A gangue do meio dia (1996)


O ano é 1996, a cidade de Valparaiso de Goiás é criada e deixa de ser um distrito de Luziânia, terá a sua primeira eleição municipal.
Enquanto um lado da cidade curtia o final do verão ao som da dança da bundinha (É o tchan) e boquinha da garrafa (Companhia do pagode), os bailes sacudiam ao som de Claudinho e Bochecha com Nosso sonho. Em alguma avenida, algum walkman o Skank tocava Garota Nacional. Mas o que vai parar o Brasil é o acidente causando a morte do Mamonas Assassinas e logo em seguida o surgimento do ET de Varginha durante a programação do Fantástico, na TV Globo que além disso lança a novela Rei do gado. Em outro canal surgia o Cidade Alerta, falando do aumento da violência nos grandes centros urbanos.
O Beep e o celular se popularizam, assim como a compra de computadores e o acesso a internet, mesmo que apenas para bater papo no BOL e carregar algumas fotos de conteúdo proibido para menores. A tecnologia conquista a criançada o lançamento do Tamagochi e no Brasil,a política mudava de rumo com a chegada das urnas digitais.
Tudo isso não bastou para que o ano fosse memorável para a turma da Tia Aparecida, que na terceira série procuravam aventura na saída da escola. Uma média de seis crianças entre meninos e meninas, entre eles um gênio:
– Tive uma ideia!
O que uma criança de 10 anos sem nenhum pêlo no sovaco, ainda faltando um dente nascer e uma mochila pesada teria em mente.
– Vamos apertar a campainha das casas e sair correndo!
Não houve tempo de articulação e defesa de tese, o mais gordinho da turma apertou e saiu correndo seguido pela turma em direção ao final da rua, ouvindo os berros da moradora ao fundo:
– Na próxima vou lhe dar uma chinelada, seus moleques!
Naquele momento atravessando a avenida, surgia a Gangue do Meio dia, com um sorriso de confirmação e cumplicidade e muito sebo nas canelas para todas as aventuras que iriam ocorrer ao longo daquele ano de 1996.
A lógica de trabalho era a mesma, um abençoado ia na frente, olhava onde tinha campainha, avistava-se se tinha alguém na garagem e acenava para o apertador da vez, para aqueles que estavam cansados no dia, bastava um regra de sobrevivência:

“Continue andando normalmente, não olhe para trás e não ria” o que era impossível quando era a vez do gordinho que corria deixando a bunda de fora e o material escolar pelo caminho. Em dias de chuva, o guarda chuva se tornava dispensável pois o vento não contribuía com a competição.
Ao longo dos meses, a gangue além de apertar campainhas, também começou a fazer alguns trotes com amigos de classe. A ideia era expandir o sentimento de união que havia na sala, onde o mais pentelho dos alunos passou o ano apenas respondendo:
– Auau! Professora!
Nos últimos meses do ano, alguns moradores se vingaram. Tomaram choque em campainhas com fio exposto, Correram de cachorros, tentativa de atropelo com bicicleta e contar a travessura para a mãe que significava o mesmo que morrer.
As provas foram bastante cansativas e uma última aventura foi convocada para confraternizar todo o conteúdo da professora Aparecida na escola municipal. Decidimos que todos iriam apertar uma campainha naquela manhã, com as provas e o desenho de Boas Férias nas mãos, a chuva ininterrupta fazia com que andássemos devagar, na primeira casa uma amiga escorregou e quebrou o tamanco da Carla Perez, na segunda um companheiro preferiu se molhar na chuva e esqueceu do laço que nos unia, na terceira aquele gordinho apertou e jogou suas provas para o alto e correu de duas mulheres armadas de pau, um amigo recolhia as provas na chuva na tentativa de salvá-lo pelo menos da surra de sua mãe. Seguindo a regra de sobrevivência, os dois últimos membros ficaram aflitos mas seguiram a regra de sobrevivência. Eis que aquele garoto que apenas latia em sala tomou ímpeto e parou em frente a casa e gritou:
– Auau!
Pegou a mão da última membra da gangue e tacou-lhe um beijo na boca, 1996 chegava ao fim, ano que vem começa tudo de novo.

Obs: Esse texto simples, escrevo para Isael que estudou comigo na terceira série, seus “Auau’s” nunca saíram da minha cabeça, escrevo para recordar a infância deliciosa e aventureira que tivemos. Um abraço.

Barbeiro


Vou contar como me contaram

O cara era sangue bom, barbeiro de qualidade, casado, pai de três filhos, não havia nada que manchasse sua reputação na praça, no salão sempre dava moral para as teorias dos clientes:
– Porra Mathias! O problema do vasco é o Rio de janeiro, se fosse do Rio Grande seria tratado como nação, com devoto e tudo mais.
E ele completava:
– O que faz falta é um Andrada ou Carlos Germano no gol.
No assunto economia, dava aula:
– Porra Mathias! Tô querendo fazer um plano de capitalização
– Compra título do governo, rendimento anual mais interessante.
Mas quando o assunto era adultério, congelava:
– Mathias! A prima da minha mulher vai passar uma semana lá em casa, com as coisas andando meio paradas, fica difícil não pensar em um prato fresco na mesa, entende?
– Aí Klebão, nessa seara eu vou te dever. Você sabe que eu sou evangélico, casado, minha vida é do trabalho pra casa, amo minha mulher, meus filhos e fora isso tô aqui trabalhando ou na igreja.
– Sem ofender Mathias, mas tu nunca pensou em jantar fora de casa? Jogar bola sem chuteira? Sacudir a roseira?
– …..
Pensou mais um pouco, mas falou firme.
– Nnnnnão
Não convenceu nem ele mesmo.
– Tá certo Mathias, você é um exemplo pra nós, eu me esforço e seguro minha onda mas as vezes preciso pescar, se é que me entende.
– Imagino Klebão. Mas como eu sei que uma mulher está dando em cima de mim?
– O olhar é diferente, ela joga mais o cabelo, sorri, usa o batom vermelho, sei lá. As vezes não tem nada disso mas você sente.
Enquanto aparava os pelos do nariz, pensava em algumas situações que teria sido assediado, mesmo na igreja o diabo sempre vem tomar mais um drink. Falando em drink, a história do Mathias é repleta de pormenores, vale recapitular aqui quem era o Mathias antes de casar e se converter.

Nascido e criado em periferia, ouvido abençoado, a primeira vez que colocou a mão em uma sanfona não precisou nem que lhe mostrassem como segurava, deu três folegadas desafinadas, mas na quarta acertou o dedo e o tempo daquela bixa e a poeira subiu no boteco perto de sua casa, a noite chegou e o pequeno Mathias suava e ficava encantado com o excesso de elogios das moças que dançavam e se esfregavam pra ganhar um troco através do meretrício.
Cresceu entre as partidas no campinho e a forrozada no boteco do seu Reis e dona Rosa, Ao longo da infância ganhava doces e refrigerante, com a chegada da adolescência conheceu o álcool e o fruto proibido, aprendeu a beber, cair e levantar, a amar e a desapegar. Seu primeiro ofício foi como animador de um bingo, valendo uma caixa de cerveja com um frango assado. Um ano depois virou forrozeiro, daqueles que faziam a festa das solteiras e das casadas, bebia e cantava dos dois tipos (se é que me entende). A vida atribulada fez com que ele mudasse de cidade e conhecesse a mulher mais bonita da sua vida, largou o forró, a música e tratou de aprender um novo ofício, virou barbeiro, os mesmos dedos que tocavam sanfona também mostrou habilidade com a tesoura. Abriu um negócio próprio, casou, entrou pra igreja, usou seu talento pra ecoar a palavra de Deus, a esposa o tratava como rei, um homem perfeito mas naquele dia, a conversa com o Klebão acendeu uma luz.

Naquele dia mais tarde, o irmão Aristides tinha ligado, convidando o Mathias para uma pelada no campo de futebol sintético que havia inaugurado na cidade ao lado, só pessoal da igreja. Passou um pano em tênis velho, uma blusa do Vila Nova e uma garrafa com agua, beijou a esposa passou a mão nas crianças, disse que voltava cedo.
No carro do irmão Aristides, o cheiro de perfume vagabundo, saiu cantando pneu e aumentou o volume ao som dos Barões da pisadinha, no banco do carona, um camarada que não tinha nem cara e nem intenções cristãs gritava pra fora do carro.
– É o frevo dos magos, porra! Acelera Tide!
A garrafa de Montilla era passada para o banco de trás, ao lado de Mathias, outro desconhecido arrumado pra assistir o jogo e não jogar. Vai dar merda, pensou ele.

O campo sintetico de fato estava inaugurando mas o clima era de festa e não de jogo, garrafa e mulher pra todo lado, um som fuleiro mas animado.
– Irmão Aristides, que merda é essa? A gente num ia jogar bola?
– Relaxa, Mathias. Já já o campo libera e nóis joga, se quiser tomar um goró, eu tenho bala de canela no carro, fica tranquilo.
– Poxa, Aristides. A gente é cristão, isso num tá certo.
– Fala um palavrão, caralho! Tá achando que eu não te conheço, porra. Eu sou aquele cabelinho de fogo do campinho, tu agitava o boteco do Reis e a gente olhando as calcinhas das raparigas dançando, você é um herói pra mim, Mathias. Eu preciso te salvar.
– Eu já tô salvo, casei, mudei de vida.
– Vá se foder, porra! Fiquei quase dois anos na igreja pra tu pegar confiança comigo e agora fica com esse papo de salvação, você tem um dom, precisa mudar a história desse povo e a sua também.
– Tô fora! Já fiz uma escolha…
– Tem uma sanfona ali, toca uns dois forró pela amizade e eu te levo pra casa. Relaxa que eu não conto nada, voce segue sua vida e vou seguir o meu rumo. Olha que eu sempre te ajudei arrumando cliente pro seu salão.

Hesitou, mas era verdade, sem as indicações ninguém saberia do salão.

– Duas do Gonzagão e você me leva pra casa.

– Fechado.

A sanfona arrepiou, o campo de futebol sintético foi amaciando os passos e esquentando o clima, Mathias já estava tocando uma hora sem parar entre goles na Montilla e as tragadas no Derby, pensando no tempo que iria precisar explicar porque chegara as oito da manhã.

– Desistimos do jogo e fomos fazer uma vigília.

– E esse batom na blusa? Esse cheiro de perfume barato? E por que você está chupando bala de canela.

– A vigília foi aonde mais precisam de nós, no bordel. E você sabe que eu adoro canela.

Depois disso, era jogo com vigília toda quarta e sexta. De dia entrelaçava os dedos na tesoura e anoite na sanfona. No salão:

– Sabe Mathias, depois de conhecer você eu larguei a boemia, queria que meus amigos conhecessem você, um exemplo.

– Sabe que eu voltei pro futebol, vamos bater uma bolinha.

– Eu não sei jogar bola.

– Eu também não, mas tem um mês que eu tô jogando toda semana, tô me sentindo outro.

Até na cama melhorou, a mulher que o diga.

Reflexões de uma janela

Dividido entre as dúvidas da vida, nunca sabia onde devia estar seu coração, alguns diriam o óbvio:

– Onde houver mais amor.

Se esta resposta bastasse já havia escolhido. Entenda:

No primeiro lugar, foi onde escolheu semear sua vida, adoeceu, quase morreu mas, não desistiu. Queria estar lá, provar a si mesmo que era capaz de sobreviver, dois anos foram o suficientes para saber que aquilo iria mata-lo, sobreviveu por mais sete, número simbólico do arco íris. Não vivia, convivia, no melhor dia perguntava se ainda havia amor naquela sala vazia, a resposta vinha seca, seguida de um silêncio brutal. Não tinha como continuar mas não sabia se aquele deveria ser o seu destino.

No segundo lugar, não escolheu, foi escolhido. Mesmo que isso soasse novo mas com um sentimento de aventura e frustração antecipada, saber o passado de alguém nos torna refém em repetir um futuro doloroso. Mesmo que a vida não seja uma certeza, a rotina caminha para que não saíamos do lugar comum. Mas havia vantagem em escolher um novo caminho para sua trajetória, era diferente de tudo que experimentou até ali. Ainda assim ali tinha mais amor e um coração carente.

Dormiu tentando escolher, mesmo que a viagem já tivesse terminado.

Quem poderia escolher por ele?

O que você escolheria?

80 tiros

Ele só queria estar só.

Caminhava tarde da noite entre as árvores para que a luz não o encontrasse, não queria ouvir risadas de namoricos no escuro. Tratou de colocar fones de ouvido. Andava devagar para que não acabasse a sensação de estar arrasado, mesmo que a dor não lhe pertencesse.

Começou no final da tarde, olhou no portal de notícias um massacre, uma barbárie contra uma família. 80 tiros foram disparados em direção a uma família de periferia, as balas partiram do exército brasileiro desse país despedaçado em migalhas sobre quem está certo ou errado. Quando morre um inocente, ninguém está certo, o seu silêncio consente com a morte de mais um favelado invisível. O pior silêncio é o do Estado, constituído e democrático ocupado por pessoas que não conseguem fazer uma única autocrítica. Tá foda ser brasileiro assim.

Quando você está indiferente a tudo que lhe cerca, agrade ou não, você concorda com os erros da mão do estado. Quem matou não foram os soldados, foi a instituição que não seguiu a sua finalidade e seus princípios, sejam quais forem, acredito que não seja disparar 80 tiros de advertência.

Reflita: Silêncio é omissão ou consentimento?

Sigamos

Arte por Duke, extraído do jornal GGN.

Hoje foi um dia qualquer (com chuva)

Acordei as nove horas da manhã, tomei café lentamente, revisei as tarefas do dia, fui no mercado comprar cuscuz, aproveitei e comprei leite, farinha, arroz tava na promoção, feijão pela hora de morte e o limão a R$1,99 o kilo, comprei logo três kilos, pra fazer drinks e mais drinks. Em casa já atrasado para pegar o ônibus e ir trabalhar, resisti e não fui com o carro, cheguei atrasado 20 minutos mas ninguém notou, tratei de contar uma piada tosca na copa enquanto pegava o café, cumprimentei os presentes, gritei pela presença dos ausentes e no meu setor uma reunião, um furdunço sobre um equipamento danificado. Procura culpado, aponta dedo, tira dedo, ameaça abandonar o setor, indaga sobre quem poderia ter sido, encontram novos velhos equipamentos com defeitos. Ameaça chover!

A tarde segue maravilhosa em um estúdio pegando fogo, uma entrevista sem fim. No fim do expediente, tempo nublado mas sem cheiro de terra molhada, recuso a carona até a rodoviária pois estou decidido a ir com a bike do aplicativo de mobilidade pela cidade, sinto o vento no rosto, passo pelos noiados, pelas árvores, pelos carros, atravesso pista sem calçada, vou pela terra, pela grama, pela calçada, pelo buraco da pista até que chego na rodoviária e me despeço da magrela que me deu o vento nos braços e o suor no rosto. Estação sem vaga para devolver a bike. A chuva chega!

A cidade some através do temporal, o tempo de uso de bike ultrapassa e terei que pagar uma multa, a chuva faz com que eu faça amizade com outros usuários do aplicativo, xingamos o sistema, a chuva, e as bikes. A vida une as pessoas de alguma forma e não sabemos. A chuva passa!

Volto um kilometro e devolvo a bike, pego meu ônibus, leio um pouco das crônicas do Walcyr Carrasco, que aliás me inspira a escrever esta. Chego em casa e descubro que um grande jornalista morreu, Ricardo Boechat. De fato esse não foi um dia qualquer.

Pela janela, ameaça chover novamente.

Paixão brasileira: Nudes e Fake news

O dia não estava bom. A mina terminou o namoro antes das 8 da manhã, não deixou café pronto como de costume e olha que na noite anterior a “chinelada” foi boa. Mas o que açoitava os pensamentos daquela mulher solteira beirando os 40 anos eram os hábitos domésticos de seu namorido. Ela dormia durante a semana por lá e ganhava uma hora a mais de sono por ser perto de seu emprego, de secretária da floricultura. Em cada noite dormida, tinha que fazer o café, o que não a incomodava pois também tomava. O difícil era o chuveiro frio que ele nunca consertava, e olha que era o ofício dele.

– Tô indo!

– Deixou café pronto?

– Sim, mas tô indo pra sempre!

Bateu a porta.

Geraldo ficou em dúvida sobre o que ouviu, mas em 30 segundos quando Eleonora não voltou para pegar alguma coisa que havia esquecido, se deu conta de que tinha algo errado naquela frase. Na verdade o que aconteceu foi um espetáculo da mais pura sinceridade. Enquanto tomava o café usando meias bicolores, pensava no que poderia ter acontecido para ela tomar aquela decisão, imaginou que ela estava cansada de namorar, queria algo sério, casamento!

Pra Geraldo, estava sério até demais, tinha sobrevivido até aqueles 41 anos sem nunca ter colocado uma reles aliança em seu dedo. Se fosse pra viver a solteirisse, que fosse.

– Ela voltou com aquele ex!

Não havia outra alternativa, por que ela iria deixar aquela vida de mordomia que levava? Cama com um amor peludinho, Chinelada duas vezes por semana e uma vida de rainha naquela casa (empregada também). Com a manhã de folga, resolveu fuçar na internet a vida da Ex e do ex dela. Ali tinha coisa!

Em tempos modernos, com a moderação de perfil, não conseguiu ver nada. Criou um perfil feminino, mandou emoji no direct e ainda chamou de crush. Do outro lado da tela, um ex, que estava carente respondeu com um nudes acrescido de um emoji de coração.

– Que merda é essa? (Geraldo se passando por Tifany)

– Meu corpo desejando o seu, gata. (Ex se passando por ele mesmo)

Em questão de minutos a verdade havia sido revelada, as ofensas encheram o canal sobrando elogios ao contrário. Em menos de uma hora estavam os dois na sala do delegado. Um acusando o outro de falsidade ideológica e o outro por adultério ( ao menos cúmplice) . Para resolver o delegado mandou ligar para Eleonora para saber o que fazer com os dois.

– Prenda os dois, seu delegado! Um me traía e o outro queria uma empregada de graça, eu cansei. isso não é vida!

Delegado acatou e mandou pra cela os dois por uma noite para refletirem sobre suas atitudes e deixarem Eleonora em paz. Noite fria,  cela sem colchão e cobertor…

– Eu tô com frio, posso te abraçar? Disse o Ex.

A noite iria ser longa mas para Eleonora iria ser de descanso, com os pés para cima, vendo tv e tomando café.

Bater ou correr (Um assalto para recordar)

 

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Sexta- feira, dia de pagamento e o melhor de tudo: O dia da entrega do vale transporte. Mais uma vez o Samuel avoado esqueceu de pegar seus vales, esqueceu de sacar algum trocado do salário, esqueceu de desligar o computador mais cedo e também esqueceu que iríamos subir a caminho do ponto de ônibus a pé e sozinhos graças ao seu esquecimento.
Do trabalho para casa, tínhamos dois caminhos até o ponto de ônibus, um cortando pelo mato e outro beirando a pista.

Vantagens de ir pelo mato: Indo pelo mato nós demoramos mais porém é tranquilo, podemos ver o céu estrelado, não tem cachorro louco querendo nos pegar, o risco de assalto é mínimo pois, nenhum bandido passa a noite atoa no mato, tem algumas corujas dando rasante em nossas cabeças, insetos fedidos e alguns buracos, não é de todo mal.
Vantagens de ir pela pista: É mais rápido, os carros podem nos pegar, tem uma cachorra louca que tenta nos atacar sempre, o risco de assalto é grande por que os vagabundos ficam atoa na parada esperando um desavisado para assaltar, porém não tem bichos ou insetos nos importunando. Também não é de todo mal.

Naquela sexta já passava das 23h20 quando saímos do serviço, o que não nos restou dúvida de que se fossemos pelo mato não conseguiriamos pegar o Bus da 23h30, fomos pela pista e no primeiro passo…. TCHORORORORORO (barulho de chuva).
Uma chuva torrencial nos fez mudar o trajeto da parada pretendida que estaria cheia de pessoas e bem iluminada, para ficar em um ponto de ônibus mais perto, sem ninguém e sem iluminação, tudo isso devido ao tempo. Nos dois sentidos da palavra.
Já era hora do ônibus passar e aquela parada escura dava um clima de abandono e insegurança, era tudo uma questão de minutos e o ônibus passaria.
– Bora mermão, passa tudo!
Fiquei sem entender, mas quando olhei para trás já tinha a resposta, ASSALTO.
Dois Adolescentes com uma faca roubando dois marmanjos, fomos para trás da parada e cada um pegou a sua vítima, eu fui rendido por um desconhecido, o Pava foi rendido pelo Capetinha.

Diálogo 1- Eu e o menor desconhecido
– Passa a carteira!
Ele Vasculhou a carteira e não achou nenhuma nota, depois começou a apalpar meu bolsos.
– Mermão, cadê a grana ?
– Pô velho! eu sou quebrado. Eu não sou estudante não, sou trabalhador!                    Grande diferença.                                                                                                                                  – Quê que tu tem dentro dessa mochila, aê?
– Eu tenho um biscoito, tá afim?
– Não, deixa eu vê…
O vagabundo tinha doutorado em mochila, além de achar bolsos secretos, tirou meus livros, coisas, papéis e espalhou tudo no chão. Para minha infelicidade ele achou meus vales transportes do mês inteiro que eu tinha acabado de receber (por isso era doutor em mochila, pois estava em um local super seguro até então), porém mostrou sua compaixão ao me entregar dois vales.
– Toma aê pra tu voltar pra casa.
– Pô! Valeu.
Somente um pobre para entender outro.

Diálogo 2 – Samuel e o Capetinha
– Me dá tua carteira!
– Eu não tenho.
– E cadê a grana?
– Então velho, eu só tenho esse 5 conto aqui.
– Não, de boa, fica com isso pra tu voltar pra casa.
– Velho, se você não roubar esse 5 conto, você não me assaltou.
– Então me dá esse 5 conto, o celular com a tela quebrada e esse casaco fedido. E não olha pra minha cara, otário. (Som de tapa no rosto)

E lá se foram os bandidos com as minhas coisas e os 5 conto do Samuel pra tornar o ato  em um assalto digno de ponto de ônibus.
– Porra velho! Eu não tenho nada aqui, como vamos voltar?
– O meu assaltante ainda me deixou com dois passes, aproveita e dá sinal que o nosso é esse aí.
Dentro do ônibus, em pé, molhados e com cara de bunda, Samuel começa:
– Eu fiquei te olhando pra gente correr…
– Correr? eu queria era dar um cacete naqueles moleques.
– Tu acha que é Rock Balboa é?
– E tu é o Papa Léguas é?
– Se tivéssemos corrido, não tinha acontecido nada.
– Por mim, a gente tinha decido o cacete.

E assim fomos até chegar em casa, resmungando a melhor saída,

que no fim não aconteceu.

Democracia é o C@®@|#0, eu quero é ditadura!

Parece idiota escrever, mas apenas relato os fatos registrados por esses meus olhos castanhos e minhas duas orelhas de abano que servem para apoiar os óculos escuros quando dirijo o carro usado em direção ao trabalho.

O pior de tudo, não estava bêbado, doente ou fardado. Simples cidadão pacato de uma cidade pequena, enquanto esperava na fila da lotérica para fazer sua fé na lotofácil que de fácil não tem nada, ele falava ao celular aos berros com alguém que parecia estar se divertindo do outro lado da linha com a exaltação daquele homem. Coisa de uns 30 e poucos anos, alguém que provavelmente não viveu a ditadura e nem teve educação pública de qualidade, o resultado são essas frases catástroficas vomitadas de graça pela rua.

– Na ditadura não tinha vagabundagem!

Tinha e sempre terá. Isso é uma questão de acesso a uma vida digna, o que nunca existiu nesse país.

– Na ditadura, os militares fizeram grandes obras.

A usina nuclear Angra, a Transamazonica… Só falta funcionar devidamente.A aglomeração urbana nas capitais surgem com a falta de investimento rural familiar e outros atos coronelistas consentidos pelos militares do poder.

– Militar morre pobre.

Para o nível de riqueza sim, morre pobres. Para os padrões de pobreza morrem ricos. Os pobres mesmo, nunca tiveram nada do governo militar, só a FEBEM para trancafiar os delinquentes e iniciar um projeto de encarceramento em massa que perpetua até hoje.

Por fim, gofou na fila:

– Democracia? Democracia é o caralho, eu quero é ditadura!

Coreia do norte, República do Congo e Arábia saudita são belos exemplos de antidemocracia, faça as malas e liberte se.

Está só começando.

 

Algumas fontes de pesquisas:

Obras de infraestrutura do Brasil na ditadura

https://vestibular.uol.com.br/resumo-das-disciplinas/atualidades/ditadura-militar-grandes-obras-e-truculencia-policial-sao-algumas-herancas-do-regime.htm

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/04/01/conheca-dez-historias-de-corrupcao-durante-a-ditadura-militar.htm

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-38337544

http://www.boatos.org/politica/presidentes-militares-do-brasil-morreram-pobre-diz-boato.html

http://www.boatos.org/politica/presidentes-militares-do-brasil-morreram-pobre-diz-boato.html

Descompasso

Nem era data especial, mas ele queria comemorar. Terça às 10h, dia da desistência da coragem, um tributo a derrota. Mandou whatsapp para todos os contatos.

Churrasco e piscina aqui em casa, cerveja liberada. Agora!”

Em pouco tempo começaram a chegar as respostas.

” Hoje não rola”

“Infelizmente pintou um problema”

E o pior de todos os comentários

” Vou ver…”

Na verdade, todos estavam imersos em suas bolhas digitais, olhando o mundo de imagens no celular e passando o Scrolls enquanto esperavam chegar em casa para reclamarem do trabalho e da falta de dinheiro e o quanto se sentiam desvalorizados. No trabalho, enquanto olhavam as imagens, contavam as horas para irem para casa. Ninguém se ligou que era uma terça e que era agora.

Para viver não há pressa, nem pausa.

O colecionador de derrotas

Não levantou mas já estava acordado, não iria fazer diferença nenhuma, lá fora chovia e dentro de casa só havia espaço e silêncio, coisa que todo adulto almeja, não precisava fazer café. Na verdade não precisava fazer nada, não tinha motivo nem animo para levantar, abrir os olhos seria o máximo de esforço, enfim, desistiu do tédio e levantou. Pensando no quão  pode ser controverso a vida, lembrou que demorou a pegar no sono na noite passada, mesmo chegando bêbado, resistiu e bebeu a última cerveja da geladeira que agora só tinha água, uma melancia murcha e meia cebola, quando falam que vida de solteiro é boa esquecem de dizer sobre fazer comida para apenas uma pessoa, isso sim é um tédio.

A primeira derrota podemos dizer que foi a separação, mas não podemos atribuir isso apenas ao amor, essa palavra é complicada, construir tem mais sentido, digamos que uma relação para durar necessita construir pontes, e no caso dele, algumas não saíram do projeto.  Uma vida a dois envolve respeito, carinho, ajuda mútua, cumplicidade e muito bom humor. Não faltou nada disso. Na verdade sobrou, exceto sonhos, esses já não eram os mesmos.

Não demorou muito para que a solidão estimulasse a volta de sentimentos antigos, ideias que não atormentavam a mente quando jovem retornaram com intensidade, acordou tarde na véspera do aniversário, chovia forte lá fora, não tinha mensagens, não tinha amigos nem motivo para comemorar. Entrou no carro e decidiu dirigir por duas horas para conhecer seu verdadeiro pai, isso lhe encheu de alegria, lhe deu ânimo, sentiu-se vivo. Uma peça do seu quebra cabeça iria ser colocada no lugar, não tinha expectativa mas no fundo queria chegar no encontro, chorar, abraçar, sentar na mesa com a família, ouvir e contar histórias, ser convidado para o almoço da semana seguinte mas, nada disso aconteceu. Houve uma conversa rápida e fria, zero de afeto e empatia, mas aquele homem branco, áspero, era seu pai. Ao tentar aproximação pela internet teve seu contato bloqueado, a vida voltou ao estado monocromático dos últimos meses. Foi uma boa experiência, pelo menos pagou pedágio, viu outra cidade, se perdeu, achou seu pai e perdeu-se novamente.

Buscando refúgio para outra vida, resolveu buscar abrigo na fé, encontrou respostas, caminhou com direção, seguindo as setas amarelas, achou no silêncio a resposta que nunca ouviu nos ruídos de sua rotina, o segredo de uma nova vida era terminar esta que ainda vivia enquanto havia tempo. Na volta pra casa, em seus hábitos de costume, saiu do único motivo que o tirava de casa nos fins de semana, o grupo de serviço da igreja, ali já não havia fé, mas ele acreditava na mudança do ser humano, quando alguém não muda mas muda os outros é um sinal de que você não pertence mais a aquele lugar. Assim deixou toda uma série de palavras nas paredes, calos de suas mãos pelo chão e muito do seu suor em cada canto daquele santuário, quando se vive pela fé é difícil, no primeiro momento acreditar que a sua crença está no seu coração e não em um lugar. Você é um ser pleno, portador de toda luz nessa vida mas pra entender isso leva tempo, finito e temeroso tempo da vida.

Por fim, ainda sem rumo, encontra parte de uma vida despedaçada que lhe ajuda a colher alguns cacos pela rua, estranho seria se nada acontecesse nesses dias cinzas. O sorriso, a falta de obrigações, tudo vira uma boa notícia nesse caminho espinhoso, o problema é apenas aceitar que existe uma competição invejosa como se ele fosse lutar por alguma coisa, ainda assim, demais pessoas acreditam que ele seria capaz de roubar algum coração estando nesse estado, ele está na enfermaria e não em uma competição esportiva. Ao conhecer alguém novo você também ganha novos odiadores, mesmo que você não tenha aonde colocar os troféis de tantas derrotas.

Ainda assim ele pensa em como recomeçar sua vida, todos os dias.