MADE IN BRAZIL

Eu tenho muitas manias e acho que com a idade me tornei metódico por causa delas. Um exemplo clássico é sempre cheirar tudo. Eu cheiro a tampa da marmita, zíper de roupa, chave de boca, buraco de parede, gelatina quando mistura a água quente, celular novo, meias antes de usar… A lista é extensa, mesmo sentindo o cheiro no ambiente, eu cheiro de novo pra ter certeza. Mas umas de minhas manias é olhar de onde vem as coisas. Eu sempre olho onde é a fábrica, a cidade de onde vem o produto, o país que foi fabricado. Faço isso associado a um sentimento de descoberta. Molho de tomate eu percebo que todo lugar tem uma fábrica, às vezes vou no google maps ver onde fica a cidade e descubro que não tem quase nada de área rural e penso: Onde é que conseguem plantar tanto tomate assim? Em outras situações, me exalto de alegria ao saber que algo é fabricado ou distribuído em cidades vizinhas a minha e acredite, eu pulo de alegria ao saber que comprei algo que foi feio na minha cidade ou perto, seja roupa, sabão, veneno, pimenta, o que for. Eu compro e imagino aquele monte de gente empregada saindo da fábrica, morando pertinho do trabalho com o uniforme da empresa. Eu vejo na minha mente essas imagens, além da sensação de estar ajudando o empreendimento local a crescer. Mas reconheço, tem produto que é uma porcaria, seria melhor que a fábrica fechasse, ainda tem aqueles produtos que desaparecem e nós ficamos com um vazio, sabendo que poderíamos ter aproveitado a maravilha que tínhamos à disposição.

Agora vem a melhor parte. Eu amor ler os “Made in”, um dos meus passatempos favoritos é descobrir o país de origem das coisas, e eu fico pasmo sabendo que não tenho quase nada produzido no Brasil, principalmente coisas que utilizam plástico, led e algum orifício que se inclua na tomada. Devíamos produzir mais, pra ter orgulho e com certeza pagar menos, com a sensação de dever cumprido, o exemplo é a vacina de COVID-19 desenvolvida pelo Instituto Butantan, com um pouco mais de investimento, nós já teríamos fabricado doses para todos os brasileiros sem apoio internacional, mas isso é outro caso, politica não é uma das minhas manias, olhar a evolução de patrimônio dos políticos é um hobby, também fico horas olhando o portal da transparência, e sempre fico pasmo com o tanto de dinheiro que esse país tem e emprega mal, por fim, com a sensação de nada estar sendo feito.

Bom, o caso é que sempre leio os “mande in” Com intuito de achar algum país que não seja a China ou os EUA. Essa semana depois das compras no mercado,  que aumentou nosso custo em média 10% (Lá vem a política de novo), fui lavar os potes para colocar os mantimentos e adivinha? Nós temos um pote “Made in INDONÉSIA” e descobri que a cafeteira é “Made in GREECE”. Quanta alegria! Eu adoro ver coisas de outros países, gosto das características próprias, do design, geralmente tem algo diferente, e isso torna único aquele pequeno pedaço de outro país. 

Durante minha passagem pela África, especificamente no Kenya, enquanto participava de um acampamento internacional escoteiro, tive a oportunidade de ganhar muitos presentes de amigos de diferentes países, mas para minha surpresa,a maioria eram produtos fabricados na China. Nádia, uma angolana que desfilava com uma camiseta linda com a bandeira da Angola e um cachecol com os símbolos nacionais queria trocar por produtos brasileiros, me joguei na frente e fiz a negociação. Trato feito. Desfilava com a nova camiseta pelo evento. Chegando em casa, depois de desfazer a mochila e por tudo pra lavar, sou invadido por um sentimento de pasmaceira com euforia. Ao me preparar para desfilar pelas ruas da minha cidade com minha blusa exclusiva da Angola, ao me vestir, leio a etiqueta: 

MADE IN BRAZIL 

LEGENDA: Na foto, Leandro, Eu, Nádia e Fabrício, durante o ROVERMOOT, no KENYA, em 2010.

Formigas não sabem nadar

Mas boiam. E isso assusta. Muito. Não há nada que segure um formigueiro, já vi de tudo no youtube, todas as receitas possíveis: Fumaça, fumo curtido no álcool, bicarbonato de sódio com vinagre, aliás , vinagre combina com tudo, tem estudo dizendo que vão levar pro espaço com a finalidade de testarem a reconstituição da camada de ozônio, vinagre é o bicho da goiaba e a gente não sabe é de nada.

Mas voltando às formigas, elas me deixam estupefato. De onde menos se imagina, surge um formigueiro: das pequenas, das minúsculas, das que parecem piolho, das grandes, das amarelas, das que parecem tanajuras. Ainda tem aquelas que existem para deixarem sua marca no mundo, as de fogo, mordem e fazem-nos lembrar de músculos ou cantos do corpo esquecidos, até então adormecidos, nada é possível para aliviar a dor que elas causam.

Em casa já tentamos de tudo, colocamos cravo em todos os armários, folhas de louro dentro do microondas e até, acredite, até canela em pau em volta de vela , muito similar a um rito religioso, para qual santo pede o afastamento das formigas? Sei que Francisco de Assis é amigo dos animais mas, formiga e mosquito é um pouco de exagero, você não concorda comigo?

Pois bem, no auge do desejo, pedir carinhosamente a minha amada que fizesse um bolo de calda, fosse o que fosse o sabor, mas que tivesse calda. Na minha preferência seria de café e na preferência dela, de cenoura com chocolate. Como um bom marido e ciente de que não quero despertar a ira para uma terceira guerra dentro de casa, aceito de bom grado o que vier. Assim sobrevive o homem médio da família de classe média brasileira: esquece uma toalha aqui, conserta uma coisa ali e a vida segue como o final da novela na globo, pelo menos as antigas.

Um bolo de sabor maravilhoso, aroma inigualável e quente. Tudo que for comer pela primeira vez, escolha ao menos estar quente. O sábio sempre diz: Enquanto estiver quente, está bom. E as formigas?

O que fazer com essas benditas para que não acabem com a iguaria que desejamos comer no dia seguinte durante o café da manhã? De todas as dicas e mandingas descritas até aqui, elas sobrevivem a todas quando se trata de comida, só não entram na geladeira, nosso segredo é manter tudo lá, até as panelas limpas. Lavamos a casa todo dia, por mais que lavemos, elas sempre aparecem. Mas já era de se esperar que minha amada tivesse alguma ideia genial.

“Formigas não sabem nadar!”

Dito isto com o bolo colocado dentro de uma bacia cheia de água, fazendo da forma, um barco flutuante correndo o risco de afundar.

“Agora temos de comer um pedaço de cada lado para que o bolo não vire.”

Tragédia anunciada! Malditas formigas!

Antes de dormir fui ao cais saber se o navio estava em alto-mar ou ancorado e mesmo no centro da bacia já via algumas no meio da água, não se mexiam mas Deus me livre delas saberem nadar, Em pouco estarão lendo esse texto e….

Camaradas Formigas, uni-vos! A geladeira nos pertence!

Jambo – Minha aventura escoteira na África

Olá amigos e leitores,

Durante esse isolamento social, estou tirando a poeira das antigas ideias, uma delas é publicar a minha experiência no continente africano, no Quênia especificamente.

Algumas fotos que você vai encontrar.

 

Baixe aqui:

LIVRO – Minha aventura escoteira na áfrica

 

Sobre o MOOT

Esse evento é para jovens de 18 a 25 anos, o que justifica algumas situações.

https://en.wikipedia.org/wiki/World_Scout_Moot

Fiz uma série de vídeos que pode enriquecer a experiência e conhecer alguns personagens citados

https://www.youtube.com/watch?v=0TS790jgC0s

https://www.youtube.com/watch?v=_Bgx5r92EHw

https://www.youtube.com/watch?v=xIBr-aUqf7Q

https://www.youtube.com/watch?v=Z5hk4rPWa9U

https://www.youtube.com/watch?v=_lS_39h_ZEA

https://www.youtube.com/watch?v=IJoETYcQJ8A

https://www.youtube.com/watch?v=cPqWTINKvgA

 

Saiba mais sobre o movimento escoteiro no Brasil aqui:

https://www.escoteiros.org.br/

Bjo, me clicka!

Ricardo

– Alô!

-Está sabendo do Ricardo?

– Não. Não nos falamos há algum tempo, o que houve?

O Ricardo foi o meu primeiro amigo na nova escola, eu tinha nove anos e acabado de mudar de cidade, chorei na despedida mas me alegrei ao saber que na escola a gente ganhava doce e podia levar pra casa. Durante a terceira série, nós tínhamos a professora Maria Helena que era muito paciente e equilibrada com aquela turma de 30 alunos oriundos de diferentes regiões do país. Eu tinha acabado de perder um dente de leite, Ricardo enquanto maquiava com canetinha hidrocor o rosto da Amanda, notou de que minha boca saia sangue. Ele me perguntou o que houve e eu mostrei pra ele. Depois da aula, descobrimos que morávamos na mesma direção, durante o trajeto de volta, Ricardo me apresentou a gangue do meio dia que consistia em apertar as campainhas das casas e correr alucinadamente para não ser pego.

O Ricardo sempre foi diferente dos outros garotos da nossa turma, ele sempre preferia dançar, pular elástico ou jogar queimada com as meninas do que figurinha no bafo ou brincar de golzinho com os meninos. Durante a aula, sentava perto delas, conversava o dia todo e não falava um palavrão, tinha aptidão para comunicador, bem melhor do que eu, garanto.  Até fingiu gostar de uma menina da rua de cima, a Letícia. A menina era bonita, mas podemos dizer que ela era muito diferente do perfil do Ricardo, digamos que ela era pra frente, termo utilizado pela minha mãe e que talvez hoje não faça muito sentido, ela já beijava na boca enquanto nós apenas mandávamos bilhetinho e no máximo um andar de mãos dadas até a esquina.

– Tô apaixonado!

– Quem é a vítima?

– Uma menina que mora na rua acima da minha, Letícia. Você conhece?

– Não.

Sim, eu conhecia, mas não disse nada. Ela já havia dado encima de mim, mas não podia jogar agua fria no sentimento que meu amigo estava se esforçando pra expressar. Com pouco tempo, ela tratou ele como alguns meninos já o tratavam, ele desistiu. Se apaixonou pela Michele, que era um ano mais velha e já estava na quarta série, mas pela Michele, todos eram apaixonados, ela era a única menina da escola que já tinha beijado um menino no portão de entrada, dando espaço para pensarmos que devemos gostar ao menos de uma menina que já sabia o que era um beijo na boca, coisa que nenhum aluno da tia Maria Helena sabia.

O Ricardo sempre transformava todo trabalho em apresentação. Declamava, cantava, dançava com coreografia, inclusive em inglês, o que já começou a ocorrer nos anos seguintes da educação fundamental. Ricardo falava inglês enquanto a turma tentava aprender o verbo to be, coisa que aprendi a pouco tempo atrás. Talvez no seu sentimento, lá no fundo, ele soubesse que sua salvação estivesse em outro lugar, quem sabe outro país.

A oitava série foi o último ano que estudamos juntos e a mais memorável, Ricardo treinava uma apresentação  em inglês com dança coreografada, naquela época já despontava cantoras pop’s. Um moleque atentado de nome Hugo o empurrou, repetindo incansavelmente o bullying diário sobre sua própria fragilidade sexual contra a de Ricardo, um empurra-empurra fez nosso personagem real jogar a merenda da escola pública, uma sopa, em seu encontro mas este desviou, acertou uma aluna quieta que devolveu sua sopa contra Ricardo, uma guerra do lanche. Todos foram suspensos no final da aula, fomos embora cheirando a sopa no cabelo e nas blusas.

Fiquei muito anos sem noticias dele, sempre ouvia boatos de coisas boas e ruins, sempre guardava as boas. Ele tinha assumido sua homossexualidade, estava bem consigo mesmo. Os anos escolares e educação familiar de nossa geração não nos ensinou a conviver com o diferente e aceitar suas escolhas. Nós aprendemos isso na marra, e algumas vezes(me incluo nisso) fomos cruéis com tantos outros Ricardo’s por aí.

O telefone não toca mais, o mundo vive a base de mensagens e publicações em redes sociais. O Ricardo que não era muito ligado a tecnologia havia postado um texto triste dando adeus e sugerindo o fim de sua existência, pedindo perdão por tudo. Meus seis anos de convivência com ele passaram na minha cabeça, como eu podia ter apagado o Ricardo da minha vida? Nós éramos bons amigos, riamos de tudo, fazíamos piada um com o outro. Liguei em seu celular, estava fora de área, não respondia as minhas mensagens, apelei para uma amiga em comum.

– O Ricardo tentou se matar!

E ninguém fez nada. Todos eram culpados.

Estava internado, sendo controlado com medicamentos, família frágil e dividida, incapaz de reconhecer tantos problemas a serem resolvidos internamente. Ele havia desistido de viver e era culpa minha, nossa, de todos que não souberam aceitar ele assim. Inclusive ele.

O primeiro sintoma de desaparecimento é quando não fazemos falta pra mais ninguém. O segundo é não sentirmos falta de ninguém, é preciso se redescobrir, se amar e a partir disso começar a sua nova construção, religar sua fé e se conectar com a vida, a sua maneira.

Enquanto escrevo, algum outro Ricardo está tentando contra a própria vida, talvez por um motivo diferente do meu amigo. Nenhum sofrimento irá cessar as injustiças que a vida nos coloca, seja forte Ricardo, você não está sozinho, não sou só eu que acredito em você, meu amigo.

Barbeiro


Vou contar como me contaram

O cara era sangue bom, barbeiro de qualidade, casado, pai de três filhos, não havia nada que manchasse sua reputação na praça, no salão sempre dava moral para as teorias dos clientes:
– Porra Mathias! O problema do vasco é o Rio de janeiro, se fosse do Rio Grande seria tratado como nação, com devoto e tudo mais.
E ele completava:
– O que faz falta é um Andrada ou Carlos Germano no gol.
No assunto economia, dava aula:
– Porra Mathias! Tô querendo fazer um plano de capitalização
– Compra título do governo, rendimento anual mais interessante.
Mas quando o assunto era adultério, congelava:
– Mathias! A prima da minha mulher vai passar uma semana lá em casa, com as coisas andando meio paradas, fica difícil não pensar em um prato fresco na mesa, entende?
– Aí Klebão, nessa seara eu vou te dever. Você sabe que eu sou evangélico, casado, minha vida é do trabalho pra casa, amo minha mulher, meus filhos e fora isso tô aqui trabalhando ou na igreja.
– Sem ofender Mathias, mas tu nunca pensou em jantar fora de casa? Jogar bola sem chuteira? Sacudir a roseira?
– …..
Pensou mais um pouco, mas falou firme.
– Nnnnnão
Não convenceu nem ele mesmo.
– Tá certo Mathias, você é um exemplo pra nós, eu me esforço e seguro minha onda mas as vezes preciso pescar, se é que me entende.
– Imagino Klebão. Mas como eu sei que uma mulher está dando em cima de mim?
– O olhar é diferente, ela joga mais o cabelo, sorri, usa o batom vermelho, sei lá. As vezes não tem nada disso mas você sente.
Enquanto aparava os pelos do nariz, pensava em algumas situações que teria sido assediado, mesmo na igreja o diabo sempre vem tomar mais um drink. Falando em drink, a história do Mathias é repleta de pormenores, vale recapitular aqui quem era o Mathias antes de casar e se converter.

Nascido e criado em periferia, ouvido abençoado, a primeira vez que colocou a mão em uma sanfona não precisou nem que lhe mostrassem como segurava, deu três folegadas desafinadas, mas na quarta acertou o dedo e o tempo daquela bixa e a poeira subiu no boteco perto de sua casa, a noite chegou e o pequeno Mathias suava e ficava encantado com o excesso de elogios das moças que dançavam e se esfregavam pra ganhar um troco através do meretrício.
Cresceu entre as partidas no campinho e a forrozada no boteco do seu Reis e dona Rosa, Ao longo da infância ganhava doces e refrigerante, com a chegada da adolescência conheceu o álcool e o fruto proibido, aprendeu a beber, cair e levantar, a amar e a desapegar. Seu primeiro ofício foi como animador de um bingo, valendo uma caixa de cerveja com um frango assado. Um ano depois virou forrozeiro, daqueles que faziam a festa das solteiras e das casadas, bebia e cantava dos dois tipos (se é que me entende). A vida atribulada fez com que ele mudasse de cidade e conhecesse a mulher mais bonita da sua vida, largou o forró, a música e tratou de aprender um novo ofício, virou barbeiro, os mesmos dedos que tocavam sanfona também mostrou habilidade com a tesoura. Abriu um negócio próprio, casou, entrou pra igreja, usou seu talento pra ecoar a palavra de Deus, a esposa o tratava como rei, um homem perfeito mas naquele dia, a conversa com o Klebão acendeu uma luz.

Naquele dia mais tarde, o irmão Aristides tinha ligado, convidando o Mathias para uma pelada no campo de futebol sintético que havia inaugurado na cidade ao lado, só pessoal da igreja. Passou um pano em tênis velho, uma blusa do Vila Nova e uma garrafa com agua, beijou a esposa passou a mão nas crianças, disse que voltava cedo.
No carro do irmão Aristides, o cheiro de perfume vagabundo, saiu cantando pneu e aumentou o volume ao som dos Barões da pisadinha, no banco do carona, um camarada que não tinha nem cara e nem intenções cristãs gritava pra fora do carro.
– É o frevo dos magos, porra! Acelera Tide!
A garrafa de Montilla era passada para o banco de trás, ao lado de Mathias, outro desconhecido arrumado pra assistir o jogo e não jogar. Vai dar merda, pensou ele.

O campo sintetico de fato estava inaugurando mas o clima era de festa e não de jogo, garrafa e mulher pra todo lado, um som fuleiro mas animado.
– Irmão Aristides, que merda é essa? A gente num ia jogar bola?
– Relaxa, Mathias. Já já o campo libera e nóis joga, se quiser tomar um goró, eu tenho bala de canela no carro, fica tranquilo.
– Poxa, Aristides. A gente é cristão, isso num tá certo.
– Fala um palavrão, caralho! Tá achando que eu não te conheço, porra. Eu sou aquele cabelinho de fogo do campinho, tu agitava o boteco do Reis e a gente olhando as calcinhas das raparigas dançando, você é um herói pra mim, Mathias. Eu preciso te salvar.
– Eu já tô salvo, casei, mudei de vida.
– Vá se foder, porra! Fiquei quase dois anos na igreja pra tu pegar confiança comigo e agora fica com esse papo de salvação, você tem um dom, precisa mudar a história desse povo e a sua também.
– Tô fora! Já fiz uma escolha…
– Tem uma sanfona ali, toca uns dois forró pela amizade e eu te levo pra casa. Relaxa que eu não conto nada, voce segue sua vida e vou seguir o meu rumo. Olha que eu sempre te ajudei arrumando cliente pro seu salão.

Hesitou, mas era verdade, sem as indicações ninguém saberia do salão.

– Duas do Gonzagão e você me leva pra casa.

– Fechado.

A sanfona arrepiou, o campo de futebol sintético foi amaciando os passos e esquentando o clima, Mathias já estava tocando uma hora sem parar entre goles na Montilla e as tragadas no Derby, pensando no tempo que iria precisar explicar porque chegara as oito da manhã.

– Desistimos do jogo e fomos fazer uma vigília.

– E esse batom na blusa? Esse cheiro de perfume barato? E por que você está chupando bala de canela.

– A vigília foi aonde mais precisam de nós, no bordel. E você sabe que eu adoro canela.

Depois disso, era jogo com vigília toda quarta e sexta. De dia entrelaçava os dedos na tesoura e anoite na sanfona. No salão:

– Sabe Mathias, depois de conhecer você eu larguei a boemia, queria que meus amigos conhecessem você, um exemplo.

– Sabe que eu voltei pro futebol, vamos bater uma bolinha.

– Eu não sei jogar bola.

– Eu também não, mas tem um mês que eu tô jogando toda semana, tô me sentindo outro.

Até na cama melhorou, a mulher que o diga.

Reflexões de uma janela

Dividido entre as dúvidas da vida, nunca sabia onde devia estar seu coração, alguns diriam o óbvio:

– Onde houver mais amor.

Se esta resposta bastasse já havia escolhido. Entenda:

No primeiro lugar, foi onde escolheu semear sua vida, adoeceu, quase morreu mas, não desistiu. Queria estar lá, provar a si mesmo que era capaz de sobreviver, dois anos foram o suficientes para saber que aquilo iria mata-lo, sobreviveu por mais sete, número simbólico do arco íris. Não vivia, convivia, no melhor dia perguntava se ainda havia amor naquela sala vazia, a resposta vinha seca, seguida de um silêncio brutal. Não tinha como continuar mas não sabia se aquele deveria ser o seu destino.

No segundo lugar, não escolheu, foi escolhido. Mesmo que isso soasse novo mas com um sentimento de aventura e frustração antecipada, saber o passado de alguém nos torna refém em repetir um futuro doloroso. Mesmo que a vida não seja uma certeza, a rotina caminha para que não saíamos do lugar comum. Mas havia vantagem em escolher um novo caminho para sua trajetória, era diferente de tudo que experimentou até ali. Ainda assim ali tinha mais amor e um coração carente.

Dormiu tentando escolher, mesmo que a viagem já tivesse terminado.

Quem poderia escolher por ele?

O que você escolheria?

Hoje foi um dia qualquer (com chuva)

Acordei as nove horas da manhã, tomei café lentamente, revisei as tarefas do dia, fui no mercado comprar cuscuz, aproveitei e comprei leite, farinha, arroz tava na promoção, feijão pela hora de morte e o limão a R$1,99 o kilo, comprei logo três kilos, pra fazer drinks e mais drinks. Em casa já atrasado para pegar o ônibus e ir trabalhar, resisti e não fui com o carro, cheguei atrasado 20 minutos mas ninguém notou, tratei de contar uma piada tosca na copa enquanto pegava o café, cumprimentei os presentes, gritei pela presença dos ausentes e no meu setor uma reunião, um furdunço sobre um equipamento danificado. Procura culpado, aponta dedo, tira dedo, ameaça abandonar o setor, indaga sobre quem poderia ter sido, encontram novos velhos equipamentos com defeitos. Ameaça chover!

A tarde segue maravilhosa em um estúdio pegando fogo, uma entrevista sem fim. No fim do expediente, tempo nublado mas sem cheiro de terra molhada, recuso a carona até a rodoviária pois estou decidido a ir com a bike do aplicativo de mobilidade pela cidade, sinto o vento no rosto, passo pelos noiados, pelas árvores, pelos carros, atravesso pista sem calçada, vou pela terra, pela grama, pela calçada, pelo buraco da pista até que chego na rodoviária e me despeço da magrela que me deu o vento nos braços e o suor no rosto. Estação sem vaga para devolver a bike. A chuva chega!

A cidade some através do temporal, o tempo de uso de bike ultrapassa e terei que pagar uma multa, a chuva faz com que eu faça amizade com outros usuários do aplicativo, xingamos o sistema, a chuva, e as bikes. A vida une as pessoas de alguma forma e não sabemos. A chuva passa!

Volto um kilometro e devolvo a bike, pego meu ônibus, leio um pouco das crônicas do Walcyr Carrasco, que aliás me inspira a escrever esta. Chego em casa e descubro que um grande jornalista morreu, Ricardo Boechat. De fato esse não foi um dia qualquer.

Pela janela, ameaça chover novamente.

Paixão brasileira: Nudes e Fake news

O dia não estava bom. A mina terminou o namoro antes das 8 da manhã, não deixou café pronto como de costume e olha que na noite anterior a “chinelada” foi boa. Mas o que açoitava os pensamentos daquela mulher solteira beirando os 40 anos eram os hábitos domésticos de seu namorido. Ela dormia durante a semana por lá e ganhava uma hora a mais de sono por ser perto de seu emprego, de secretária da floricultura. Em cada noite dormida, tinha que fazer o café, o que não a incomodava pois também tomava. O difícil era o chuveiro frio que ele nunca consertava, e olha que era o ofício dele.

– Tô indo!

– Deixou café pronto?

– Sim, mas tô indo pra sempre!

Bateu a porta.

Geraldo ficou em dúvida sobre o que ouviu, mas em 30 segundos quando Eleonora não voltou para pegar alguma coisa que havia esquecido, se deu conta de que tinha algo errado naquela frase. Na verdade o que aconteceu foi um espetáculo da mais pura sinceridade. Enquanto tomava o café usando meias bicolores, pensava no que poderia ter acontecido para ela tomar aquela decisão, imaginou que ela estava cansada de namorar, queria algo sério, casamento!

Pra Geraldo, estava sério até demais, tinha sobrevivido até aqueles 41 anos sem nunca ter colocado uma reles aliança em seu dedo. Se fosse pra viver a solteirisse, que fosse.

– Ela voltou com aquele ex!

Não havia outra alternativa, por que ela iria deixar aquela vida de mordomia que levava? Cama com um amor peludinho, Chinelada duas vezes por semana e uma vida de rainha naquela casa (empregada também). Com a manhã de folga, resolveu fuçar na internet a vida da Ex e do ex dela. Ali tinha coisa!

Em tempos modernos, com a moderação de perfil, não conseguiu ver nada. Criou um perfil feminino, mandou emoji no direct e ainda chamou de crush. Do outro lado da tela, um ex, que estava carente respondeu com um nudes acrescido de um emoji de coração.

– Que merda é essa? (Geraldo se passando por Tifany)

– Meu corpo desejando o seu, gata. (Ex se passando por ele mesmo)

Em questão de minutos a verdade havia sido revelada, as ofensas encheram o canal sobrando elogios ao contrário. Em menos de uma hora estavam os dois na sala do delegado. Um acusando o outro de falsidade ideológica e o outro por adultério ( ao menos cúmplice) . Para resolver o delegado mandou ligar para Eleonora para saber o que fazer com os dois.

– Prenda os dois, seu delegado! Um me traía e o outro queria uma empregada de graça, eu cansei. isso não é vida!

Delegado acatou e mandou pra cela os dois por uma noite para refletirem sobre suas atitudes e deixarem Eleonora em paz. Noite fria,  cela sem colchão e cobertor…

– Eu tô com frio, posso te abraçar? Disse o Ex.

A noite iria ser longa mas para Eleonora iria ser de descanso, com os pés para cima, vendo tv e tomando café.

Bater ou correr (Um assalto para recordar)

 

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Sexta- feira, dia de pagamento e o melhor de tudo: O dia da entrega do vale transporte. Mais uma vez o Samuel avoado esqueceu de pegar seus vales, esqueceu de sacar algum trocado do salário, esqueceu de desligar o computador mais cedo e também esqueceu que iríamos subir a caminho do ponto de ônibus a pé e sozinhos graças ao seu esquecimento.
Do trabalho para casa, tínhamos dois caminhos até o ponto de ônibus, um cortando pelo mato e outro beirando a pista.

Vantagens de ir pelo mato: Indo pelo mato nós demoramos mais porém é tranquilo, podemos ver o céu estrelado, não tem cachorro louco querendo nos pegar, o risco de assalto é mínimo pois, nenhum bandido passa a noite atoa no mato, tem algumas corujas dando rasante em nossas cabeças, insetos fedidos e alguns buracos, não é de todo mal.
Vantagens de ir pela pista: É mais rápido, os carros podem nos pegar, tem uma cachorra louca que tenta nos atacar sempre, o risco de assalto é grande por que os vagabundos ficam atoa na parada esperando um desavisado para assaltar, porém não tem bichos ou insetos nos importunando. Também não é de todo mal.

Naquela sexta já passava das 23h20 quando saímos do serviço, o que não nos restou dúvida de que se fossemos pelo mato não conseguiriamos pegar o Bus da 23h30, fomos pela pista e no primeiro passo…. TCHORORORORORO (barulho de chuva).
Uma chuva torrencial nos fez mudar o trajeto da parada pretendida que estaria cheia de pessoas e bem iluminada, para ficar em um ponto de ônibus mais perto, sem ninguém e sem iluminação, tudo isso devido ao tempo. Nos dois sentidos da palavra.
Já era hora do ônibus passar e aquela parada escura dava um clima de abandono e insegurança, era tudo uma questão de minutos e o ônibus passaria.
– Bora mermão, passa tudo!
Fiquei sem entender, mas quando olhei para trás já tinha a resposta, ASSALTO.
Dois Adolescentes com uma faca roubando dois marmanjos, fomos para trás da parada e cada um pegou a sua vítima, eu fui rendido por um desconhecido, o Pava foi rendido pelo Capetinha.

Diálogo 1- Eu e o menor desconhecido
– Passa a carteira!
Ele Vasculhou a carteira e não achou nenhuma nota, depois começou a apalpar meu bolsos.
– Mermão, cadê a grana ?
– Pô velho! eu sou quebrado. Eu não sou estudante não, sou trabalhador!                    Grande diferença.                                                                                                                                  – Quê que tu tem dentro dessa mochila, aê?
– Eu tenho um biscoito, tá afim?
– Não, deixa eu vê…
O vagabundo tinha doutorado em mochila, além de achar bolsos secretos, tirou meus livros, coisas, papéis e espalhou tudo no chão. Para minha infelicidade ele achou meus vales transportes do mês inteiro que eu tinha acabado de receber (por isso era doutor em mochila, pois estava em um local super seguro até então), porém mostrou sua compaixão ao me entregar dois vales.
– Toma aê pra tu voltar pra casa.
– Pô! Valeu.
Somente um pobre para entender outro.

Diálogo 2 – Samuel e o Capetinha
– Me dá tua carteira!
– Eu não tenho.
– E cadê a grana?
– Então velho, eu só tenho esse 5 conto aqui.
– Não, de boa, fica com isso pra tu voltar pra casa.
– Velho, se você não roubar esse 5 conto, você não me assaltou.
– Então me dá esse 5 conto, o celular com a tela quebrada e esse casaco fedido. E não olha pra minha cara, otário. (Som de tapa no rosto)

E lá se foram os bandidos com as minhas coisas e os 5 conto do Samuel pra tornar o ato  em um assalto digno de ponto de ônibus.
– Porra velho! Eu não tenho nada aqui, como vamos voltar?
– O meu assaltante ainda me deixou com dois passes, aproveita e dá sinal que o nosso é esse aí.
Dentro do ônibus, em pé, molhados e com cara de bunda, Samuel começa:
– Eu fiquei te olhando pra gente correr…
– Correr? eu queria era dar um cacete naqueles moleques.
– Tu acha que é Rock Balboa é?
– E tu é o Papa Léguas é?
– Se tivéssemos corrido, não tinha acontecido nada.
– Por mim, a gente tinha decido o cacete.

E assim fomos até chegar em casa, resmungando a melhor saída,

que no fim não aconteceu.

Fronteira

Estava sentada sobre uma pedra no fim da rua, mesmo nublado, já passava das 8 horas da manhã, mas os cães nem os corredores haviam dado sinal de vida, devia ser feriado e ela não sabia, talvez fosse a Fórmula 1 sendo transmitida na Coréia do Norte, “Um evento e tanto!” Pensou.

Foi acometida de um sentimento de dúvida sobre onde estava, se era uma fronteira, divisa ou limite, coisas que só acontecem quando você está um certo tempo longe de casa, já faziam dezessete dias que não ligava para ninguém, não checava os e-mails e nem atualizava suas redes sociais, eremita de primeira viagem, mas com orgulho. Ao olhar as placas em dois idiomas deduziu que estaria perto da divisa, ou seria limite?

Laura, se esse for seu nome mesmo, decidiu ter um ano sabático, coisa de rico, muito comum na Índia e no Oriente Médio. Sair sem rumo e sem destino para refletir sobre o que o futuro lhe reserva, aos ricos acompanhado de uma taça de Chandom, aos pobres acompanhados da imagem de nossa senhora desatadora dos nós, à ela um pouco de tudo e principalmente sorte, muita sorte. Não é fácil ser mulher nesse mundo, os homens de bem da família a trataram como uma princesa garantindo que nenhum mal lhe cercaria, os outros homens garantiram o pior presságio para qualquer mulher nessa vida, o mais importante dos conselhos seria sempre fechar as pernas acima de tudo.

Fugindo da lógica familiar, comprou uma passagem, mentiu sobre intercâmbio, prometeu se alimentar corretamente e dar notícias semanalmente, há 17 dias na estrada ainda não havia visto no que tinha se transformando, nem queria mas, já era algo bom porque ninguém tinha comentado ou criado expectativa sobre seus passos.

– Aposto que é limite!

Conversou com a estrada, as árvores balançaram afirmando, continuava no mesmo território, este reconhecia dois povos unificados por um estado que respeita a cultura de ambos, criando estados separados em divisas e suas cidades organizadas e administradas dentro dos seus limites. Fronteira divide os países.

Que loucura Laura, ligue para casa. Estamos com saudade de controlar sua cabeça e todo o resto.