Sobre a certeza de ter feito a escolha errada

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De repente ninguém teve coragem para lhe perguntar, mas talvez sua feição não permitiu que alguém se aproximasse. De uma forma ou outra, será inevitável em algum momento da sua vida  lhe fazerem a seguinte pergunta:

– Voce está certo de sua escolha?

Mas e aí? Está ou não? No mundo, a reposta precisa ser direta e rápida. As vezes sua opinião ainda  não está totalmente formada, tenho dúvidas sobre quem tem alguma opinião formada. No jornalismo ( o sério) emitir opinião é um privilégio que se conquista com muito tempo e respeito na carreira.Mas voltando ao assunto, a questão é: Você sabe do que está falando?

O que precisamos é no mínimo ter consciência sobre nossos atos, aquele que escolheu ser de determinada religião deverá seguir seus preceitos; Quem decidir torcer por tal time tem que mostrar lealdade no rebaixamento; A opção politica deve ser firme nos momentos de agonização; Dieta não tem pausa; Por fim, até que a morte nos separe.

Os exemplos podem ser milhares, o questionamento é sobre ter culhão, sobre botar a cara para bater, arriscar receber vaias em dia de derrota.

A juventude é para mim o maior desafio da atualidade, podemos identificar rigidez e apatia na mesma pessoa com assuntos diferentes. Um jovem é capaz de se indignar com a má qualidade da educação e escrever errado na redação do enem. Decidir ser vegetariano e usar couro. Escolher ser cristão e condenar a mendicância.

 Opte ser totalmente errado, vai por mim que dar certo, mesmo que soe contraditório.

A sociedade está em dramática, a crise econômica esvazia o bolso e nos devolve tempo para olharmos para dentro de nossa alma que não se alimenta de coisas boas há muito tempo. Durante os últimos anos o consumo exagerado por coisas  não deixou que refletessimos sobre quem nós somos.O pior foi esquecer o sentido da palavra refletir.

Aproveite a virada do ano, agregue a todas simpatias que você acredita, fale para os amigos de verdade sobre suas eternas escolhas erradas.Sobre escolher amar a pessoa errada, optar por não ter futuro na profissão. Descobrir-se Ateu, entender que não ser hétero não lhe torna homossexual no instante seguinte. Vai ver que tá faltando tudo e você fingindo que já pode apagar a luz.

A vida desenhada pelos seus pais não encaixou nos seus planos, tu é maconheiro trabalhador, cristão preguiçoso, revolucionário da web, hétero pão com ovo, escritor analfabeto. Tantas categorias que vão travar a máquina de pensar.

Se quiser, desenha você num papel e se pergunta quem é você, vai escrevendo e tentando encontrar alguma coerência com as regras do mundo tradicional e depois com o mundo contemporâneo.

Seja só você mesmo irmão, mas tenha atitude de segurar a barrar que é gostar de ser errado.

Desejo que esse ano, seja bom, seja cabuloso, seja massa, seja headbanger, seja top, apenas.

Feliz 2017

 Thiago Maroca

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Perereca Monstrão!

Há anos, Samuel era atormentado pelo mesmo sonho, já havia terminado o ensino médio, concluído a faculdade, iniciado inglês, espanhol e árabe, fez curso de dublê, aprendeu a usar o taquígrafo, torceu pelo Flamengo e Corinthians no mesmo ano, tinha perdido um dente num show de rock, já tinha viajado escondido dos pais para conhecer uma mina do bate papo e obviamente perdido a virgindade também com a mesma, sonhou, escreveu cartas de amor, pensou em voltar sem avisa-la mas não foi preciso, levou um fora via MSN, se fudeu, chorou, queria cortar os pulsos e ouvir todos os discos do Fresno e Nx Zero mas, nada disso superava a peripécia que havia cometido com treze anos que hoje podemos dizer que tornou um pesadelo, pois as imagens daquele dia não envelhecem nunca, agora elas voltam em sonhos.

– Samuel! (Toda virada começa com alguém gritando seu nome)

Desceu, não levou nada além da roupa e sua identidade, para onde ia não precisava de mais que isso.

– To pronto, vambora.

Quando chegaram, sem muitas surpresas, a velha cachoeira de sempre, não importa a época, a merda da placa nunca foi corrigida, era “caxuera” e o preço a “2 rel”, a globalização tornou nossa vida um inferno, as conversas de MSN assassinaram a gramática,.

Ah, o sonho, tinha esquecido, mas Samuel não. Tudo aconteceu quando ele foi à locadora, queria alugar um filme diferente, de aventura, ação, ficção cientifica, topava até desenho mas tinha que ter porrada. A loja estava sem movimento, Samuel correu, chegou esbaforido, sentiu sede.

– Posso tomar água ¿

– No final do corredor, a porta à esquerda.

A locadora não era muito grande mas Samuel sabia na porta à direito era onde estavam os filmes de sacanagem, não hesitou, entrou sem acender a luz, decidiu que no tato pegaria qualquer filme, colocou por baixo da camisa, não alugou nada para não levantar suspeitas, típico de quem tem treze anos.

Esperou o momento certo, a hora que a mãe dormia vendo a novela do “Vale a pena ver de novo” foi até o quarto da irmã onde havia um vídeo cassete e assistiu, achou estranho a capa não ter fotos, seguiu em frente com o plano.

Após os créditos iniciais, não foi possível interromper, era um filme de terror, em que uma mulher usava sua genitália para matar os homens que a desejavam, todos os homens perdiam seu falo e assim se matavam,  a vida no filme não era fácil pra ninguém. As cenas foram tão marcantes que durante sua puberdade Samuel não dedicou nenhuma para as meninas que conheceu, somente as famosas, o que ajudou a frustrar-se quando teve sua primeira vez.

No filme apenas o último rapaz foi salvo, aquele que gritou seu nome e assim se encerrava esta obra de arte, isso fez que Samuel nunca tivesse esquecido aquela história, sexo tinha virado carma na vida de Samuel.

– Como é que é, vai pular ou não¿ Eu to filmando.

– Preciso de concentração. Respondeu Samuel

– Dá um grito de coragem

Samuel pensou em todos aqueles anos que passaram, nunca havia tido coragem de contar a história do filme que assistiu aos treze anos, pensou que nunca tinha feito nada para se livrar daquele pesadelo, lembrou-se das palavras do único homem que se salvou no filme.

– PERERECA MONSTRÃO!

perereca monstrao

Caiu na água, e no fundo deixou seu pesadelo de vez.