Reflexões Visuais

Fiz uma pesquisa rápida entre os meus, perguntei quantas fotos haviam no celular de cada um. Pasmem! Eu fiquei na lanterna com quase 600 fotos, o primeiro atingiu a marca de 1.083 fotos. Já pensou se tivéssemos ainda que revelar para ver as fotos registradas? Antes, ostentação era um filme com 36 poses com ISO 200, ótimas para fotos noturnas, sem falar da necessidade de pilhas para os flashes. Mas o que faz com que tiremos tantas fotos virtuais? Em geral, a resposta a essa pergunta se dá pela necessidade do registro histórico do tempo, seja uma atividade, um momento familiar, muitas vezes um acontecimento marcante como: uma festa, um aniversário ou um lugar diferente. O que percebo é que pouco se fotografa sobre as trivialidades da vida, o dia comum, a rotina, os hábitos normais impostos pela vida cotidiana. É fato que todos usam o celular, não apenas pela qualidade média do aparelho, mas muito pela velocidade de estar pronto para o momento que se deseja registrar. Quando surgiram as primeiras máquinas digitais, a discussão se dava pela velocidade do registro, impossível ter a imagem congelada de um cachorro correndo, mas se nós somos capazes de pedir carona pelo celular sem sentir vergonha (inclusive, pagamos por isso) como não iríamos ter fotos mais velozes, inclusive mais bonitas. Creio que o problema agora são as fotos de fato, tratadas. Em uma experiência de montar um estúdio fotográfico(como fonte de renda e de sobrevivência mental durante a pandemia) todos os ensaios realizados rendiam críticas ao tratamento básico que era dado nas fotos. Querem fotos que distorçam a realidade e vendam uma estética quase plástica porém que não conflite com a realidade, querem mais tratamento digital que cubra as imperfeições do que os traços que delineiam a vida real. Fotógrafos, todos somos, a virtualidade nos deu esse título mas, muitas dessas imagens ficam perdidas no banco de memória do celular, também há uma necessidade de tirar repetidas fotos para que se encontre a foto ideal, digna de tornar-se pública. Com os stories das redes sociais mais populares (Instagram e Facebook) há uma certa corrida pela vaidade e atualização constante de uma vida repleta de coisas legais. Fragmentar o dia em uma única foto boa, transformar um passeio ou uma viagem em um momento inesquecível é mais importante do que apreciar o momento. A verdade é que as imagens nos permitiram exibir uma vida diferente, medida em likes, utilizando as imagens e manipulação digital para que possamos mentir melhor.

Estamos em um mundo imerso em imagens e é muito difícil resistir a elas.

OBS: Esta foi a foto que eu tirei com minha primeira camera digital, em junho de 2007. Um casaco e uma calça jeans, uma tv 14 polegadas de tubo, livros e CD’s empilhados.

À prova de tudo

thiago maroca

– Eu queria dizer uma coisa antes de começar.

– Pode dizer.

– Mas aqui?

– E onde mais? Você veio até aqui para isso.

– Mas não para dizer o que eu quero dizer.

– De antemão lhe digo que nada do que disser irá mudar a situação.

– Nem um boquete?

– É….

Ele hesitou, nunca recebera um boquete como proposta, já tinha recebido cargo comissionado, um caminhão de areia e título remido de clube . Era a última fase do exame para obtenção do título de taquígrafo, a coisa mais importante para Sheila, que havia passado no concurso sem pretensões, mas quando soube do salário se animou, o impedimento era apenas um : ter o certificado, e o único curso era feito por Seu Jesus que aliás era o último taquígrafo do tribunal e estava se aposentando.

Sheila sem muita simpatia pelo assunto não ligou quando soube que havia passado, estudaria e passaria em outro bem melhor, com salário maior e algo em que possuísse interesse, ou seja, fazer porra nenhuma. Viu seu nome no diário oficial, ficou de boa, afinal, havia começado a estudar por agora e este não seria o último. A real, é que Sheila foi a única inscrita para taquigrafia pois ninguém entendia bulhufas, se era comer ou para passar no cabelo. Sheila gosta mesmo é das oportunidades que suas pernas e seu decote proporcionam.

Toda mulher deve saber o ouro que carrega no meio das pernas. Ouviu na rua e guardou como máxima sua vida, inteligência é fazer os outros trabalharem para você.

Seu Jesus era um homem modesto, aprendeu cedo a arte da taquigrafia, estudou sua origem do grego, seu uso no Brasil e suas adaptações. O Taquígrafo é um rapaz com papel e caneta na mão que vai anotando tudo que é dito no tribunal para anexar ao processo depois, o Taquígrafo é de suma importância, mas pouco conhecido no mundo das pessoas comuns.

– Você faz o que Jesus? Além de salvar a humanidade? (piada pronta é uma merda)

– Sou Taquígrafo.

– E que porra faz um Taquigrafo?

E ele começava sempre com a mesma frase.

– Na taquigrafia tudo começa com um ponto.

Seu Jesus já havia escrito o suficiente para biblioteca de Alexandria nos últimos 25 anos dedicados ao tribunal, muito amigos de profissão desistiram do ofício, seu Jesus manteve-se no mesmo lugar  exceto nas férias. Com o aumento de fóruns no país, aumentara a demanda por novos taquígrafos. Por amor a profissão decidiu ensinar, gostaria de saber que seu cargo iria continuar a colaborar com o judiciário do Brasil, já pensou um computador fazer taquigrafia? Foi inventado, mas deve ser usado por um taquígrafo, ao menos isso.

– A taquigrafia começa com um ponto.

Primeira regra do curso, Seu Jesus falava para sua única aluna na aula inaugural, que pelo interesse, mesmo Seu Jesus dizendo que havia descoberto o fim da fome Sheila não se interessaria.Apelou para os causos.

– Uma vez no tribunal o Ferreira aprontou uma que você não acredita.

Sheila continuou olhando seu celular

– Chegou bêbado e vestiu a toga do juiz Queiroz e no meio do júri gritou: Eu sou o Batmam!

Tomou uma advertência mas não foi demitido, realocado na reprografia onde aposentou por invalidez ao adquirir L.E.R. no dedo indicador.

– Professor? Você se importa se eu já for indo mas, é que hoje eu estou super ocupada, prometo chegar cedo nas próximas aulas.

Sem dar tempo de resposta ao Seu Jesus, Sheila saiu da sala e foi embora, aprender pra que?Seu Jesus passou as semanas seguintes esperando sua aluna para continuar a história da taquigrafia.

Sheila descobriu que era burra há menos de uma semana para empossar no único concurso que havia passado.Desesperada contou as mesmas mentiras que sempre conta quando está no sufoco:

Minha mãe estava doente, descobri quem é meu pai, comecei em um emprego novo, roubaram meu carro.

– O senhor precisa me salvar!

– Eu não sou esse Jesus.

– Eu preciso passar neste concurso, porém suplico, que o senhor me dê este certificado.

– Eu só posso lhe dar se você fizer o curso.

– Não há nada que o senhor pode fazer por mim.

– Não!

– Nem com um boquete.

– Nem com uma orgia com tuas primas de odaliscas e você nua, coberta de mel.

Tudo começa com um ponto e a história da Sheila também, com ponto final.

Retrato do andarilho

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José Edvaldo Sousa Silva.
Um desconhecido, nunca foi preparar quitutes na Ana Maria, muito menos na banheira do Gugu se agarrar com as gostosas, decidiu que sua vida seria tornar se um andarilho profissional.

De São Luís do Maranhão já conheceu novecentas cidades, foi até o chuí, na volta parou em Brasília pra bater um papo com Dilma.

Conheci este figura na exposição do nosso admirável fotógrafo Sebastião Salgado, em poucos minutos de conversa ele me pediu uma foto ao lado dos leões, o animal mais bonito do mundo segundo ele.

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Meus alunos entraram na onda e também registraram o momento.

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Eu não poderia deixar de tirar uma foto com ele.

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Por fim pedi para fazer um retrato dele

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Ele me pediu que colocasse as fotos na internet para que os amigos dele podessem ver, aqui está.
Neste dia paguei um almoço a ele, nada mais que justo, tirei fotos ótimas de alguém real com muitas histórias, esta foi a minha cruzando a dele.

Quero conhecer mais pessoas assim.

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