Broxa!

Thiago Maroca

Olhar desconfiado mas com sorriso na cara, de copo na mão saudava à todos e pedia um brinde à pessoa mais especial na festa.
– Você
– Mas o aniversário não é meu.
– Então à nossa amizade.
–  Que seja, eu sou a Lu.
– Marquinhos.

Pronto, agora tinha um álibi, se questionassem, diria que veio com Lu.
– A mãe do Ricardinho?

– A que tem gêmeos?

– A quem não pode ter filhos?

Marquinhos estava ferrado, entrou sem notar que era uma festa de criança, a mesa e os brinquedos estavam nos fundos, assim as mães podiam conversar a vontade na sala. Com tantos anos sendo penetra como pode errar a festa, sempre tem churrasco com cerveja no domingo, que vacilo.

– Vou pegar refrigerante, quem aceita?

Na cozinha descobriu o baú do tesouro, cervejas e uns destilados, colocou uma dose de tequila na sprite da mulherada, bateu a cerveja com sorvete no liquidificador. Serviu aos distintos grupos, milk shake  pra garotada e porrinha para a mamães.

Em uma hora, a festa havia mudado de clima, o funk ensurdecia a vizinhança,  a pirralhada dormindo e as mães com menos roupas dançavam a velocidade cinco do créu. Marquinhos se viu encurralado, em uma hora os maridos iriam começar a virem buscar filhos e esposa, era preciso baixar o fogo das mulheres, trocou de música, de funk mudou para Whitney Hilston com tema do guarda costa, abaixou a cabeça e começou a chorar.

– Eu estou frito!

As mulheres sentaram em sua volta e iniciaram aquilo que toda mãe faz de melhor: Acolher. Marquinhos contou uma história triste que começava com o abandono dos pais até a traição da esposa amada com o melhor amigo. Todas choravam junto com Marquinhos, exceto Rita que estava bêbada mas inquieta.

– Seu broxa!

Sexo não ia rolar, a bebida tinha acabado, a saída era comover pra arrancar uma grana das madames e começar a festa em outro canto. Contou a famosa historia do filho doente, do irmão preso, da irmã doida e do pai que ele nunca conheceu, foi um choro só, Rita continuava no mesmo discurso.

– BROXAAAAAAAA!

Disse que tinha vergonha mas estava morando de favor na casa de um amigo e não suportava mais, tanta humilhação, saiu e hoje não teria onde dormir, negou todos os convites de acolhida pois sabia que corno é uma raça que mata. Deu o golpe triunfal.

– Eu vou voltar para São Paulo, visitar uns amigos e recomeçar a vida… Com meu cachorro.

– E o filho?

– Está morando com a mãe, não posso visita-lo. Não queria pedir mas não tenho nem o da lotação para a rodoviária.

– Nos vamos ajudar, meninas mãos a carteira, esse homem precisa de nós.

Lucrou 1.600 naquele dia, ouviu uma buzina, sabia que era a deixa para não arrumar encrenca, pegou o dinheiro, saiu de fininho, esbarrou com o primeiro marido que havia chegado.

– Olá boa tarde, sou o mágico Luan, as crianças adoraram o show.

Lá dentro, Rita, ainda bêbada:

– Volta aqui seu BROXAAAAAA!

Anúncios

Eu te amo Robson

image

– E aí gostou?

– Tô sem palavras, essa é a maior prova de amor do mundo.

– Eu te amo Robson!

– Quer casar comigo?

Era o mínimo que Robson podia ter feito após Fernanda, sua namorada há quatro anos, ter tatuado em seu braço “Eu te amo Robson” e por fim dois corações fazendo um símbolo que lembrava o infinito.

Se conheceram no fim da adolescência, resolveram cursar a mesma faculdade mas não o mesmo curso, Ela fazia Direito e ele Ciência da Computação, ficavam juntos no intervalo, estudavam pra concurso juntos, um ensinava o outro apesar de ninguém traduzir o que falam os advogados e muitos menos entender os códigos na tela do computador, eram felizes por serem de opiniões diferentes, ela acreditava no perdão e segunda chance e ele defendia a volta dos jogos de 32 bits, clássicos de sua infância com Blade Runner passando em sua tv Philips.

Mas o que nós temos que saber é que para ela após quatro anos de namoro dedicado exclusivamente ao lado do namorado, não haveria outra forma de provar a paixão que ainda sentia pelo primeiro e único amor de sua vida, depois de pensar muito, tomou coragem e sem falar com ninguém resolveu tatuar a declaração no braço.

O dia da surpresa foi no dia do aniversário de namoro,  Robson cumpriu o protocolo, comprou flores, chocolates e um bicho de pelúcia, todo ano dava certo.

– Eu aceito, seremos o casal mais feliz do mundo. Cadê a aliança?

Pois é , cadê a porra da aliança Robson?

– Aí meu deus, eu deixei na joalheria escrevendo nossos nomes.

O malandro se saiu  bem, o que precisava era ganhar tempo e dinheiro, havia acabado de se formar e estava desempregado,  o jeito seria ir enrolando até conseguir a grana para comprar as alianças. Fernanda não se importava, o pedido já havia sido feito, iriam se casar e isso bastava.

Restando dois anos ainda para Fernanda tornar-se uma bacharel em direito, pode aos poucos freqüentar o intervalo com os amigos da turma, voltava de carona com as amigas falando besteiras inimagináveis. Fernanda pela primeira vez estava se sentindo uma universitária, não precisava ficar o tempo inteiro preocupada em dar atenção a Robson, namoro só no final de semana, tempo que ele dedicava aos seus jogos e seus filmes ou seja, a sua programação. Falar de casamento? Deixa pra quando Fernanda se formar e estiver trabalhando, mesmo que Robson não estivesse fazendo nada.

– Vai ter um churrasco com o pessoal da turma, vamos?

– Nada, fim de semana preciso descansar.

– De quê? Voce não está trabalhando?

– Tô procurando! ontem passei o dia entregando currículo.

– Nós nunca saímos para minhas coisas, só ficamos em casa fazendo nada.

Era o alarme interno do relacionamento tocando, quem não presta atenção, perde tudo por muito pouco.

– Nós ficamos juntos, vendo filme e jogando.

– Você! Eu não jogo e não gosto desses filmes.

– Olha Fê, se você quiser, vai neste churras, eu vou ficar aqui, qualquer coisa você me liga.

Desta vez a chantagem emocional não funcionou, ela foi e fingiu não se importar. A festa foi de arromba, Fernanda prometeu ficar vinte minutos e ir embora. Nos primeiros cinco tomou pinga e quebrou o relógio, quem quer estar junto precisa tá perto. Bebeu, dançou, riu horrores, comeu, vomitou, bebeu denovo e por fim ficou com o dono da festa.

Na joalheria o senhor pergunta.

– É pra escrever o que?

– Escreve Robson eu te amo.

Perdeu a namorada, ainda não trabalha mas sonha em saber o que foi feito daquela tatuagem.

Eu lhe respondo, o dono da festa também se chamava Robson. Fernanda como toda mulher permitiu-se apaixonar novamente mas não seria louca de fazer outra tatuagem , aquela foi cara e doeu pra caralho.

Continuou amando um Robson.

Quartinho da Bagunça (+18)

 quarto bagunçado

– Cidinho cadê seu pai?

– Foi comprar cigarro.

– Vai me ajudando a encaixotar as coisas do quartinho da bagunça.

Lá vai Alcides (Cidinho) em busca da terra do nunca, o quartinho da bagunça era o fim de todas as coisas que não tinham serventia mas que não precisava ser jogado fora. Imagine você, acumular 19 anos de coisas em um único quarto. As primeiras decorações de natal, calendários e papel. Papel capaz de fazer 20 cópias da bíblia em braile. Agora uma etapa chegava ao fim, os meninos cresceram, não precisavam mais de uma casa, estavam se endireitando para a vida adulta. Clara havia passado para a federal e Cidinho começara um cursinho, seu Jadson decidiu: Vamos mudar.

Não é fácil colocar uma vida em caixas, como iria ser o relacionamento com o açougueiro do novo bairro? Seria possível abrir uma conta na padaria? O buteco da esquina tem sinuca? Alguém faz aposta no bicho na área?

Cidinho ainda não estava disposto a entender como seriam os próximos meses, anos e décadas sem aquela casa, tinha uma dificuldade enorme de se livrar do passado, olhava as paredes e conseguia ver os desenhos que fazia com giz de cera, quando comeu muito bolo com anilina e mijou azul pela casa inteira jurando ser seu ultimo dia na terra.

–  FUI INFECTADO, UM VÍRUS, VOU MORRERRRRRRR

E a mãe lhe acalmou dizendo que isso era o resultado de comer tanto bolo de festa.

Ainda no quarto da bagunça, Cidinho olhava as caixas empilhadas, os potes de pedaços de coisas que o pai sempre trazia da rua, já era noite, parecia que não havia mais ninguém na casa, apenas Cidinho e Nina, a cachorra meia idade que fazia companhia. No meio daquela mundo véio de troço, achou uma pasta de tecido com um peso dentro, devia ser algo importante, naqueles tediosos 18 anos nada mais lhe interessou tanto. Uma pasta misteriosa.

– Caraca,o velho tem coleção da playboy.

E tinha mesmo, só coisa rara.  Vera Fischer, Luiza Brunet, Cláudia Raia, Luma de Oliveira, Mara Maravilha e a Xuxa. Deviam valer alguma coisa, estavam todas bem conservadas. Cidinho não se conteve, apesar de já ter visto de tudo pela internet, sabia o valor do papel, tem sensações que apenas uma folha pode transmitir, por isso os livros nunca irão morrer.

Abriu e folheou todas elas, folha por folha, quanta mulher bonita, não entendia como as mulheres de hoje querem ser parecidas com homens, cheios de músculos. A beleza está no natural, na originalidade de cada uma, no cheiro, no sorriso, na curva singela da bunda, no desenho dos seios e no dançar das pernas.

Dedicou uma para todas aquelas beldades, limpou com o pano que estava usando para tirar a poeira, ficou sentado imaginando quando seria sua primeira vez, que fosse com uma musa inspiradora daquelas.

Já com as panelas encaixotadas, só restara comer uma pizza na sala. Nani adentrou a sala com uma coisa na boca.

– O que é isso Nani? Cidinho, voce deixou a Nani pegar o pano cheio de poeira? Aff, Vem cá Nani…

E lá foi a Nani lambendo um por um no sofá, exceto Cidinho que a repeliu com um tapa.

– Cachorra Esquisita.

Enquanto ela lambia a cara de todos, Cidinho pensava: Gozei na cara de todo mundo.A vingança por ninguém ter lhe consultado sobre mudar, mudar é foda. Bota foda nisso.