Bater ou correr (Um assalto para recordar)

 

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Sexta- feira, dia de pagamento e o melhor de tudo: O dia da entrega do vale transporte. Mais uma vez o Samuel avoado esqueceu de pegar seus vales, esqueceu de sacar algum trocado do salário, esqueceu de desligar o computador mais cedo e também esqueceu que iríamos subir a caminho do ponto de ônibus a pé e sozinhos graças ao seu esquecimento.
Do trabalho para casa, tínhamos dois caminhos até o ponto de ônibus, um cortando pelo mato e outro beirando a pista.

Vantagens de ir pelo mato: Indo pelo mato nós demoramos mais porém é tranquilo, podemos ver o céu estrelado, não tem cachorro louco querendo nos pegar, o risco de assalto é mínimo pois, nenhum bandido passa a noite atoa no mato, tem algumas corujas dando rasante em nossas cabeças, insetos fedidos e alguns buracos, não é de todo mal.
Vantagens de ir pela pista: É mais rápido, os carros podem nos pegar, tem uma cachorra louca que tenta nos atacar sempre, o risco de assalto é grande por que os vagabundos ficam atoa na parada esperando um desavisado para assaltar, porém não tem bichos ou insetos nos importunando. Também não é de todo mal.

Naquela sexta já passava das 23h20 quando saímos do serviço, o que não nos restou dúvida de que se fossemos pelo mato não conseguiriamos pegar o Bus da 23h30, fomos pela pista e no primeiro passo…. TCHORORORORORO (barulho de chuva).
Uma chuva torrencial nos fez mudar o trajeto da parada pretendida que estaria cheia de pessoas e bem iluminada, para ficar em um ponto de ônibus mais perto, sem ninguém e sem iluminação, tudo isso devido ao tempo. Nos dois sentidos da palavra.
Já era hora do ônibus passar e aquela parada escura dava um clima de abandono e insegurança, era tudo uma questão de minutos e o ônibus passaria.
– Bora mermão, passa tudo!
Fiquei sem entender, mas quando olhei para trás já tinha a resposta, ASSALTO.
Dois Adolescentes com uma faca roubando dois marmanjos, fomos para trás da parada e cada um pegou a sua vítima, eu fui rendido por um desconhecido, o Pava foi rendido pelo Capetinha.

Diálogo 1- Eu e o menor desconhecido
– Passa a carteira!
Ele Vasculhou a carteira e não achou nenhuma nota, depois começou a apalpar meu bolsos.
– Mermão, cadê a grana ?
– Pô velho! eu sou quebrado. Eu não sou estudante não, sou trabalhador!                    Grande diferença.                                                                                                                                  – Quê que tu tem dentro dessa mochila, aê?
– Eu tenho um biscoito, tá afim?
– Não, deixa eu vê…
O vagabundo tinha doutorado em mochila, além de achar bolsos secretos, tirou meus livros, coisas, papéis e espalhou tudo no chão. Para minha infelicidade ele achou meus vales transportes do mês inteiro que eu tinha acabado de receber (por isso era doutor em mochila, pois estava em um local super seguro até então), porém mostrou sua compaixão ao me entregar dois vales.
– Toma aê pra tu voltar pra casa.
– Pô! Valeu.
Somente um pobre para entender outro.

Diálogo 2 – Samuel e o Capetinha
– Me dá tua carteira!
– Eu não tenho.
– E cadê a grana?
– Então velho, eu só tenho esse 5 conto aqui.
– Não, de boa, fica com isso pra tu voltar pra casa.
– Velho, se você não roubar esse 5 conto, você não me assaltou.
– Então me dá esse 5 conto, o celular com a tela quebrada e esse casaco fedido. E não olha pra minha cara, otário. (Som de tapa no rosto)

E lá se foram os bandidos com as minhas coisas e os 5 conto do Samuel pra tornar o ato  em um assalto digno de ponto de ônibus.
– Porra velho! Eu não tenho nada aqui, como vamos voltar?
– O meu assaltante ainda me deixou com dois passes, aproveita e dá sinal que o nosso é esse aí.
Dentro do ônibus, em pé, molhados e com cara de bunda, Samuel começa:
– Eu fiquei te olhando pra gente correr…
– Correr? eu queria era dar um cacete naqueles moleques.
– Tu acha que é Rock Balboa é?
– E tu é o Papa Léguas é?
– Se tivéssemos corrido, não tinha acontecido nada.
– Por mim, a gente tinha decido o cacete.

E assim fomos até chegar em casa, resmungando a melhor saída,

que no fim não aconteceu.

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Surfar no ônibus

Isso mesmo, surfar.

Já  passava da meia noite quando Ricardo e Samuel pegaram o ônibus para casa. O mp3 ligado no último volume ao som de uma banda qualquer,

o importante é o barulho para não cair  no chão e no sono com o busão cheio de trabalhador, acredite, meia noite o trem fantasma vai lotado.

– Oh Little Richard , acorda aí cara!

– Pô Samuca, eu to pregado.

– Ah qual é? Anima aí!

– Tá bom, que é?

– Bora ver quem consegue surfar mais tempo?

Surfar no ônibus: o mesmo que ficar no corredor sem se apoiar. Vence quem fica mais

tempo sem segurar.

– Eu vou começar. Disse Samuel

– Beleza, vai na fé.

Samuca esquece que tem 1 metro e 90, Pesa 100 kilos e é extremamente desajeitado, o que favorece minha vitória

e precede uma briga entre os usuários, para minha sorte (dele também) o ônibus virou e ele teve que segurar-se.

– Sua vez.

Já que não tinha jeito, fui. Fiquei um bom tempo. Até relaxei, mexi a cintura lembrando a saudosa Carla Perez.

– Pronto, ganhei.

– Melhor de três, com dancinha.

Sabia que não podia acabar tão rápido. Samuca começou de novo a gerar um clima de desconforto em mim,

para piorar começou a dançar hip hop fazendo scratch com a boca, Aproveitou do silêncio no baú e se soltou,

segurou uma perna e jogou pra trás, bem na cara de um passageiro sentado.

Imagine voce sendo agredido por um mizuno falsificado, quase sem sola, enquanto cochila no retorno para casa.

Pois é, a vida não tem check point, morar na quebrada não permite ter o dobro de life, uma vez que todo mundo sobrevive.

Samuca desafiou a gravidade e a nossa integridade física mas que para nosso alívio não fez o passageiro acordar.

– Agora eu ganhei.

– E eu quase perdi os dentes seu maluco.

– Posso dançar por mais 30 segundos que ver?

De alguma forma Samuca desafiava Deus e o Diabo ao mesmo tempo.

Chegamos em casa são e salvos.