisa de nova classe média. Decidiram ir ao restaurante mais caro da redondeza.

Entraram, sentaram-se em frente a um quadro com uns cavalos azuis, o garçom colocou o cardápio na mesa, serviu água e perguntou qual entrada.

– Tá de sacanagem? Traz aquela gelada, canela de pedreiro e deixa para abrir na mesa…

– Adalberto…

– Desculpa, um vinho tinto cabernet sauvignon e uma entrada de frios, pasta  e pães a moda do chefe.

– Perfeitamente.

O cardápio era indecifrável, pediram o que mais parecia com frango. No fim era rã, que não era tão ruim assim. De sobremesa banana em calda de mousse de chocolate mas a conta, Cida se adiantou.

– Escuta, que valor é esse?

– Couvert senhora.

– Mas ninguém cantou.

– Pelo silêncio

– E este valor embaixo?

– Serviço do maitre!

– Não pedimos isso.

– Foi o vinho.

– Tá, mas por que deu tudo isso?

– Adicional de serviço da casa.

Adalberto pagou tudo calado, sabia que não valia a pena discutir com uma mulher indignada, dirigiu calado, até que Cida se manifestou.

– Classe média é o caralho. Toca pro bar do Juca que dá tempo de pedir um espetinho.

E tomar uma gelada, pensou Adalberto

Vingativa

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Imagine duas bahianas conversando.

– E o que ele disse à você?

– Disse que você não significa nada na vida dele.

– E o que mais?

– Como e o quê mais?

– Como o quê rapaz?

– Oxi, eu que lhe perguntei sua porra.

– Apoi agora tá tirando onda.

– Não se arreta e nem pica a mula.

– Sim, mas o que foi  mesmo que você ouviu?

– Eu vi! Os dois todo chique entrando na pizzaria.

– E depois?

– Depois… não sei…

– Tem que saber, tu num entrou?

– Entrei, mas tive que passar ligeira no banheiro, tava apertada.

– E quando saiu?

– Já não estavam lá.

 

Pronto, foi o suficiente para Rosi, jovem, negra e linda se sentir traída por Lindomar, seu noivo. Bastou um simples comentário dizendo que o mesmo foi visto na noite passada com outra para o circo estar armado. Depois da fofoca, o segundo item essencial na vida de qualquer pessoa deve ser a vingança. Nós somos feitos no amor e lapidados no ódio, amamos o que não temos e odiamos quem tem.
Vingança só existe por que libera dopamina, assim como o sexo.Vingança boa é planejada, sexo bom não tem cerimônia, chega sarrando, vem passando o braço no beco, subindo a respiração, encoxando… Pois é. Mas tudo é passado, depois dessa, Rosi só pensava em vingança.
Nenhuma estratégia é feita na emoção, era preciso cautela porque quem pega galinha não diz xô. Iria esperar ver os dois entrarem no motel, quando a coisa estivesse rolando, iria surpreender os apaixonados jogando pimenta nos olhos do canalha e da piranha.

O telefone tocou
– Alô!
– Rosi, minha flor de dendê, vou me atrasar para o nosso jantar.
– E tu vai tá fazendo o que mesmo?
– Oh minha rainha, vou fechar a contabilidade da pizzaria do Tonico.
– Tá bom…

Desligou.
Era a hora de colocar o plano em prática, mesmo planejando, vingança boa se come quente.
Chegou na surdina, ficou imperceptível, pediu uma coca cola, avistando de longe o noivo a conversar com uma loira. O sangue nordestino subiu, pegou a garrafa de coca, quebrou na quina da mesa, antes de levantar já vociferava as ameaças que pertencem ao vocabulário bahiano, o dedo indicador fazendo apologia ao crime dizia que Rosi não estava para brincadeira. Mesmo antes de chegar próximo da mesa, a presença de Rosi foi notada através de uma cadeira que voou toda a pizzaria seguido por um grito de raiva.

– PIRANHAAAAAA!
Não houve tempo para a esquiva, a loira levou uma cadeirada e desmaiou. Lindomar mais perdido que analfabeto em banca de revista, não sabia se acudia a desfalecida ou a noiva em fúria que se arremessava com a garrafa de coca cola quebrada em sua reta.

– Agora eu vou matar vocêeeeee.

PLOFT!
Silêncio geral na pizzaria.

Duas mulheres acudiam Rosi estalecada no chão, rodeada de cacos de vidros e um cheiro forte de cachaça Pitu. Rosi atordoada e bêbada olhava em volta e nada lhe parecia familiar.

– Mulher aprenda a beber pelo menos.
– Fazendo um vexame desse…
– Cadê o Lindomar?
Eis que surgia o noivo repetindo em voz alta meu amor, meu amor, meu amor… levando sua amada pelo colo até a mesa pedindo uma água e se prontificando a pagar pelos excessos causados por sua rainha.
– Acho melhor você ir para casa, as meninas vão lhe acompanhar enquanto eu acerto com o Tonico os danos e o custo da noite.
Sem entender e ainda zonza, foi caminhando. Ao lembrar que havia esquecido sua bolsa encontra Lindomar trazendo do banheiro a loira desmaiada nos braços.

– Seu filho da putaaaaaaaa, eu vou matar os dois.
Pense numa noite animada, só acabou quando chegou a ambulância para Lindomar e a polícia para Rosi.

E eu juro que comecei escrevendo uma crônica de amor.

Dar a Elza

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Muito se fala, mas pouco sabemos da origem desse ditado popular que utilizamos quando nos referirmos ao simples ato de subtrair algo de alguém. Na maioria das vezes, de alguma bicha má.
Dizeres como: “Passou a Elza” e “Deu a Elza” são tão comuns como abrir a geladeira e constatar que a mesma continua vazia quando se está solteiro.
Mas de onde surgiu essa Elza?
Más línguas dirão:
– De uma vizinha horrorosa que eu tinha.
– De uma cleptomaníaca que morava na travessa.
– Um travesti que foi jogado na roda e criado sob o imaculado coração da igreja, porém, quando este descobriu que seu lugar no mundo era onde o chão emanasse estrelas, foi dado à Elza, uma mulher de meia idade que tocava um boteco na avenida principal da baixada, Passa-rola era o nome da espelunca. Elza moldada em desilusões amorosas e a espera de um homem do qual ela não sabia o nome, aceitou criar a criança que o orfanato cristão havia desistido por conta de seus peculiares hábitos que incluía vestir-se de menina o dia inteiro. Elza o guiou  neste mundo árduo para que não desistisse do futuro brilhante que o aguardava, ser mais que o filho da Elza, ser uma estrela.
O que não faltam são histórias, é coisa de novela mesmo. Nada de mexericos envolvendo comerciante com professora e políticos de baixo escalão com filha de pecuarista.
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Comenta-se a boca pequena que a Elza enraizada no ditado vem da majestosa Elza Soares, a cantora, dona de um par pernas e  de uma voz inconfundível.
Elza ficou famosa depois de assumir seu relacionamento com o jogador Garrincha, já o nosso artilheiro ficou famoso por suas pernas tortas que sambavam com a bola nos pés driblando os adversários. Outra coisa que não podemos esquecer sobre Garrincha era sua malandragem com a mulheres, acabou fisgado primeiro pelas pernas de Elza,depois pela voz, deixando família já constituída para trás.
A fama de “Dar a Elza” vem do ato furtivo que nossa diva, sem ter notório saber, se apoderou do homem com pernas que lembravam as árvores do cerrado.
Há outros rumores sobre a origem do termo, mas o que me encanta são os pormenores de uma vida cheia de altos e baixos de alguém tão encantadora como Elza Soares, entre tantas Elzas ficamos com esta que é lúcida e permitida na firewall de seu trabalho, a não ser que você esteja dando a Elza na wifi de algum vizinho.

Ninguém entende os jovens

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Não importa o que aconteceu, ou seja, o fim. Mas sim o meio que se deu o fim, eles dizem ser poetas, loucos, vadios, escritores das estrelas. Ocupam os espaços públicos com pichações desastrosas, declarando amor aos devaneios de uma juventude apaixonada.

E o que eu quero dizer com tudo isso? Na verdade eu não sei por onde terminar.

Vivemos um momento de protagonismo juvenil em que todas as causas da vida social acabam desembocando no mesmo canal, as redes sociais.

Por um simples momento o que é para ser uma causa de transformação vira mais um evento de selfies marcando presença com pessoas que as vezes nem se conhecem.

As músicas que circundam a juventude não estimulam nada além de sexo e curtição, mas daquelas bregas mesmo, sem compromisso com o dia seguinte, com o trabalho ou com a responsa de quem precisa ajudar em casa.

Quando eles decidem se comunicar, aí sim, é o fim de uma era que atingia o ápice da comunicação 360 graus, onde poderíamos trocar e compartilhar idéias diferentes para cada meio digital social.

O fim deste meu triste relato está em saber que o acúmulo de palavras lidas por um jovem através das redes sociais chega a uma media de vinte e duas páginas, mas o que ele escreve não se compara a uma página de alfabetização.

Os jovens merecem seu espaço, mas um em que nós possamos nos entender.