A gangue do meio dia (1996)


O ano é 1996, a cidade de Valparaiso de Goiás é criada e deixa de ser um distrito de Luziânia, terá a sua primeira eleição municipal.
Enquanto um lado da cidade curtia o final do verão ao som da dança da bundinha (É o tchan) e boquinha da garrafa (Companhia do pagode), os bailes sacudiam ao som de Claudinho e Bochecha com Nosso sonho. Em alguma avenida, algum walkman o Skank tocava Garota Nacional. Mas o que vai parar o Brasil é o acidente causando a morte do Mamonas Assassinas e logo em seguida o surgimento do ET de Varginha durante a programação do Fantástico, na TV Globo que além disso lança a novela Rei do gado. Em outro canal surgia o Cidade Alerta, falando do aumento da violência nos grandes centros urbanos.
O Beep e o celular se popularizam, assim como a compra de computadores e o acesso a internet, mesmo que apenas para bater papo no BOL e carregar algumas fotos de conteúdo proibido para menores. A tecnologia conquista a criançada com o lançamento do Tamagochi. E no Brasil,a política mudava de rumo com a chegada das urnas digitais.
Tudo isso não bastou para que o ano fosse memorável para a turma da Tia Aparecida, que na terceira série procuravam aventura na saída da escola. Uma média de seis crianças entre meninos e meninas, entre eles um gênio:
– Tive uma ideia!
O que uma criança de 10 anos sem nenhum pêlo no sovaco, ainda faltando um dente nascer e uma mochila pesada teria em mente.
– Vamos apertar a campainha das casas e sair correndo!
Não houve tempo de articulação e defesa de tese, o mais gordinho da turma apertou e saiu correndo seguido pela turma em direção ao final da rua, ouvindo os berros da moradora ao fundo:
– Na próxima vou lhe dar uma chinelada, seus moleques!
Naquele momento atravessando a avenida, surgia a Gangue do Meio dia, com um sorriso de confirmação e cumplicidade e muito sebo nas canelas para todas as aventuras que iriam ocorrer ao longo daquele ano de 1996.
A lógica de trabalho era a mesma, um abençoado ia na frente, olhava onde tinha campainha, avistava-se se tinha alguém na garagem e acenava para o apertador da vez, para aqueles que estavam cansados no dia, bastava um regra de sobrevivência:

“Continue andando normalmente, não olhe para trás e não ria” o que era impossível quando era a vez do gordinho que corria deixando a bunda de fora e o material escolar pelo caminho. Em dias de chuva, o guarda chuva se tornava dispensável pois o vento não contribuía com a competição.
Ao longo dos meses, a gangue além de apertar campainhas, também começou a fazer alguns trotes com amigos de classe. A ideia era expandir o sentimento de união que havia na sala, onde o mais pentelho dos alunos passou o ano apenas respondendo:
– Auau! Professora!
Nos últimos meses do ano, alguns moradores se vingaram. Os meninos da gangue tomaram choque em campainhas com fio exposto, correram de cachorros, tentativa de atropelo com bicicleta e contar a travessura para a mãe que significava o mesmo que morrer.
As provas foram bastante cansativas e uma última aventura foi convocada para confraternizar todo o conteúdo da professora Ana Aparecida na escola municipal. Decidimos que todos iriam apertar uma campainha naquela manhã, com as provas e o desenho de Boas Férias nas mãos, a chuva ininterrupta fazia com que andássemos devagar, na primeira casa uma amiga escorregou e quebrou o tamanco da Carla Perez, na segunda um companheiro preferiu se molhar na chuva e esqueceu do laço que nos unia, na terceira aquele gordinho apertou e jogou suas provas para o alto e correu de duas mulheres armadas de pau, um amigo recolhia as provas na chuva na tentativa de salvá-lo pelo menos da surra de sua mãe. Seguindo a regra de sobrevivência, os dois últimos membros ficaram aflitos mas seguiram a regra. Eis que aquele garoto que apenas latia em sala tomou ímpeto e parou em frente a casa e gritou:
– Auau!
Pegou a mão da última membra da gangue e tacou-lhe um beijo na boca, 1996 chegava ao fim, ano que vem começa tudo de novo.

Obs: Esse texto simples, escrevo para Isael que estudou comigo na terceira série, seus “Auau’s” nunca saíram da minha cabeça, escrevo para recordar a infância deliciosa e aventureira que tivemos. Um abraço.

E sexo? Você já fez? [+18]

censurado

Samuel era um cara relativamente tranquilo, teve uma vida normal, pais normais, educação normal, juventude normal. Nunca foi o primeiro da turma, nem o último. Não se dava bem com futebol, não tinha talento para tocar violão, não tomou pinguerante, não saía nos finais de semana, não desenhava, não tinha coragem pra tatuar, não curtia igreja e pra finalizar, não beijou na boca. Masturbação é outra história, que não convêm ao caso, por enquanto.

Sem muito esforço ingressou na faculdade, também sem muita empolgação começou a estagiar em uma repartição pública, foi jogado para o setor da informática, usava óculos, meio caladão, devia ser nerd. Pelo menos alguém iria garantir o download de Spartacus em 1080HD. A rotina era a mesma, trocar toner, passar antivírus e abrir power points com mensagens imprescindíveis para sobrevivência ao tédio da vida, esperar o quinto dia útil do mês seguinte.

Em uma dessas jornadas que consistia checar o vírus e a paciência (Da máquina e a dele mesmo) conheceu Raquel, os amigos do setor deram uma mãozinha e arrumaram um cinema para os dois. Deu certo, ela se adiantou e o beijou, segurou na mão dele na saída e deixou claro:

– Nós somos namorados agora, se eu pegar você olhando outra, lhe sento a mão!

Foi mais que isso, Raquel era divertida, bebia, ensaiava fumar maconha mas ficava só no cigarro de baile, adorava música alta, lugares lotados, sentia-se viva ouvindo o mundo e dançando ao mesmo tempo, Samuel só pensava em uma coisa: quando o sexo iria rolar.

Na sala da informática, o bullying rolava solto, recebeu nomes e ofensas gratuitas sobre ainda não ter transado com aquela esquisitinha que ficava na reprografia.

– Você precisa chegar nela, agarra-la, tirando lhe o ar. Disse o sedutor

– Que nada, quando for levar ela pra casa, passa em frente a um motel e deixa o carro morrer, diz que o jeito vai ser dormir lá. Adestrou o canalha

– Fala logo: Vamos transar? Orientou o sincero

Não tinha muita opção, apesar da pressão dos colegas, Samuel estava subindo pelas paredes toda vez que Raquel lhe beijava. Lhe faltava palavras , o ar, o norte, as pilhas, a decência e claro, a coragem. Bastava um abraço apertado para sentir o corpo em erupção, bastava um beijo perto da orelha e o mundo vinha ao chão, tava difícil segurar a onda. Raquel estimulou em uma semana o que Samuel não havia sentido por ninguém a vida inteira.

Num sábado anoite, casa vazia, convidou a gata para ver um filme. Acendeu incenso de Umbanda, fez uns sanduíches sem maionese e salada, só pão e hambúrguer, pra finalizar abriu a garrafa de vinho seco e serviu os dois, em um copo achou a coragem que nunca teve.

– Raquel, eu queria falar uma coisa com você.

– Diz logo, odeio suspense. Sobre o que é?

– Sobre sexo, você já fez?

– Não! Sou virgem.

– Mas você é toda descolada e tals…

– Mas continuo virgem e não vou te dar, na real, vou nessa.

Saiu fora. Samuel terminou a garrafa.

– Relacionamento é um troço complicado!

Dormiu vendo o filme.