Telefone pra que?

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Quando saí de casa senti uma sensação de liberdade, não tinha microondas, não havia máquina de lavar mas podia comer pizza todos os dias, até porque eu sou péssimo em cozinha.

Com o tempo fui melhorando de emprego, em menos de dez anos eu já tinha um carro usado, um microondas e uma estante para meus livros. Porém, melhor que tudo isso era a liberdade e ela se chamava Internet ADSL 1 mega de velocidade. Já faz algum tempo, parece que foi hoje.

O serviço de internet sempre vinha com uma venda casada de telefonia fixa, eu nem me importei em saber o número do telefone. Não ia usar mesmo, exceto quando o celular estivesse descarregado em um domingo a noite chuvoso para pedir uma pizza. Este era um detalhe que devia ter ficado atento. O telefone nunca parou de tocar.

– Alô!

– André?

– Não sou o João, foi engano.

– Nem pra mentir você presta!

– Não estou mentindo, passar bem.

– Vá para o inferno André!

– Depois de você.

Desliguei.

Todo sábado, começava uma chuva de ligações:

– Completou 30 minutos, a minha segunda pizza será de banana.

– Guarde um pedaço para mim.

– Engraçadinho, o regulamento da promoção é simples, se atrasar você leva uma segunda pizza de graça.

– E onde é?

– Palhaço, não atrase muito,se não é tudo de graça, regra dois lembra?

– Claro.

Desligou na minha cara, mas era espirituosa. Por fim a melhor de todas as ligações.

– Senhor Luiz Aurelio?

– Sim.

– Aqui é a Keyce da WW Cobranças, o senhor tem um débito de mil reais conosco, temos um desconto especial.

– Claro tenho toda disponibilidade no sábado, e você vai fazer o que depois do trabalho?

– Então, se o senhor aceitar estaremos enviando o boleto para sua casa no valor de 873,34. Posso confirmar?

– Somente se você me disser que horas sai do trabalho.

– Isso é uma confirmação?

– Depende de você.

– As 20h15, Trabalho na Alfred Nasser com a João Miguel no centro, isso não é um sim.

– Então confirmo pessoalmente.

 

E Ainda dizem que tudo que você precisa está na internet.

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Surfar no ônibus

Isso mesmo, surfar.

Já  passava da meia noite quando Ricardo e Samuel pegaram o ônibus para casa. O mp3 ligado no último volume ao som de uma banda qualquer,

o importante é o barulho para não cair  no chão e no sono com o busão cheio de trabalhador, acredite, meia noite o trem fantasma vai lotado.

– Oh Little Richard , acorda aí cara!

– Pô Samuca, eu to pregado.

– Ah qual é? Anima aí!

– Tá bom, que é?

– Bora ver quem consegue surfar mais tempo?

Surfar no ônibus: o mesmo que ficar no corredor sem se apoiar. Vence quem fica mais

tempo sem segurar.

– Eu vou começar. Disse Samuel

– Beleza, vai na fé.

Samuca esquece que tem 1 metro e 90, Pesa 100 kilos e é extremamente desajeitado, o que favorece minha vitória

e precede uma briga entre os usuários, para minha sorte (dele também) o ônibus virou e ele teve que segurar-se.

– Sua vez.

Já que não tinha jeito, fui. Fiquei um bom tempo. Até relaxei, mexi a cintura lembrando a saudosa Carla Perez.

– Pronto, ganhei.

– Melhor de três, com dancinha.

Sabia que não podia acabar tão rápido. Samuca começou de novo a gerar um clima de desconforto em mim,

para piorar começou a dançar hip hop fazendo scratch com a boca, Aproveitou do silêncio no baú e se soltou,

segurou uma perna e jogou pra trás, bem na cara de um passageiro sentado.

Imagine voce sendo agredido por um mizuno falsificado, quase sem sola, enquanto cochila no retorno para casa.

Pois é, a vida não tem check point, morar na quebrada não permite ter o dobro de life, uma vez que todo mundo sobrevive.

Samuca desafiou a gravidade e a nossa integridade física mas que para nosso alívio não fez o passageiro acordar.

– Agora eu ganhei.

– E eu quase perdi os dentes seu maluco.

– Posso dançar por mais 30 segundos que ver?

De alguma forma Samuca desafiava Deus e o Diabo ao mesmo tempo.

Chegamos em casa são e salvos.