Carta à mulher do meu ex-amigo

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Querida cretina,

Venho parabeniza-la por conseguir nos afastar, imagine o que são 20 anos de amizade perdidos por conta de um silicone e um gemido alto dizendo que ele (ex-amigo) é bem dotado e um  insaciável amante.

Você já parou pra pensar que ele não pode conversar com você sobre futebol? Tô falando de clássicos, de copa, de técnico, de série B, de pulada de cerca na sexta a noite.
Você não tem amigas não? De tão megera, deve ter roubado os homens das outras e agora quer fazer poupança com o nosso croupier, mas saiba que nesse jogo quem perdeu foi você.

Agora é você que vai ter que aguentar a ladainha por causa do rebaixamento do Botafogo, é você que vai ficar ouvindo aquelas músicas horríveis no violão desafinado, vai ter que aguentar o mala do irmão e o resto da família em todo feriado.

Mas eu não guardo rancor de você, guardo dele. Na primeira oportunidade deixou o carteado com os amigos por um belo par de seios ( e que seios), espero que ele nunca precise de um ombro amigo, de grana emprestada, de jogar conversa fora, de um álibi, de um plano de fuga, de uma boneca inflável e nem de um advogado quando você tomar tudo que ele tem.

Amigo é amigo, e ex-amigo é filho da puta.

Ps: Gostosa!

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A Boleira

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Tia Heloisa era a melhor tia de toda a quarta série, as datas mais esperadas eram as festinhas da escola e o aniversário da professora Marli que, apesar de ser uma carrasca, ganhava um bolo de presente todo ano. Bolo esse que era artesanalmente feito pelas mãos da nossa Tia Heloisa que era também a mãe do Ricardinho, ruim de bola mas que sabia dançar e acabava sempre rodeado de meninas. Quando eu digo que o segredo de todo homem é saber dançar, ninguém me leva a sério.

– Pessoal, o aniversário da professora tá chegando!
– Ricardinho…
– Tá, vou falar. A mãe de mais ninguém aqui sabe fazer bolo não?
– Mas é que tua mãe é boleira. Disse Soninha
– Ela não gosta desse nome, se continuar, não vai ter bolo.

Tia Heloisa odiava o nome que o bairro lhe dera: BOLEIRA. Nunca admitiu que lhe gritassem na rua:

– Oh boleira!

Virava as costas e ia embora, o bolo sempre esteve presente em sua vida, na infância era uma bola pois só comia bolo, na adolescência levou bolo dos pretendentes, já adulta resolveu se dedicar para aquilo que tinha maestria. Bolo.

Perdia encomendas toda vez que era chamada de boleira, aos poucos ganhou o respeito do bairro, mas sempre havia um espírito de porco para desfazer o sorriso da mãe do Ricardinho. No mercado quase deu na cara da caixeira.

– A senhora é a boleira? Meu filho estuda com o seu, é o Henrique.

A veia temporal destacou no rosto mas ela se segurou, estava a comprar as coisas para o bolo da professora, Tia Heloisa gostava dela, a professora, tinha ensinado matemática à seu filho. Saiu do mercado sem dar bom dia.

Em casa preparou o bolo com todo carinho e atenção, tinha aprendido que o professor era um segundo pai, merecia respeito, por isso ela fazia sempre sua receita especial: Bolo de formigueiro com cobertura de chocolate e coco.

No dia seguinte, a surpresa da professora (jura?). Balões, dizeres no quadro, um cartão feito a mão com assinatura de todos, apesar da oposição dos bagunceiros. Por fim entra Tia Heloisa com sua obra de arte, uma vela acesa puxando um parabéns animado, estava escrito Marli com anilina e coco, os meninos estavam tonteados com o aroma.

Termina em é pic, é hora, rá, tim, bum, o nome Marli ecoando pela sala. Assopra vela. Agradece. Corta o bolo e oferece:

– Estou muito feliz pelo carinho, mas não posso deixar de agradecer a quem preparou essa delícia, a nossa boleira…

Não houve tempo de concluir a frase, Tia Heloisa enfiou o bolo na cara da professora.

– Boleira é o caralho. É Tia Heloisa!

Foi a gota d’agua

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