A bíblia do Sacana

 

THIAGO MAROCA

 

Depois de ter dado calote na família inteira, arrumar brigar no bar da Mazé e quase morrer por ter se metido com mulher de PM, Sandrinho viu a solução de seus problemas com a simples idéia:

– Vou escrever um livro

– Sobre o que ?

– Minha vida, tenho muita coisa pra contar.

– Claro, vai falar sobre o cano que você deu em toda família?

– Não, é íntimo demais.

– Das porradas que tu leva no bar da Mazé todo final de semana?

– A biografia vai falar das partes boas e eu nunca começo uma briga, só não aceito covardia.

– Covardia é o que fazem contigo, vive remendado. Tu podia falar de uma experiência recente.

– Qual?

– Aquela que tu saiu voando pelo telhado das casas quando o marido da Carminha chegou, o PM.

– Tá maluco Cícero, é uma biografia e não um testamento.

– Até por que você não tem porra nenhuma mesmo num é?

– Quanto baixo astral, você vai ver, na verdade vou divulgar em capítulos. Tudo em um blog meu: ” Tempo de vencer”

– Num tem um pastor com esse site?

– Eu compro dele.

Naquela hora Cícero teve um insight, iria reescrever a biografia de Sandrinho em um formato original, seria “A bíblia do Sacana” dividiu em três capítulos: Traição, dívidas e confusão. De fato estas três palavras já definiam a vida de Sandrinho.

 


 

A bíblia do Sacana

Capítulo 1, Versículo 69

“Se tem coisa melhor do que o amor, ainda não foi inventado”

É simples, quem não ama padece, amor bom não tem fronteira e nem respeito, muito menos limite, ame tudo que não lhe pertence mas ame-se primeiramente.

Capítulo 2, versículo 71

“Num ajudo por que não tenho, se você tem então me ajuda”

O problema é a finalidade da ajuda, quando é pra comer, pagar um aluguel, tudo bem. Mas baixaria e cachaça ninguém aprova, se for amigo dê, se um dia receber foi lucro se não, compense com uma boa conversa na mesa de um bar.

Capítulo 3, versículo 5547

apenas a nível de informação, este é o numero de planos infalíveis que o cebolinha criou para pegar o coelho da Mônica.

“Com dois é briga, com três é armação, com mais é confusão”

Entenda comigo: se alguém questiona um erro na conta do bar, uma ficha de sinuca que a mesa engoliu ou mexeu com mulher de um desconhecido é sinal de que você deve se meter e tomar partido e assim tomar umas porradas também. Entendeu?

 


 

Depois de alguns meses, os capítulos da bíblia do Sacana bombaram na web, Cicero não quis fama. Sandrinho não deixou de comentar

– Puta sacada a desse cara!

– Nada, só histórias.

– Fato, eu nunca vi ninguém assim.

– Nem eu

– Cicero, preciso de um ator, não quer participar do meu filme não?

Melhor deixar essa para outro dia, é muita encrenca para um texto só.

 

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Cazamiga

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Eustáquio, Gervasio e Zé Carlos estavam sentados, jogando um caloroso pif paf apostando a última dose de Rita Baiana, uma pinga que o Batista trazia toda vez que voltava do Piauí.
Sem mais nem menos, Luizinho já bêbado, cai por cima da mesa desfazendo a jogada final de Gervasio.

– Porra Luizinho! Eu ia bater.
– Tudo viado! Eu sempre soube.
– Precisa gritar no ouvido da gente? Disse Eustáquio
– O seu, puxou esse seu jeito de baitola,”Estaquio”.
– Tá falando o que? perguntou Zé
– O seu filho Zé, é o líder, agora se chama Ágata.
– Como é Luizinho? Perguntou Zé furioso.

Seu Batista, mesmo sem entender direito, não queria confusão no seu boteco, segurando Luizinho pela, o arremessou rua a fora.

– Rassimbora! Esculhambação é essa? Entra aqui pra causar desavença.
– Batista, tá o filho dos três lá na praça, dançando e cantando.
– Os jovens faz isso, num tem nada de errado.
– Vestido de mulher.

A merda foi jogada no ventilador, o bar inteiro estava de pé, os três amigos olharam-se e correram em direção a praça, deixando Rita Baiana e o baralho para trás.
Na praça central, no coreto, lugar marcado pelas apresentações de poetas, músicos e até discursos políticos, havia se transformado em um palco com três estrelas, Tito, André e Ricardinho que a partir daquele momento seriam Ágata, Laurice e Thieska.
A revelação apesar de esperada, foi o evento mais comentado do ano, só perdia para a história do psicólogo corno que entrou em depressão e morreu de fome.
O show começou de repente, sem apresentação ou introdução, um cover da Beyonce aqui, uma perfomance da Britney ali e por fim uma canção da Madona, porque diva é sempre diva.

Gervasio, Eustáquio e Zé Carlos olharam, não queriam acreditar no que seus olhos viam, choraram, se abraçaram, notaram o quanto era vergonhoso estar ali, há quem imaginou que fossem fãs. Optaram pelo mais sensato, surra não resolveria, falaram de uma cura no exterior mas o dinheiro não dava. Voltaram pro boteco do Batista.

– Batista! Sobrou aquela dose de Rita Baiana?
– Tenho uma reserva particular, essa ocasião merece.

Serviram-se e beberam de uma vez, todo mundo calado, apenas se olhando. Zé Carlos não se segurou

– Batista, onde tá teu filho?