O colecionador de derrotas

Não levantou mas já estava acordado, não iria fazer diferença nenhuma, lá fora chovia e dentro de casa só havia espaço e silêncio, coisa que todo adulto almeja, não precisava fazer café. Na verdade não precisava fazer nada, não tinha motivo nem animo para levantar, abrir os olhos seria o máximo de esforço, enfim, desistiu do tédio e levantou. Pensando no quão  pode ser controverso a vida, lembrou que demorou a pegar no sono na noite passada, mesmo chegando bêbado, resistiu e bebeu a última cerveja da geladeira que agora só tinha água, uma melancia murcha e meia cebola, quando falam que vida de solteiro é boa esquecem de dizer sobre fazer comida para apenas uma pessoa, isso sim é um tédio.

A primeira derrota podemos dizer que foi a separação, mas não podemos atribuir isso apenas ao amor, essa palavra é complicada, construir tem mais sentido, digamos que uma relação para durar necessita construir pontes, e no caso dele, algumas não saíram do projeto.  Uma vida a dois envolve respeito, carinho, ajuda mútua, cumplicidade e muito bom humor. Não faltou nada disso. Na verdade sobrou, exceto sonhos, esses já não eram os mesmos.

Não demorou muito para que a solidão estimulasse a volta de sentimentos antigos, ideias que não atormentavam a mente quando jovem retornaram com intensidade, acordou tarde na véspera do aniversário, chovia forte lá fora, não tinha mensagens, não tinha amigos nem motivo para comemorar. Entrou no carro e decidiu dirigir por duas horas para conhecer seu verdadeiro pai, isso lhe encheu de alegria, lhe deu ânimo, sentiu-se vivo. Uma peça do seu quebra cabeça iria ser colocada no lugar, não tinha expectativa mas no fundo queria chegar no encontro, chorar, abraçar, sentar na mesa com a família, ouvir e contar histórias, ser convidado para o almoço da semana seguinte mas, nada disso aconteceu. Houve uma conversa rápida e fria, zero de afeto e empatia, mas aquele homem branco, áspero, era seu pai. Ao tentar aproximação pela internet teve seu contato bloqueado, a vida voltou ao estado monocromático dos últimos meses. Foi uma boa experiência, pelo menos pagou pedágio, viu outra cidade, se perdeu, achou seu pai e perdeu-se novamente.

Buscando refúgio para outra vida, resolveu buscar abrigo na fé, encontrou respostas, caminhou com direção, seguindo as setas amarelas, achou no silêncio a resposta que nunca ouviu nos ruídos de sua rotina, o segredo de uma nova vida era terminar esta que ainda vivia enquanto havia tempo. Na volta pra casa, em seus hábitos de costume, saiu do único motivo que o tirava de casa nos fins de semana, o grupo de serviço da igreja, ali já não havia fé, mas ele acreditava na mudança do ser humano, quando alguém não muda mas muda os outros é um sinal de que você não pertence mais a aquele lugar. Assim deixou toda uma série de palavras nas paredes, calos de suas mãos pelo chão e muito do seu suor em cada canto daquele santuário, quando se vive pela fé é difícil, no primeiro momento acreditar que a sua crença está no seu coração e não em um lugar. Você é um ser pleno, portador de toda luz nessa vida mas pra entender isso leva tempo, finito e temeroso tempo da vida.

Por fim, ainda sem rumo, encontra parte de uma vida despedaçada que lhe ajuda a colher alguns cacos pela rua, estranho seria se nada acontecesse nesses dias cinzas. O sorriso, a falta de obrigações, tudo vira uma boa notícia nesse caminho espinhoso, o problema é apenas aceitar que existe uma competição invejosa como se ele fosse lutar por alguma coisa, ainda assim, demais pessoas acreditam que ele seria capaz de roubar algum coração estando nesse estado, ele está na enfermaria e não em uma competição esportiva. Ao conhecer alguém novo você também ganha novos odiadores, mesmo que você não tenha aonde colocar os troféis de tantas derrotas.

Ainda assim ele pensa em como recomeçar sua vida, todos os dias.

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Livro de estacionar para colorir

Sexta feira. uma há menos para o ano acabar, e começar outro igual ao anterior. Quente, tedioso e cheio de dívidas.

– Tomar uma véi?

Pois é, foi um convite, o pessoal que lavam os carros nos arredores fizeram uma festa surpresa para única mulher no meio daquela macharada que passam o dia a oferecer proteção e limpeza por alguns trocados. Simone tem cinco filhos, cuida de uma área que circula uma média de 50 carros por dia, arrecada pouco mais de uma salário no mês, acorda cedo, chega tarde. Merecia uma festa, com churrasco e heineken, tudo pago pela irmandade da flanela.

– Hoje não, preciso ir direto pra casa.

O telefone tocou seis vezes durante o trajeto, tentei chegar em  -20 minutos mas não rolou, nem subi, pedi pra ela descer, fomos direto ao shopping, já eram 21h e sexta.

O espírito da pãodurice prevaleceu na hora de procurar uma vaga, ansiedade com o horário e com a mulher que não parava de culpar o atraso que era  parte da vida urbana, avistei um carro saindo e peguei a vaga no mísero estacionamento gratuito da porra de um shopping de quase 30 mil km².

– Você não tem consciência né? Disse a mulher que esperava a vaga

Desci, fingi que não  ouvi, entrei correndo no shopping, corri porta adentro da livraria, procurei pelo danado livro anti estresse de colorir. Dá -lhe Augusto Cury para controlar tanta ansiedade e estresse.  Mas o dia perdeu o sentido, mesmo comprando a merda do livro de colorir, a frase da mulher no carro não havia saído da minha cabeça.

Paguei o livro, voltei correndo ao estacionamento, pensei onde ela estaria, se havia arranhado meu carro, procurando vaga ainda, chorando, bebendo seu ódio por mim. Não a encontrei há tempo de pedir desculpas nem de discutir os valores sociais e morais da vaga pública. Merda!

Devia ter ficado no estacionamento que estava em festa, parabéns Simone.