Futebol de pequi

O talento com as pernas era inegável, mas a concorrência também era grande, todo dia nasce um novo Neymar na periferia, a invisibilidade social muitas vezes lhes tiram o sonho mas também lhes permitem não desistir daquele único sonho possível, até porque o futebol é fácil de fazer acontecer em qualquer lugar, basta uma bola e quatro pedras, o resto é a criatividade quem ensina.

Todo menino que gosta de futebol sonha em jogar em um time famoso, de preferência no circuito Rio-São Paulo, mas estes dois começaram na base no “Alô Alô”, em Brasília, time com nome de bloco de carnaval, porque foi daí a sua criação, uma mistura de euforia com determinação, do jeito que nasce o sonho em toda criança na favela. O time tinha poucos recursos, O técnico era um senhor apaixonado pelo América, dos tempos de ouro, quando o futebol tinha muito de arte e pouco de técnica, até o doutor Roberto Marinho, dono do jornal o globo era torcedor. O coroa sempre ensinava boas lições sobre companheirismo e jogo em equipe, afinal, o que se leva da vida e a vida que se leva. 

De peneira em peneira,ninguém sabe como aqueles dois meninos, cada um vindo de um canto do país, vieram parar ali. Os dois de família humilde, educação pública do jeito que deu, alfabetizados e capazes de contar os pontos em cada partida. A força de vontade e a fé não fizeram desistir de suas trajetórias.

Depois de anos passando morando em todos os cantos desse país e passando por vários times, agora eles estavam na série B, se encontram em times opostos, Remo (PA) e Vila Nova (GO), o jogo aconteceu em Belém, e os convidados foram de ônibus pela Belém- Brasília, na janela dava pra ver o filme da vida passando junto com a paisagem da estrada, ná rádio do ônibus tocava a música do Roberto Ribeiro: “Todo menino é um rei, eu também já um rei…” 

O time era esperado com um banquete paraense, maniçoba, arroz com jambu e tacacá. Culinária indigena, com um aspecto diferente, mas bem saboroso. Na verdade, o time anfitrião tinha o interesse de causar constipação no time visitante com as iguarias do norte, o que eles não esperavam era que os goianos também trariam um artefato de valor simbólico e comestível, o pequi. Ah nisso você precisa me ouvir, pequi foi feito apenas para os goianos. Não precisa pegar, cai no chão. Não precisa abrir, ele racha. Não mastiga, é só roer.

A partida foi uma típica pelada de domingo entre solteiros e casados, depois de uma feijoada. Barriga pesada, pernas lentas e o calor de Belém deixavam o jogo uma verdadeira tortura, ninguém corria. O segundo tempo virou praticamente um toque de bola por quase quarenta minutos, a bola ficou por dois minutos no meio do campo, a coragem não foi convocada para a partida, os técnicos sentados nos bancos de reserva evitavam gritar para não desmaiarem. Aqueles dois amigos da época, resolveram ir atrás da bola, se trombaram e fingiram se machucar para serem carregados pelos paramédicos, que estavam dormindo dentro das ambulâncias. O juiz também esgotado resolveu finalizar a partida dando o direito a um pênalti para cada agremiação.

Os goleiros estavam animados, levantaram para fazer jus ao escudo no peito, a defesa goiana reagiu melhor defendendo a bola no canto esquerdo enquanto a defesa paraense perdeu o rumo e permitiu que a bola entrasse e marcasse o único gol decisivo da partida, o pequi roído no bolso de cada jogador goiano deu sorte e fez com que saíssem vitoriosos com 1×0. Depois da partida, todos entraram no ônibus e dormiram por horas, na próxima não iriam se aventurar na recepção gastronômica antes do jogo.

Os anos 2000 e meu recalque

A revolução dos anos 2000 foi intensa e definitiva, começamos a migrar a passos lentos para o mundo digital. Qualquer adolescente no início dos anos 2000 teve contato com  filmes em DVD, dando fim a era das fitas VHS, filmes sendo substituídos por animações em 3D nos cinemas e a um celular, porém sofrendo com o dilema de não ter crédito para ligar. Fizemos nosso primeiro e-mail gratuito no BOL (Brasil On line) e em seguida criamos nosso perfil no orkut, que viria ser a febre da socialização virtual. Vale lembrar que o MSN, um software de troca de mensagens instantâneas lotavam as Lan-houses com intuito de bater papo, conhecer gente e atualizar o status com uma frase ou a música que estivesse ouvindo no momento.

O ano era 2004, estávamos no último ano do ensino médio, 30 jovens sem perspectiva de futuro nenhuma, mesmo declarando os cursos superiores que desejavam fazer. Em quase nossa totalidade, todos queríamos arrumar um emprego. Para os homens havia a possibilidade de servir o exército e as meninas conseguirem algo que não exigisse experiência. Mesmo com um futuro não muito animador, superficialmente todos falavam de  faculdades e de como iriam entrar na UnB: fosse pelo vestibular, fosse pelo Programa de Avaliação Seriada, o PAS. A real é que tínhamos esperança de dias melhores, de fato sobrevivemos a um ensino médio sem uniforme, sem professor, sem lanche e sem livro. Talvez em alguma escola, as condições fossem outras, mas na nossa, a situação era essa. Alguns colegas com estrutura familiar, um pouco de informação e renda fixa, faziam cursinhos para compensar o tempo perdido.

A nossa turma tinha um diferencial, queríamos estar juntos. Todo aniversário de algum colega era motivo para uma festinha tocando os hits do momento. Quintal decorado com um pouco de balões espalhados, uma mesa com o bolo e umas garrafas de refrigerantes e um som que tocava 3 em 1 (Disco, CD e fita K7). Para dar um clima de boate, as luzes eram apagadas e ficava apenas uma lâmpada pintada de tinta guache preta, que refletia sua luz em  alguns CD’s descascados na parede, trazendo uma atmosfera psicodélica mas sem álcool ou qualquer droga ilícita, quando surgia um goró, chamávamos de pinguerante devido a mistura, bebíamos em goles rápidos a fim de libertar nossos sonhos reprimidos pela dura vida que levávamos. O final do ano se aproximava, os professores aconselhavam sobre como era o dia-a-dia na universidade pública, sobre as festas do cursos e a rotina de livros e cópias. Nenhum falava sobre como fazer um currículo, como se comportar em uma entrevista de emprego ou onde procurar vaga. Os professores também sonhavam com os nossos sonhos.

Naquele mesmo ano, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) seria gratuito pela primeira vez a todos alunos que estavam concluindo o ensino médio nas escolas públicas, mesmo sem perspectiva eu fiz o exame e acredite, eu fui bem. Em janeiro do ano seguinte, o governo havia criado o Programa Universidade para todos (PROUNI) e eu com a minha nota do ENEM consegui uma bolsa 100% para fazer uma faculdade, aí sim eu entrei em um universo do qual eu nunca teria me visto. Eu acabei descobrindo que eu amava estudar, principalmente pelo fato de ser algo novo, sem uniforme, com gente diferente, com clima de vida adulta, mesmo sem ter um único centavo no bolso. 

Um dia comum em uma turma de Publicidade em 2006

Os anos seguinte continuaram com suas mudanças, posso dizer com tranquilidade que eu vi a banca de jornal morrer, os orelhões se tornaram cada vez mais obsoletos, as grandes franquias como O senhor do Anéis, Harry Potter e X-men enchiam as discussões entre os amigos devido aos seus efeitos especiais. Mas o que marcou minha vida foi o rock nacional independente. Durante minha vida toda eu escrevi letras de músicas e cantava na porta de casa para quem quisesse ouvir, durante o período escolar ainda montamos uma banda para tocar as minhas músicas, essa foi a fase mais legal da minha vida, eu me sentia um popstar, colocavamos as músicas em site chamado TRAMAVIRTUAL, que servia de divulgação para artistas do Brasil inteiro. O movimento underground usava os recursos virtuais para divulgarem suas músicas e atividades. Em minha cidade como não havia essa cena eu organizei alguns shows para nossa banda tocar. Os blogs surgiam com o intuito de externalizar emoções e opiniões através de um diário virtual, as páginas de fotos exibiam momentos registrados pelas novas máquinas digitais. Mas de tudo isso, eu sempre pensava que havia sido desleixado com meus estudos, mesmo vivendo uma juventude bacana, eu me sentia burro. Precisava ler mais, estudar mais, continuar até provar algo que fosse capaz: Passar na UnB. 

Afinando o baixo, minutos antes da apresentação.

De lá pra cá, foram 16 anos de estudo ininterruptos. Não sou nenhum gênio, não virei juiz nem diplomata, nem passei no melhor concurso público. Mas eu fiz muitas coisas das quais eu nunca tinha sonhado, conheci países, pessoas, realizei alguns prazeres pessoais, entrei em lugares que a minha vida econômica nunca permitiriam entrar, comi coisas sem gosto mas semblante de prazer porque era de conquista. No fim de tudo isso, pra dizer: – Eu passei na UnB!

Sim, passei. Mas o meu tempo também passou, meus objetivos são outros, meus sonhos são diferentes, mas esse recalque eu superei.Escrevo tudo isso para ir me livrando do passado que vive fresco na minha memória. Preciso cada vez mais estar conectado com o presente, e se quiser uma dica valiosa: Faça o mesmo! Viva como se houvesse um final mas não esqueça o que lhe trouxe aqui.

Eu acredito em você!

Último dia de aula de 2004. Provavelmente eu fui de chinelo.

Reflexões Visuais

Fiz uma pesquisa rápida entre os meus, perguntei quantas fotos haviam no celular de cada um. Pasmem! Eu fiquei na lanterna com quase 600 fotos, o primeiro atingiu a marca de 1.083 fotos. Já pensou se tivéssemos ainda que revelar para ver as fotos registradas? Antes, ostentação era um filme com 36 poses com ISO 200, ótimas para fotos noturnas, sem falar da necessidade de pilhas para os flashes. Mas o que faz com que tiremos tantas fotos virtuais? Em geral, a resposta a essa pergunta se dá pela necessidade do registro histórico do tempo, seja uma atividade, um momento familiar, muitas vezes um acontecimento marcante como: uma festa, um aniversário ou um lugar diferente. O que percebo é que pouco se fotografa sobre as trivialidades da vida, o dia comum, a rotina, os hábitos normais impostos pela vida cotidiana. É fato que todos usam o celular, não apenas pela qualidade média do aparelho, mas muito pela velocidade de estar pronto para o momento que se deseja registrar. Quando surgiram as primeiras máquinas digitais, a discussão se dava pela velocidade do registro, impossível ter a imagem congelada de um cachorro correndo, mas se nós somos capazes de pedir carona pelo celular sem sentir vergonha (inclusive, pagamos por isso) como não iríamos ter fotos mais velozes, inclusive mais bonitas. Creio que o problema agora são as fotos de fato, tratadas. Em uma experiência de montar um estúdio fotográfico(como fonte de renda e de sobrevivência mental durante a pandemia) todos os ensaios realizados rendiam críticas ao tratamento básico que era dado nas fotos. Querem fotos que distorçam a realidade e vendam uma estética quase plástica porém que não conflite com a realidade, querem mais tratamento digital que cubra as imperfeições do que os traços que delineiam a vida real. Fotógrafos, todos somos, a virtualidade nos deu esse título mas, muitas dessas imagens ficam perdidas no banco de memória do celular, também há uma necessidade de tirar repetidas fotos para que se encontre a foto ideal, digna de tornar-se pública. Com os stories das redes sociais mais populares (Instagram e Facebook) há uma certa corrida pela vaidade e atualização constante de uma vida repleta de coisas legais. Fragmentar o dia em uma única foto boa, transformar um passeio ou uma viagem em um momento inesquecível é mais importante do que apreciar o momento. A verdade é que as imagens nos permitiram exibir uma vida diferente, medida em likes, utilizando as imagens e manipulação digital para que possamos mentir melhor.

Estamos em um mundo imerso em imagens e é muito difícil resistir a elas.

OBS: Esta foi a foto que eu tirei com minha primeira camera digital, em junho de 2007. Um casaco e uma calça jeans, uma tv 14 polegadas de tubo, livros e CD’s empilhados.

MADE IN BRAZIL

Eu tenho muitas manias e acho que com a idade me tornei metódico por causa delas. Um exemplo clássico é sempre cheirar tudo. Eu cheiro a tampa da marmita, zíper de roupa, chave de boca, buraco de parede, gelatina quando mistura a água quente, celular novo, meias antes de usar… A lista é extensa, mesmo sentindo o cheiro no ambiente, eu cheiro de novo pra ter certeza. Mas umas de minhas manias é olhar de onde vem as coisas. Eu sempre olho onde é a fábrica, a cidade de onde vem o produto, o país que foi fabricado. Faço isso associado a um sentimento de descoberta. Molho de tomate eu percebo que todo lugar tem uma fábrica, às vezes vou no google maps ver onde fica a cidade e descubro que não tem quase nada de área rural e penso: Onde é que conseguem plantar tanto tomate assim? Em outras situações, me exalto de alegria ao saber que algo é fabricado ou distribuído em cidades vizinhas a minha e acredite, eu pulo de alegria ao saber que comprei algo que foi feio na minha cidade ou perto, seja roupa, sabão, veneno, pimenta, o que for. Eu compro e imagino aquele monte de gente empregada saindo da fábrica, morando pertinho do trabalho com o uniforme da empresa. Eu vejo na minha mente essas imagens, além da sensação de estar ajudando o empreendimento local a crescer. Mas reconheço, tem produto que é uma porcaria, seria melhor que a fábrica fechasse, ainda tem aqueles produtos que desaparecem e nós ficamos com um vazio, sabendo que poderíamos ter aproveitado a maravilha que tínhamos à disposição.

Agora vem a melhor parte. Eu amor ler os “Made in”, um dos meus passatempos favoritos é descobrir o país de origem das coisas, e eu fico pasmo sabendo que não tenho quase nada produzido no Brasil, principalmente coisas que utilizam plástico, led e algum orifício que se inclua na tomada. Devíamos produzir mais, pra ter orgulho e com certeza pagar menos, com a sensação de dever cumprido, o exemplo é a vacina de COVID-19 desenvolvida pelo Instituto Butantan, com um pouco mais de investimento, nós já teríamos fabricado doses para todos os brasileiros sem apoio internacional, mas isso é outro caso, politica não é uma das minhas manias, olhar a evolução de patrimônio dos políticos é um hobby, também fico horas olhando o portal da transparência, e sempre fico pasmo com o tanto de dinheiro que esse país tem e emprega mal, por fim, com a sensação de nada estar sendo feito.

Bom, o caso é que sempre leio os “mande in” Com intuito de achar algum país que não seja a China ou os EUA. Essa semana depois das compras no mercado,  que aumentou nosso custo em média 10% (Lá vem a política de novo), fui lavar os potes para colocar os mantimentos e adivinha? Nós temos um pote “Made in INDONÉSIA” e descobri que a cafeteira é “Made in GREECE”. Quanta alegria! Eu adoro ver coisas de outros países, gosto das características próprias, do design, geralmente tem algo diferente, e isso torna único aquele pequeno pedaço de outro país. 

Durante minha passagem pela África, especificamente no Kenya, enquanto participava de um acampamento internacional escoteiro, tive a oportunidade de ganhar muitos presentes de amigos de diferentes países, mas para minha surpresa,a maioria eram produtos fabricados na China. Nádia, uma angolana que desfilava com uma camiseta linda com a bandeira da Angola e um cachecol com os símbolos nacionais queria trocar por produtos brasileiros, me joguei na frente e fiz a negociação. Trato feito. Desfilava com a nova camiseta pelo evento. Chegando em casa, depois de desfazer a mochila e por tudo pra lavar, sou invadido por um sentimento de pasmaceira com euforia. Ao me preparar para desfilar pelas ruas da minha cidade com minha blusa exclusiva da Angola, ao me vestir, leio a etiqueta: 

MADE IN BRAZIL 

LEGENDA: Na foto, Leandro, Eu, Nádia e Fabrício, durante o ROVERMOOT, no KENYA, em 2010.

Formigas não sabem nadar

Mas boiam. E isso assusta. Muito. Não há nada que segure um formigueiro, já vi de tudo no youtube, todas as receitas possíveis: Fumaça, fumo curtido no álcool, bicarbonato de sódio com vinagre, aliás , vinagre combina com tudo, tem estudo dizendo que vão levar pro espaço com a finalidade de testarem a reconstituição da camada de ozônio, vinagre é o bicho da goiaba e a gente não sabe é de nada.

Mas voltando às formigas, elas me deixam estupefato. De onde menos se imagina, surge um formigueiro: das pequenas, das minúsculas, das que parecem piolho, das grandes, das amarelas, das que parecem tanajuras. Ainda tem aquelas que existem para deixarem sua marca no mundo, as de fogo, mordem e fazem-nos lembrar de músculos ou cantos do corpo esquecidos, até então adormecidos, nada é possível para aliviar a dor que elas causam.

Em casa já tentamos de tudo, colocamos cravo em todos os armários, folhas de louro dentro do microondas e até, acredite, até canela em pau em volta de vela , muito similar a um rito religioso, para qual santo pede o afastamento das formigas? Sei que Francisco de Assis é amigo dos animais mas, formiga e mosquito é um pouco de exagero, você não concorda comigo?

Pois bem, no auge do desejo, pedir carinhosamente a minha amada que fizesse um bolo de calda, fosse o que fosse o sabor, mas que tivesse calda. Na minha preferência seria de café e na preferência dela, de cenoura com chocolate. Como um bom marido e ciente de que não quero despertar a ira para uma terceira guerra dentro de casa, aceito de bom grado o que vier. Assim sobrevive o homem médio da família de classe média brasileira: esquece uma toalha aqui, conserta uma coisa ali e a vida segue como o final da novela na globo, pelo menos as antigas.

Um bolo de sabor maravilhoso, aroma inigualável e quente. Tudo que for comer pela primeira vez, escolha ao menos estar quente. O sábio sempre diz: Enquanto estiver quente, está bom. E as formigas?

O que fazer com essas benditas para que não acabem com a iguaria que desejamos comer no dia seguinte durante o café da manhã? De todas as dicas e mandingas descritas até aqui, elas sobrevivem a todas quando se trata de comida, só não entram na geladeira, nosso segredo é manter tudo lá, até as panelas limpas. Lavamos a casa todo dia, por mais que lavemos, elas sempre aparecem. Mas já era de se esperar que minha amada tivesse alguma ideia genial.

“Formigas não sabem nadar!”

Dito isto com o bolo colocado dentro de uma bacia cheia de água, fazendo da forma, um barco flutuante correndo o risco de afundar.

“Agora temos de comer um pedaço de cada lado para que o bolo não vire.”

Tragédia anunciada! Malditas formigas!

Antes de dormir fui ao cais saber se o navio estava em alto-mar ou ancorado e mesmo no centro da bacia já via algumas no meio da água, não se mexiam mas Deus me livre delas saberem nadar, Em pouco estarão lendo esse texto e….

Camaradas Formigas, uni-vos! A geladeira nos pertence!

Qual vacina tomar? Melhor tomar vergonha

Chegou o grande dia. Após um ano confinado em casa, hoje ele vai vacinar. Vale lembrar que não foi um ano fácil, a gripezinha do presidente levou alguns amigos do peito, o álcool da garrafa de pinga virou esterilizante e a convivência com a mulher se tornou inviável abrindo os ouvidos para começar a ouvir o que o cachorro dizia.

O posto amanheceu lotado, até os noiados ficaram para ver a logística da vacinação. A regra de não aglomerar funcionou apenas na presença da polícia, quando a viatura se foi, a velharada se juntou e começou a conversar, fazer teorias conspiratórias de whatsapp e lamentar o título do Brasileirão que esse ano devia ser do Palmeiras ou do Santos, O Flamengo já havia ganhado um título e o Inter por um gol não viu a glória que esperava há mais de quarenta anos. Era assunto que não acabava mais, valia falar de tudo, do Lula, da família, do aumento da carne, só não podia falar de morte, ali todo mundo tinha visto de perto o perigo da COVID 19.

A vacinação começou, os primeiros que saiam do posto exibiam o esparadrapo para o restante da fila, teve um que saiu até mancando, tamanha a proeza. O drive thrue estava lento quase parado, na fila dos pedestres começou uma movimentação incomum. Um senhor de máscara no queixo, aparentemente havia esterilizado o corpo internamente com álcool Ipióca, correu para o meio da fila fugindo de sua senhora para não ser flagrado daquela aventura. Mesmo com o Lockdown, boteco com sinuca é serviço essencial, mas nada adiantou, um senhor de cara alegre fechou o semblante imediatamente ao ver um o espertão furar a fila.

-Me salva, eu tô me escondendo da minha mulher.

-Essa é a fila da vacinação, não dá vacilação.

Comecou um buzinaço, parecia aqueles atos de classe média a favor do presidente, que ultimamente até máscara está usando. Os ânimos se exaltaram, a enfermeira gritou pela décima vez:

-Só acima de 65 anos, identidade na mão por favor!

O incomodado com o furão, voltou a sorrir, só que desta vez sem graça, lembrou que só tinha 64, mas jurou que viu no celular a mensagem dizendo a partir de 63.

-Me empresta tua identidade e fica tudo certo.

-Fechado. Tu tá bem conservado para ser idoso.

-Não fico bebendo o tempo todo.

-Assim você me ofende. Poxa! Eu tô a tanto tempo em casa, que não tem nada que eu não tenha terminado de consertar, a antena da tv já tinha três anos que não funcionava, agora em tv em todos os cômodos funcionando, só tomei uma cachacinha pra matar a saudade que eu tava do boteco. E saber se tava tudo bem, o dono é meu amigo.

-Pois é, eu peguei o hábito de ver novela, assinei globo play e ainda acompanho umas coreanas que minha neta achou com legenda no youtube. Como pode fazerem novelas tão ruins ultimamente? Selva de pedra, Tieta e Quatro por quatro são as melhores na minha opinião.

Uma espertinha chegou de carro gritando: – Meu pai é militar! tem prioridade.

A cara do coroa no carro era de quem não queria passar essa vergonha. Aí não houve como evitar aglomeração

-Eu sou professora!

-Eu sou técnico em enfermagem!

-Eu sou ambulante!

-Eu tô é desempregada!

Uma mulher que acompanhava mãe, mostrou um pouco de sensatez ao levantar a bandeira da paz e lembrar que todos ali iriam vacinar e que o momento era de espera mas de alívio ao saber que havia chegado a vez daquelas pessoas. O cerco se desfez no carro, um cidadão mais tranquilo até puxou um louvor que aliviou os ouvidos e acabou com o zum zum zum. Enquanto isso, a enfermeira voltava do fim da fila gritando:

– Só acima de 65 anos, identidade na mão por favor!

Os dois se olharam e piscaram, tato é trato.

-Só mais uma coisa.

-Diga!

-Segura meu lugar aqui enquanto eu vou ali tomar mais uma, tô muito preocupado com essa doença.

Ps: Esse é o meu pai vacinado. 

Festinha do COVID-19

100 dias de tédio, uma nova rotina da qual nunca imaginou que iria passar. Logo ela que sempre gostou de ficar em casa, agora não via a hora de ter um mínimo de socialização, havia prometido que iria até em reunião de Herbalife comprar o kit emagrecedor quiçá montar um espaço saúde. Durante esse tempo encerrou vários projetos que estavam espalhados pela casa: Aprendeu crochê, fez uma touca, tapete e peso de porta. Começou a costurar guardanapos e reparou várias roupas, inclusive as doou por não caberem na nova forma que adquiriu de tanto comer nos últimos cem dias. Iniciou vários cursos gratuitos, concluiu alguns e abandonou todos os demais.

Com o passar do tempo, o excesso de assepsia e higienização foi se tornando rotina, o hábito de ir ao comércio repor o que faltava mantinha a sanidade de sentir o calor do sol na pele e saber que ainda não estava acontecendo o apocalipse zumbi. O novo modo de trabalho remoto explicou que nem tudo são flores quando se trabalha em casa, mas é possível ter um pouco de prazer em não precisar pegar trânsito tampouco precisar se arrumar para sair. Através dessa última observação deixou escapar que a vaidade não estava em alta. Pelos e unhas vivendo de modo natural, alinhado ao cabelo que já possuía vida própria.

A rotina doméstica consistia em levar o lixo no horário limite de sexta pois, não havia coleta aos finais de semana. Esbarrou com um vizinho que chegava do trabalha trazendo nas mãos duas sacolas pretas, o que levantou a curiosidade de nossa personagem. O vizinho não deu boa noite e caminhou rapidamente para o seu bloco. Nossa detetive do tédio resolveu revirar o lixo suspeito, na verdade queria cupons para trocar em uma pizza sem pagar nada. Ao tocar no saco, o calor das embalagens denunciavam que alguém não estava cumprindo a quarentena de modo correto. Haviam garrafas de ice, pratos e copos descartáveis sujos, uma afronta. Se fosse em tempos anteriores, reclamaria do som alto, das risadas e da alegria alheia mas em tempos de corona, só podia reclamar de uma coisa: Aglomeração.

Seguiu o vizinho, entrou em seu bloco pela escada de emergência, no terceiro andar, notou um zumbido diferente. Risadas abafadas, televisão ligada contrapondo um forró ao fundo, tudo isso acompanhado de um aroma detectável: Camarão e cerveja. Encontrou a unidade, e pensou em um milhão de possibilidades, ligar ao síndico, a polícia, ao IBAMA, ao presidente (O último não ia acreditar), Aquilo não podia ser permitido, deviam ter ao menos 10 pessoas naquele apartamento.

Por um segundo lhe passou a ideia de que se tivesse amigos, já teria organizado sua aglomeração. Mas aquilo foi um sinal divino, era preciso socializar, conversar, falar sobre qualquer coisa, beber um pouco, comer o que estivesse na mesa e ter quase um orgasmo por se alimentar de algo que não fosse sua própria comida ou as pizzas grátis com cupons. Talvez o amor de sua vida estivesse ali dentro daquele apartamento, precisava redescobrir o sentido da vida, depois disso voltaria ao seu isolamento social, até um gato iria pegar na adoção responsável. Não teve outra, entrou de uma vez apartamento adentro.

– Fiscalização!

A família atônita olhava para a moça que abrira a porta e encarava a todos com o olhar de pedinte. O dono da casa, que havia levado o lixo a reconheceu, tomou a iniciativa.

– Cerveja? Estamos jogando baralho, mas ainda tem um pouco de camarão, você quer?

– Quero!

– Entra, fecha a porta. Ajuda ela aqui Dalva. Até a meia noite eu aposto que chegam mais dois. Senta no sofá menina, aquela ali é tua vizinha de bloco, tá aqui desde cedo. Viu a gente chegando com as compras, a salada foi ela que fez… Fica a vontade e em silêncio por favor, não queremos dar problema para o sindico, não é Carlão?

– TRUCOOOOOOO!

Gritou o síndico, para que não haja dúvidas.

Ricardo

– Alô!

-Está sabendo do Ricardo?

– Não. Não nos falamos há algum tempo, o que houve?

O Ricardo foi o meu primeiro amigo na nova escola, eu tinha nove anos e acabado de mudar de cidade, chorei na despedida mas me alegrei ao saber que na escola a gente ganhava doce e podia levar pra casa. Durante a terceira série, nós tínhamos a professora Maria Helena que era muito paciente e equilibrada com aquela turma de 30 alunos oriundos de diferentes regiões do país. Eu tinha acabado de perder um dente de leite, Ricardo enquanto maquiava com canetinha hidrocor o rosto da Amanda, notou de que minha boca saia sangue. Ele me perguntou o que houve e eu mostrei pra ele. Depois da aula, descobrimos que morávamos na mesma direção, durante o trajeto de volta, Ricardo me apresentou a gangue do meio dia que consistia em apertar as campainhas das casas e correr alucinadamente para não ser pego.

O Ricardo sempre foi diferente dos outros garotos da nossa turma, ele sempre preferia dançar, pular elástico ou jogar queimada com as meninas do que figurinha no bafo ou brincar de golzinho com os meninos. Durante a aula, sentava perto delas, conversava o dia todo e não falava um palavrão, tinha aptidão para comunicador, bem melhor do que eu, garanto.  Até fingiu gostar de uma menina da rua de cima, a Letícia. A menina era bonita, mas podemos dizer que ela era muito diferente do perfil do Ricardo, digamos que ela era pra frente, termo utilizado pela minha mãe e que talvez hoje não faça muito sentido, ela já beijava na boca enquanto nós apenas mandávamos bilhetinho e no máximo um andar de mãos dadas até a esquina.

– Tô apaixonado!

– Quem é a vítima?

– Uma menina que mora na rua acima da minha, Letícia. Você conhece?

– Não.

Sim, eu conhecia, mas não disse nada. Ela já havia dado encima de mim, mas não podia jogar agua fria no sentimento que meu amigo estava se esforçando pra expressar. Com pouco tempo, ela tratou ele como alguns meninos já o tratavam, ele desistiu. Se apaixonou pela Michele, que era um ano mais velha e já estava na quarta série, mas pela Michele, todos eram apaixonados, ela era a única menina da escola que já tinha beijado um menino no portão de entrada, dando espaço para pensarmos que devemos gostar ao menos de uma menina que já sabia o que era um beijo na boca, coisa que nenhum aluno da tia Maria Helena sabia.

O Ricardo sempre transformava todo trabalho em apresentação. Declamava, cantava, dançava com coreografia, inclusive em inglês, o que já começou a ocorrer nos anos seguintes da educação fundamental. Ricardo falava inglês enquanto a turma tentava aprender o verbo to be, coisa que aprendi a pouco tempo atrás. Talvez no seu sentimento, lá no fundo, ele soubesse que sua salvação estivesse em outro lugar, quem sabe outro país.

A oitava série foi o último ano que estudamos juntos e a mais memorável, Ricardo treinava uma apresentação  em inglês com dança coreografada, naquela época já despontava cantoras pop’s. Um moleque atentado de nome Hugo o empurrou, repetindo incansavelmente o bullying diário sobre sua própria fragilidade sexual contra a de Ricardo, um empurra-empurra fez nosso personagem real jogar a merenda da escola pública, uma sopa, em seu encontro mas este desviou, acertou uma aluna quieta que devolveu sua sopa contra Ricardo, uma guerra do lanche. Todos foram suspensos no final da aula, fomos embora cheirando a sopa no cabelo e nas blusas.

Fiquei muito anos sem noticias dele, sempre ouvia boatos de coisas boas e ruins, sempre guardava as boas. Ele tinha assumido sua homossexualidade, estava bem consigo mesmo. Os anos escolares e educação familiar de nossa geração não nos ensinou a conviver com o diferente e aceitar suas escolhas. Nós aprendemos isso na marra, e algumas vezes(me incluo nisso) fomos cruéis com tantos outros Ricardo’s por aí.

O telefone não toca mais, o mundo vive a base de mensagens e publicações em redes sociais. O Ricardo que não era muito ligado a tecnologia havia postado um texto triste dando adeus e sugerindo o fim de sua existência, pedindo perdão por tudo. Meus seis anos de convivência com ele passaram na minha cabeça, como eu podia ter apagado o Ricardo da minha vida? Nós éramos bons amigos, riamos de tudo, fazíamos piada um com o outro. Liguei em seu celular, estava fora de área, não respondia as minhas mensagens, apelei para uma amiga em comum.

– O Ricardo tentou se matar!

E ninguém fez nada. Todos eram culpados.

Estava internado, sendo controlado com medicamentos, família frágil e dividida, incapaz de reconhecer tantos problemas a serem resolvidos internamente. Ele havia desistido de viver e era culpa minha, nossa, de todos que não souberam aceitar ele assim. Inclusive ele.

O primeiro sintoma de desaparecimento é quando não fazemos falta pra mais ninguém. O segundo é não sentirmos falta de ninguém, é preciso se redescobrir, se amar e a partir disso começar a sua nova construção, religar sua fé e se conectar com a vida, a sua maneira.

Enquanto escrevo, algum outro Ricardo está tentando contra a própria vida, talvez por um motivo diferente do meu amigo. Nenhum sofrimento irá cessar as injustiças que a vida nos coloca, seja forte Ricardo, você não está sozinho, não sou só eu que acredito em você, meu amigo.

Eu não sei me despedir

Eu nunca pensei sobre isso, mas a verdade é que eu nunca vi alguém se despedir. Parece até um pouco de bobagem, isso que eu estou falando, mas sempre que vou para alguma despedida, o evento já aconteceu. De repente isso começou quando eu era criança, minha mãe me acordou de madrugada ainda, me vestiu e disse que iríamos fazer um passeio, somente eu e ela. Levou uma trouxa com algumas roupas e um carrinho junto.

Nunca andei de ônibus pela cidade à noite, mas aquela “noite” não era igual às noites da nossa vila que tinha gente gargalhando, cantando e alguns casais brigando enquanto a polícia descia o esculacho nos jovens acordados. Aquela noite estava diferente, ruas vazias e frias, as luzes dos postes bem amarelas e névoa branca parecendo aqueles filmes de motoqueiros que passavam no canal 4. Aos poucos, iam surgindo os primeiros raios de sol, minha mãe cochilava no balanço da viagem, eu olhava atentamente o que seria meu presente, pela primeira vez seria o único a ganhar algo, sempre tendo que dividir tudo com meus irmãos, aquela noite não me trouxe o sono de volta porque eu tinha sido escolhido para algo.  

– Aqui será sua nova casa, você vai morar e estudar aqui.

Não tive tempo de refletir sobre aquilo, nem de chorar. Aquele lugar era a FEBEM, que nos anos 60 prometia ensinar Fé, Educação, Bons modos, Etiqueta e Moralidade. Me ensinou muito mais do que isso, mas o detalhe é que eu não vi minha mãe partir, pensei que ela fosse voltar logo mas isso levou alguns anos. Com o tempo, alguns partiam e voltavam, outros eu nunca mais ouvi falar. Minha mãe me visitava e sempre ia embora quando falava que estava indo ao banheiro. Talvez por isso eu não aprendi a me despedir.

Durante os anos na FEBEM, contava os dias para sair daquele inferno. Eu entrei meses depois de ouvir no rádio o Brasil ganhar a copa de 1962 contra Tchecoslováquia, meu aniversário naquele ano, também foi lá. A minha obrigação era trabalhar na cozinha, tinha de cortar o doce de marmelo toda sexta-feira, as facas eram cegas devido a alguns internos quererem se rebelar contra o sistema. O doce tinha que somar 100 pedaços para toda a ala e eu nunca conseguia fazer o corte certo, sempre era acusado de comer, como punição ganhava uma marca de lampião quente no braço pra aprender que alguns ficaram sem doce por causa da minha gula.

O Ano era 1970, ainda tinha dezessete anos, a alforria só era dada quando se cumpria 18, naquele lugar e naquela idade já sabia furtar, fumar maconha, beber escondido e brigar, brigar até desmaiar. Já tinha tudo para ser um sujeito homem. Consegui sair no início de junho daquele ano, não consigo lembrar do meu último dia naquele lugar, mas me lembro do 4 x 1 na Itália que nos demos na final da copa no México. A ditadura em alta, mas alegria daquele dia me fez esquecer os anos no internato e a repressão das ruas.

Minha mãe, humilde, só pedia que nós fôssemos servos de Deus quando saíssemos daquele inferno.

– Com saúde, a gente dá um jeito.

Trabalhando em um restaurante na Liberdade, bairro típico de imigrantes japoneses de São Paulo, conheci muita gente e fui me despedindo das lições aprendidas naqueles anos na FEBEM, até me apeguei a uma japa filha de um cozinheiro chefe, mas não era isso que o pai dela queria pro futuro de sua filha.

Morei em várias cidades, cada uma deixava uma parte de mim, trazia um pouco daqueles lugares comigo também.

Sempre tive como casa, os meus sapatos, aonde eles me levassem ali eu estaria por inteiro.

Em todo lugar, onde a minha história escreveu-se, eu não disse adeus pra nada, nunca fechei uma porta, enterrei histórias de amor ou deixei pra trás algo que tenha me feito sofrer, trago tudo nos meus pés doloridos.

Depois de mais de 60 anos, talvez aquele fosse um dia pra me despedir, vendi tudo e mudei pela sexta vez de estado, talvez tivesse a sensação de ainda estar sendo procurado pelos monitores da Febem, algumas queimaduras ardem até hoje.

Naquele dia, comprei cigarro, tomei uma dose de conhaque e embarquei, eram 22 horas que me separavam do meu próximo destino, tinha tempo de sobra pra contemplar as imagens do sertão nordestino e ver a minha vida passando pela janela do ônibus sem precisar me despedir de nada, tudo que eu vivei sempre foi meu presente, o meu passado eu sempre fiz questão de me despedir.

 

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OBS: Este texto relata um pouco a história do meu pai, nesta foto estamos nos despedindo, ele está se mudando.

A gangue do meio dia (1996)


O ano é 1996, a cidade de Valparaiso de Goiás é criada e deixa de ser um distrito de Luziânia, terá a sua primeira eleição municipal.
Enquanto um lado da cidade curtia o final do verão ao som da dança da bundinha (É o tchan) e boquinha da garrafa (Companhia do pagode), os bailes sacudiam ao som de Claudinho e Bochecha com Nosso sonho. Em alguma avenida, algum walkman o Skank tocava Garota Nacional. Mas o que vai parar o Brasil é o acidente causando a morte do Mamonas Assassinas e logo em seguida o surgimento do ET de Varginha durante a programação do Fantástico, na TV Globo que além disso lança a novela Rei do gado. Em outro canal surgia o Cidade Alerta, falando do aumento da violência nos grandes centros urbanos.
O Beep e o celular se popularizam, assim como a compra de computadores e o acesso a internet, mesmo que apenas para bater papo no BOL e carregar algumas fotos de conteúdo proibido para menores. A tecnologia conquista a criançada com o lançamento do Tamagochi. E no Brasil,a política mudava de rumo com a chegada das urnas digitais.
Tudo isso não bastou para que o ano fosse memorável para a turma da Tia Aparecida, que na terceira série procuravam aventura na saída da escola. Uma média de seis crianças entre meninos e meninas, entre eles um gênio:
– Tive uma ideia!
O que uma criança de 10 anos sem nenhum pêlo no sovaco, ainda faltando um dente nascer e uma mochila pesada teria em mente.
– Vamos apertar a campainha das casas e sair correndo!
Não houve tempo de articulação e defesa de tese, o mais gordinho da turma apertou e saiu correndo seguido pela turma em direção ao final da rua, ouvindo os berros da moradora ao fundo:
– Na próxima vou lhe dar uma chinelada, seus moleques!
Naquele momento atravessando a avenida, surgia a Gangue do Meio dia, com um sorriso de confirmação e cumplicidade e muito sebo nas canelas para todas as aventuras que iriam ocorrer ao longo daquele ano de 1996.
A lógica de trabalho era a mesma, um abençoado ia na frente, olhava onde tinha campainha, avistava-se se tinha alguém na garagem e acenava para o apertador da vez, para aqueles que estavam cansados no dia, bastava um regra de sobrevivência:

“Continue andando normalmente, não olhe para trás e não ria” o que era impossível quando era a vez do gordinho que corria deixando a bunda de fora e o material escolar pelo caminho. Em dias de chuva, o guarda chuva se tornava dispensável pois o vento não contribuía com a competição.
Ao longo dos meses, a gangue além de apertar campainhas, também começou a fazer alguns trotes com amigos de classe. A ideia era expandir o sentimento de união que havia na sala, onde o mais pentelho dos alunos passou o ano apenas respondendo:
– Auau! Professora!
Nos últimos meses do ano, alguns moradores se vingaram. Os meninos da gangue tomaram choque em campainhas com fio exposto, correram de cachorros, tentativa de atropelo com bicicleta e contar a travessura para a mãe que significava o mesmo que morrer.
As provas foram bastante cansativas e uma última aventura foi convocada para confraternizar todo o conteúdo da professora Ana Aparecida na escola municipal. Decidimos que todos iriam apertar uma campainha naquela manhã, com as provas e o desenho de Boas Férias nas mãos, a chuva ininterrupta fazia com que andássemos devagar, na primeira casa uma amiga escorregou e quebrou o tamanco da Carla Perez, na segunda um companheiro preferiu se molhar na chuva e esqueceu do laço que nos unia, na terceira aquele gordinho apertou e jogou suas provas para o alto e correu de duas mulheres armadas de pau, um amigo recolhia as provas na chuva na tentativa de salvá-lo pelo menos da surra de sua mãe. Seguindo a regra de sobrevivência, os dois últimos membros ficaram aflitos mas seguiram a regra. Eis que aquele garoto que apenas latia em sala tomou ímpeto e parou em frente a casa e gritou:
– Auau!
Pegou a mão da última membra da gangue e tacou-lhe um beijo na boca, 1996 chegava ao fim, ano que vem começa tudo de novo.

Obs: Esse texto simples, escrevo para Isael que estudou comigo na terceira série, seus “Auau’s” nunca saíram da minha cabeça, escrevo para recordar a infância deliciosa e aventureira que tivemos. Um abraço.