Vendedor de Histórias

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Rodoviária de Brasília, seis da tarde, uma corrente sanguínea entre os que precisam ir e os que chegam para irem mais longe de onde vieram. Um pontinho preto no meio do quadro do Romero Brito, este sou eu. Os passageiros disputam espaços entre os pombos que farejam migalhas e os ambulantes que mais parecem anunciantes de Herbalife há um passo para bater a meta do mês. As meninas seguram a saia e os cabelos para não pegar o cheiro da fritura dos pastéis. Os meninos com o vale na mão contam os minutos para chegarem em casa a tempo de verem o início da partida.
As senhoras com suas sacolas enormes pedem ao motorista para entrarem pelos fundos por conta da muamba. Os idosos ostentam sua identidade, intimidando aqueles que ainda pagam passagem.
Eu estou a caminho da fila do meu ônibus que mais parece o último trem saindo da Serra Pelada, sem pressa, vou caminhando observando as peculiaridades daquele lugar exótico e seus personagens.
– Ei brother! Como vai?
– Bem…
– E sua mãe?
– Tá bem.
– Sua mãe é uma mulher de ouro.
– É…
– Brother, saí do lava jato, depois fui tentar algo na padaria da esquina mas também não deu certo.
– Tá difícil pra todo mundo né?
– Oh! Aí resolvi tentar vender uns perfumes aqui.
– Que boa notícia.
– Olha só, leva esse Givenchi para tua mãe e pega esse Ferrari pra você, pelos velhos tempos, tua mãe me ajudou muito, devo muito a ela.
– Eu não tenho dinheiro.
– Quem tá falando em dinheiro? É pela amizade.
– Que seja, obrigado.
Me viro e vou indo em direção a minha fila.
– Oh irmão! Faz um favor pro seu brother aqui.
– O que?
– Me paga um lanche que eu tô cheio de fome.
– Cara mas eu só tenho…..
Neste momento o perfumeiro pegou rapidamente oito reais de minha carteira com um passe me deixando apenas com um.
– Tá tudo certo, com esses oito eu tomo um caldo com pastel e esse passe eu volto pra casa, aquele abraço na sua mãe.
Já na fila, minha namorada chega e pergunta:
– Você tem um vale sobrando?
– Não! Só perfumes.
Contei toda a história que havia acabado de vivenciar, uma história de superação, de força de vontade, de coragem. O cara tá na luta, não desistiu.
– Amor isso não perfume, é água com amaciante.
– Como eu ia saber.
– E você conhece ele de onde?
– Nunca vi mais magro.

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Collor é meu Brother!

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Nos bastidores do supremo, ouvia-se todos os tipos de comentários

– Que Ferrari é aquela?

– Modelo exclusivo de colecionador!

– Lamborguini, sabe quando eu consigo comprar um? Juntando dinheiro por 3 anos.

– Vocês falam desses carros porque nunca tiveram um Bentley, eu já tive um, inclusive quando ele era presidente, mas aí veio o congelamento da poupança, overnight, Semp toshiba stereo, playboy da Malu Mader…

– A Malu Mader nunca posou nua.

– É por que ele nunca dirigiu um Bentley.

A sessão inicia no horário habitual, todo mundo de pé para receber os ministros, café e água para o colegiado e pronto.

– Dou aberta a 40440494922 sessão desta casa.

Todo mundo senta e começa olhar o celular durante aquela leitura interminável de processo contra o ex presidente Collor, até que chega a hora mais esperada.

– O advogado do réu está aqui para pedir a devolução dos carros, entre eles um Bentley, que é um carro maravilhoso com o máximo de conforto e desempenho, apesar de nossas estradas estarem sucateadas desde a época em que o réu era presidente que ao meu ver fez uma péssima gestão, inclusive a única coisa que salvara aquele momento era a novela Selva de Pedra e a playboy da Malu Mader.

– Meritíssimo, Malu Mader nunca posou nua.

– Se tivessem oferecido essa oportunidade, duvido que ela negaria. Que mulher!

O ministro careca, baixinho da direita interrompe:

– Questão de ordem, voltemos aos fatos. Prossiga a leitura ministro.

– Bem, o advogado de defesa do réu pede a devolução dos carros de luxo para cuidados com sua manutenção.

O advogado com terno alinhado, uma pasta preta, gravata com tom cinza, óculos do Harry Potter inicia seu discurso legitimando os cuidados necessários com aqueles modelos exclusivos de luxo.

– Meritíssimo, o meu cliente comprou de forma licita os carros e os mesmos pedem uma manutenção e cuidados específicos.

– De certo, sou favorável pois sabe, eu tive um Bentley. Sei dos cuidados que precisa, inclusive de lavagem.

No auditório ouviu-se

– Lavagem de dinheiro.

– Sessão encerrada. Disse o Presidente da mesa.

De volta aos bastidores, o ministro encontra-se com o advogado

– Será que eu não poderia dar uma voltinha no Bentley antes de devolver.

– Creio que não ministro.

– Pergunta pra ele se ele lembra do Teo, fomos amigos de infância. Collor é meu amigão

– Oh se é.

Ordem é a questão.