Vida sem sentido – A saga de Miltinho

“O Sentido da vida é que ela termina.”

Miltinho estava com essa frase na cabeça. A juventude havia chegado ao fim e agora ele tinha uma vida adulta pela frente, iria começar em uma repartição do estado, burocracia dia sim, dia também. Em seu primeiro dia já sentiu o tédio que seria o resto da sua vida naquele lugar. Chefes, mapas, canos e por fim, encontrar os parentes perdidos que se aventuravam no mundo externo e esqueciam de voltar. Ainda havia aqueles que nunca mais voltavam, igual o pessoal que atravessa a fronteira entre o México e os Estados Unidos.

Miltinho era diferente dos seus 41 irmãos, todos eram obcecados por comida e buracos quentes, nem sabia quantos ainda estavam vivos, nem dos pais ele tinha notícia. Tinha que trabalhar para sustentar seus pais que apenas procriavam. A vida era curta e não tinha sentido, o jeito era se ocupar para não enlouquecer. Ele estava cansado e se me permite o trocadilho, tambem estavam esgotado, porque era ali que vivia, uma cidade embaixo da cidade. Os outros, amigos, da mesma idade e de sua turma, sempre o convidavam para viver algumas aventuras.

“Vamos dar um rolê em um novo restaurante. Quer ir, Miltinho?”

“Caralho, fomos em uma festa, descobriram a gente e meteram baygon na rapaziada, ficamos loucas. Bateu uma lombra, mais da metade morreu nesse rolê, hahahaha cof.. cof…”

Por que aquelas criaturas se jogavam no universo da morte? Enquanto ele trabalhava, pensava se havia algo além dessas perspectivas para sua vida.

“Hoje vou no irmão Joe, tá afim?”

Irmão Joe, era um ser evoluído, morava em uma biblioteca, se alimentava de livros, literalmente, mas depois pegou gosto por ler algumas obras também. A cada dois dias, o Irmão Joe falava alguma frase e encerrava sua aparição pública. A biblioteca que ele habitava era de uma família que fazia questão de bons títulos mas não se preocupava tanto com a limpeza, o que favorecia a permanência do Irmão Joe. Naquela noite, ele disse para um público de quatro membros, havia um novato, Miltinho.

“O Sentido da vida é que ela termina.”

Aquilo tirou a fome de Miltinho por semanas, e acredite, era super possível ficar semanas sem comer. Depois de uns dias, saindo da repartição,  entrou no cano que levava a biblioteca do Irmão Joe, não era dia de reunião. Miltinho queria bater um papo em particular.

“Hoje eu não tenho o que dizer”

Irmão Joe, tinha um aspecto bem mais velho, talvez fosse o mais antigo de todos, se houvesse um livro dedicado ao Irmão Joe, seria o Guinness, o livro dos recordes.

“Isso é possível? Logo você que mora em uma biblioteca” Disse Miltinho.

“Você não sabe a energia que reside no silêncio.”

Desse jeito Miltinho iria explodir de tanta reflexão.  Pela primeira vez conversava com alguém que sabia algo além do universo de um bueiro. Será que o destino o colocou ali?

“Como eu faço pra ser igual a você?”

“Você é diferente de mim e isso basta, mas você podia ler alguma coisa.”

Irmão Joe falou do único livro que ele leu todo: A Metamorfose. Falava de um homem que ajudava a sua família, mas um dia acordou e viu que havia se tornado um inseto horroroso, abandonado à própria sorte, excluído pela família. Miltinho sabia que a sinopse era idêntica a da sua vida, esse tal de Greg Samsa não percebeu, que todo seu esforço para sustentar a família não foi visto quando ele não pode mais manter seus compromissos, mas a vida de Miltinho não podia acabar daquele jeito, ele precisava mudar de vida, ele precisava ter um sonho para acreditar.

“Já sei, eu quero ver o oceano, esse vai ser o sonho que vou lutar até o fim da minha vida”

Irmão Joe já estava se alimentando de algum livro enquanto Miltinho falava sozinho para aquelas páginas amarelas e empoeiradas, com as folhas medindo dez vezes o seu tamanho. Mesmo que soubesse, não tinha tanto tempo de vida para realizar aquele sonho, o primeiro segredo é contar para todos, assim eles o chamariam de louco, mas talvez alguém ajudasse com alguma ideia.

“O oceano? Tem uma piscina de esgoto aqui pertinho, isso é o oceano para mim”

“Esse tal de Oceano é o restaurante que a galera foi comer anteontem, né?”

“Eu não conheço o oceano, mas sei como chegar lá! Basta ir até o final do último cano”

De fato, não era muito difícil entender essa metáfora

“Mas tem que ir pela superfície”

Agora estava complicado. Como sair daquela zona de conforto?Como despistar a família e os 41 irmãos, na verdade não sabia mais quantos eram. Dane-se! Miltinho agora tinha um sonho e precisava realizá-lo, mesmo que isso lhe custasse sua insignificante vida. Ele tinha um plano, não muito requintado, mas tinha. Iria se fingir de morto e deixar que as formigas o levassem o mais longe possível, assim não levantaria suspeitas sobre o seu paradeiro, de acordo com o livro, Greg Samsa se torna um peso quando se transforma em um inseto, Miltinho queria que sua família deixasse de ser um peso para ele. Com o anúncio de sua morte, ficaria para outro irmão levar comida para os pais.

Assim o fez, ficou sem respirar, esperou que algum transeunte do bueiro notificasse seu falecimento. As formigas entraram em ação, foi levado a superfície, pela primeira vez viu o mundo externo. O sol, como queimava, ardia todo o seu corpo, mas era lindo, pensava se alguém já havia tentado tocá-lo. Era a primeira vez que Miltinho sentia calor, mesmo que não desse certo seu sonho, decidiu que gostaria de sentir o calor do sol para o resto de sua curta vida. Chegaste ao final da linha, se aproximava de seu corpo umas formigas maiores, com presas maiores. Miltinho sentiu uma sensação que nunca experimentara, não era uma sensação boa. Aquelas formigas pareciam muito sedentas por cortar em pequenas partes o corpo do Miltinho e entrar com elas no formigueiro, o jeito foi improvisar. Acordou como  Greg Samsa acordou de uma noite intranquila. Virou de barriga pra baixo e desatinou a andar, como quem percebe que está no lugar errado, cercado por todo o formigueiro e mesmo tendo mais agilidade que elas, ele não se via a salvo, as formigas já o cercavam. Não havia saída, será que alguém poderia ajudá-lo? Se o Sol fosse alguém ele pediria ajuda, e por que não pedir? Enquanto Miltinho olhava o sol firmemente, pensou que se estivesse mais perto,  ele o ouviria, quando percebeu estava voando em sua direção e assim viu-se distanciando do formigueiro e novamente pela primeira vez, sentiu o vento na face enquanto sobrevoava a cidade, tinha asas e não sabia que podia voar. Enquanto se dirigia ao sol, não desejava mais lhe pedir socorro, mas lhe agradecer, olhava a cidade cada vez menor lá embaixo, será que seus semelhantes já fizeram isso? 

Agora ele conseguia ver as cores do mundo, o verde, o marrom, uma faixa cinza e branca que subia em direção ao azul do céu, e por falar em azul, no horizonte, em oposição ao sol era possível ver uma faixa azul escura, o oceano. Miltinho usou suas asas na maior potência em direção ao mar, já era possível sentir o cheiro da maresia e ouvir o barulho das ondas. Quando pousou suas seis patas na areia molhada, notou o sentido da frase citada por irmão joe:

“O Sentido da vida é que ela termina.”

Para Miltinho, que não sabia ao certo quanto tempo levou até aquele momento, talvez semanas ou meses, a vida havia feito sentido, de certo ele poderia ter sido o único a ter realizado tal façanha, mas sabia que nenhum livro contaria sua história. E ali ele ficou, deitado na areia, olhando as ondas se quebrarem.  E a vida com sentido havia chegado ao fim.

Futebol de pequi

O talento com as pernas era inegável, mas a concorrência também era grande, todo dia nasce um novo Neymar na periferia, a invisibilidade social muitas vezes lhes tiram o sonho mas também lhes permitem não desistir daquele único sonho possível, até porque o futebol é fácil de fazer acontecer em qualquer lugar, basta uma bola e quatro pedras, o resto é a criatividade quem ensina.

Todo menino que gosta de futebol sonha em jogar em um time famoso, de preferência no circuito Rio-São Paulo, mas estes dois começaram na base no “Alô Alô”, em Brasília, time com nome de bloco de carnaval, porque foi daí a sua criação, uma mistura de euforia com determinação, do jeito que nasce o sonho em toda criança na favela. O time tinha poucos recursos, O técnico era um senhor apaixonado pelo América, dos tempos de ouro, quando o futebol tinha muito de arte e pouco de técnica, até o doutor Roberto Marinho, dono do jornal o globo era torcedor. O coroa sempre ensinava boas lições sobre companheirismo e jogo em equipe, afinal, o que se leva da vida e a vida que se leva. 

De peneira em peneira,ninguém sabe como aqueles dois meninos, cada um vindo de um canto do país, vieram parar ali. Os dois de família humilde, educação pública do jeito que deu, alfabetizados e capazes de contar os pontos em cada partida. A força de vontade e a fé não fizeram desistir de suas trajetórias.

Depois de anos passando morando em todos os cantos desse país e passando por vários times, agora eles estavam na série B, se encontram em times opostos, Remo (PA) e Vila Nova (GO), o jogo aconteceu em Belém, e os convidados foram de ônibus pela Belém- Brasília, na janela dava pra ver o filme da vida passando junto com a paisagem da estrada, ná rádio do ônibus tocava a música do Roberto Ribeiro: “Todo menino é um rei, eu também já um rei…” 

O time era esperado com um banquete paraense, maniçoba, arroz com jambu e tacacá. Culinária indigena, com um aspecto diferente, mas bem saboroso. Na verdade, o time anfitrião tinha o interesse de causar constipação no time visitante com as iguarias do norte, o que eles não esperavam era que os goianos também trariam um artefato de valor simbólico e comestível, o pequi. Ah nisso você precisa me ouvir, pequi foi feito apenas para os goianos. Não precisa pegar, cai no chão. Não precisa abrir, ele racha. Não mastiga, é só roer.

A partida foi uma típica pelada de domingo entre solteiros e casados, depois de uma feijoada. Barriga pesada, pernas lentas e o calor de Belém deixavam o jogo uma verdadeira tortura, ninguém corria. O segundo tempo virou praticamente um toque de bola por quase quarenta minutos, a bola ficou por dois minutos no meio do campo, a coragem não foi convocada para a partida, os técnicos sentados nos bancos de reserva evitavam gritar para não desmaiarem. Aqueles dois amigos da época, resolveram ir atrás da bola, se trombaram e fingiram se machucar para serem carregados pelos paramédicos, que estavam dormindo dentro das ambulâncias. O juiz também esgotado resolveu finalizar a partida dando o direito a um pênalti para cada agremiação.

Os goleiros estavam animados, levantaram para fazer jus ao escudo no peito, a defesa goiana reagiu melhor defendendo a bola no canto esquerdo enquanto a defesa paraense perdeu o rumo e permitiu que a bola entrasse e marcasse o único gol decisivo da partida, o pequi roído no bolso de cada jogador goiano deu sorte e fez com que saíssem vitoriosos com 1×0. Depois da partida, todos entraram no ônibus e dormiram por horas, na próxima não iriam se aventurar na recepção gastronômica antes do jogo.

Os anos 2000 e meu recalque

A revolução dos anos 2000 foi intensa e definitiva, começamos a migrar a passos lentos para o mundo digital. Qualquer adolescente no início dos anos 2000 teve contato com  filmes em DVD, dando fim a era das fitas VHS, filmes sendo substituídos por animações em 3D nos cinemas e a um celular, porém sofrendo com o dilema de não ter crédito para ligar. Fizemos nosso primeiro e-mail gratuito no BOL (Brasil On line) e em seguida criamos nosso perfil no orkut, que viria ser a febre da socialização virtual. Vale lembrar que o MSN, um software de troca de mensagens instantâneas lotavam as Lan-houses com intuito de bater papo, conhecer gente e atualizar o status com uma frase ou a música que estivesse ouvindo no momento.

O ano era 2004, estávamos no último ano do ensino médio, 30 jovens sem perspectiva de futuro nenhuma, mesmo declarando os cursos superiores que desejavam fazer. Em quase nossa totalidade, todos queríamos arrumar um emprego. Para os homens havia a possibilidade de servir o exército e as meninas conseguirem algo que não exigisse experiência. Mesmo com um futuro não muito animador, superficialmente todos falavam de  faculdades e de como iriam entrar na UnB: fosse pelo vestibular, fosse pelo Programa de Avaliação Seriada, o PAS. A real é que tínhamos esperança de dias melhores, de fato sobrevivemos a um ensino médio sem uniforme, sem professor, sem lanche e sem livro. Talvez em alguma escola, as condições fossem outras, mas na nossa, a situação era essa. Alguns colegas com estrutura familiar, um pouco de informação e renda fixa, faziam cursinhos para compensar o tempo perdido.

A nossa turma tinha um diferencial, queríamos estar juntos. Todo aniversário de algum colega era motivo para uma festinha tocando os hits do momento. Quintal decorado com um pouco de balões espalhados, uma mesa com o bolo e umas garrafas de refrigerantes e um som que tocava 3 em 1 (Disco, CD e fita K7). Para dar um clima de boate, as luzes eram apagadas e ficava apenas uma lâmpada pintada de tinta guache preta, que refletia sua luz em  alguns CD’s descascados na parede, trazendo uma atmosfera psicodélica mas sem álcool ou qualquer droga ilícita, quando surgia um goró, chamávamos de pinguerante devido a mistura, bebíamos em goles rápidos a fim de libertar nossos sonhos reprimidos pela dura vida que levávamos. O final do ano se aproximava, os professores aconselhavam sobre como era o dia-a-dia na universidade pública, sobre as festas do cursos e a rotina de livros e cópias. Nenhum falava sobre como fazer um currículo, como se comportar em uma entrevista de emprego ou onde procurar vaga. Os professores também sonhavam com os nossos sonhos.

Naquele mesmo ano, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) seria gratuito pela primeira vez a todos alunos que estavam concluindo o ensino médio nas escolas públicas, mesmo sem perspectiva eu fiz o exame e acredite, eu fui bem. Em janeiro do ano seguinte, o governo havia criado o Programa Universidade para todos (PROUNI) e eu com a minha nota do ENEM consegui uma bolsa 100% para fazer uma faculdade, aí sim eu entrei em um universo do qual eu nunca teria me visto. Eu acabei descobrindo que eu amava estudar, principalmente pelo fato de ser algo novo, sem uniforme, com gente diferente, com clima de vida adulta, mesmo sem ter um único centavo no bolso. 

Um dia comum em uma turma de Publicidade em 2006

Os anos seguinte continuaram com suas mudanças, posso dizer com tranquilidade que eu vi a banca de jornal morrer, os orelhões se tornaram cada vez mais obsoletos, as grandes franquias como O senhor do Anéis, Harry Potter e X-men enchiam as discussões entre os amigos devido aos seus efeitos especiais. Mas o que marcou minha vida foi o rock nacional independente. Durante minha vida toda eu escrevi letras de músicas e cantava na porta de casa para quem quisesse ouvir, durante o período escolar ainda montamos uma banda para tocar as minhas músicas, essa foi a fase mais legal da minha vida, eu me sentia um popstar, colocavamos as músicas em site chamado TRAMAVIRTUAL, que servia de divulgação para artistas do Brasil inteiro. O movimento underground usava os recursos virtuais para divulgarem suas músicas e atividades. Em minha cidade como não havia essa cena eu organizei alguns shows para nossa banda tocar. Os blogs surgiam com o intuito de externalizar emoções e opiniões através de um diário virtual, as páginas de fotos exibiam momentos registrados pelas novas máquinas digitais. Mas de tudo isso, eu sempre pensava que havia sido desleixado com meus estudos, mesmo vivendo uma juventude bacana, eu me sentia burro. Precisava ler mais, estudar mais, continuar até provar algo que fosse capaz: Passar na UnB. 

Afinando o baixo, minutos antes da apresentação.

De lá pra cá, foram 16 anos de estudo ininterruptos. Não sou nenhum gênio, não virei juiz nem diplomata, nem passei no melhor concurso público. Mas eu fiz muitas coisas das quais eu nunca tinha sonhado, conheci países, pessoas, realizei alguns prazeres pessoais, entrei em lugares que a minha vida econômica nunca permitiriam entrar, comi coisas sem gosto mas semblante de prazer porque era de conquista. No fim de tudo isso, pra dizer: – Eu passei na UnB!

Sim, passei. Mas o meu tempo também passou, meus objetivos são outros, meus sonhos são diferentes, mas esse recalque eu superei.Escrevo tudo isso para ir me livrando do passado que vive fresco na minha memória. Preciso cada vez mais estar conectado com o presente, e se quiser uma dica valiosa: Faça o mesmo! Viva como se houvesse um final mas não esqueça o que lhe trouxe aqui.

Eu acredito em você!

Último dia de aula de 2004. Provavelmente eu fui de chinelo.

Reflexões Visuais

Fiz uma pesquisa rápida entre os meus, perguntei quantas fotos haviam no celular de cada um. Pasmem! Eu fiquei na lanterna com quase 600 fotos, o primeiro atingiu a marca de 1.083 fotos. Já pensou se tivéssemos ainda que revelar para ver as fotos registradas? Antes, ostentação era um filme com 36 poses com ISO 200, ótimas para fotos noturnas, sem falar da necessidade de pilhas para os flashes. Mas o que faz com que tiremos tantas fotos virtuais? Em geral, a resposta a essa pergunta se dá pela necessidade do registro histórico do tempo, seja uma atividade, um momento familiar, muitas vezes um acontecimento marcante como: uma festa, um aniversário ou um lugar diferente. O que percebo é que pouco se fotografa sobre as trivialidades da vida, o dia comum, a rotina, os hábitos normais impostos pela vida cotidiana. É fato que todos usam o celular, não apenas pela qualidade média do aparelho, mas muito pela velocidade de estar pronto para o momento que se deseja registrar. Quando surgiram as primeiras máquinas digitais, a discussão se dava pela velocidade do registro, impossível ter a imagem congelada de um cachorro correndo, mas se nós somos capazes de pedir carona pelo celular sem sentir vergonha (inclusive, pagamos por isso) como não iríamos ter fotos mais velozes, inclusive mais bonitas. Creio que o problema agora são as fotos de fato, tratadas. Em uma experiência de montar um estúdio fotográfico(como fonte de renda e de sobrevivência mental durante a pandemia) todos os ensaios realizados rendiam críticas ao tratamento básico que era dado nas fotos. Querem fotos que distorçam a realidade e vendam uma estética quase plástica porém que não conflite com a realidade, querem mais tratamento digital que cubra as imperfeições do que os traços que delineiam a vida real. Fotógrafos, todos somos, a virtualidade nos deu esse título mas, muitas dessas imagens ficam perdidas no banco de memória do celular, também há uma necessidade de tirar repetidas fotos para que se encontre a foto ideal, digna de tornar-se pública. Com os stories das redes sociais mais populares (Instagram e Facebook) há uma certa corrida pela vaidade e atualização constante de uma vida repleta de coisas legais. Fragmentar o dia em uma única foto boa, transformar um passeio ou uma viagem em um momento inesquecível é mais importante do que apreciar o momento. A verdade é que as imagens nos permitiram exibir uma vida diferente, medida em likes, utilizando as imagens e manipulação digital para que possamos mentir melhor.

Estamos em um mundo imerso em imagens e é muito difícil resistir a elas.

OBS: Esta foi a foto que eu tirei com minha primeira camera digital, em junho de 2007. Um casaco e uma calça jeans, uma tv 14 polegadas de tubo, livros e CD’s empilhados.

MADE IN BRAZIL

Eu tenho muitas manias e acho que com a idade me tornei metódico por causa delas. Um exemplo clássico é sempre cheirar tudo. Eu cheiro a tampa da marmita, zíper de roupa, chave de boca, buraco de parede, gelatina quando mistura a água quente, celular novo, meias antes de usar… A lista é extensa, mesmo sentindo o cheiro no ambiente, eu cheiro de novo pra ter certeza. Mas umas de minhas manias é olhar de onde vem as coisas. Eu sempre olho onde é a fábrica, a cidade de onde vem o produto, o país que foi fabricado. Faço isso associado a um sentimento de descoberta. Molho de tomate eu percebo que todo lugar tem uma fábrica, às vezes vou no google maps ver onde fica a cidade e descubro que não tem quase nada de área rural e penso: Onde é que conseguem plantar tanto tomate assim? Em outras situações, me exalto de alegria ao saber que algo é fabricado ou distribuído em cidades vizinhas a minha e acredite, eu pulo de alegria ao saber que comprei algo que foi feio na minha cidade ou perto, seja roupa, sabão, veneno, pimenta, o que for. Eu compro e imagino aquele monte de gente empregada saindo da fábrica, morando pertinho do trabalho com o uniforme da empresa. Eu vejo na minha mente essas imagens, além da sensação de estar ajudando o empreendimento local a crescer. Mas reconheço, tem produto que é uma porcaria, seria melhor que a fábrica fechasse, ainda tem aqueles produtos que desaparecem e nós ficamos com um vazio, sabendo que poderíamos ter aproveitado a maravilha que tínhamos à disposição.

Agora vem a melhor parte. Eu amor ler os “Made in”, um dos meus passatempos favoritos é descobrir o país de origem das coisas, e eu fico pasmo sabendo que não tenho quase nada produzido no Brasil, principalmente coisas que utilizam plástico, led e algum orifício que se inclua na tomada. Devíamos produzir mais, pra ter orgulho e com certeza pagar menos, com a sensação de dever cumprido, o exemplo é a vacina de COVID-19 desenvolvida pelo Instituto Butantan, com um pouco mais de investimento, nós já teríamos fabricado doses para todos os brasileiros sem apoio internacional, mas isso é outro caso, politica não é uma das minhas manias, olhar a evolução de patrimônio dos políticos é um hobby, também fico horas olhando o portal da transparência, e sempre fico pasmo com o tanto de dinheiro que esse país tem e emprega mal, por fim, com a sensação de nada estar sendo feito.

Bom, o caso é que sempre leio os “mande in” Com intuito de achar algum país que não seja a China ou os EUA. Essa semana depois das compras no mercado,  que aumentou nosso custo em média 10% (Lá vem a política de novo), fui lavar os potes para colocar os mantimentos e adivinha? Nós temos um pote “Made in INDONÉSIA” e descobri que a cafeteira é “Made in GREECE”. Quanta alegria! Eu adoro ver coisas de outros países, gosto das características próprias, do design, geralmente tem algo diferente, e isso torna único aquele pequeno pedaço de outro país. 

Durante minha passagem pela África, especificamente no Kenya, enquanto participava de um acampamento internacional escoteiro, tive a oportunidade de ganhar muitos presentes de amigos de diferentes países, mas para minha surpresa,a maioria eram produtos fabricados na China. Nádia, uma angolana que desfilava com uma camiseta linda com a bandeira da Angola e um cachecol com os símbolos nacionais queria trocar por produtos brasileiros, me joguei na frente e fiz a negociação. Trato feito. Desfilava com a nova camiseta pelo evento. Chegando em casa, depois de desfazer a mochila e por tudo pra lavar, sou invadido por um sentimento de pasmaceira com euforia. Ao me preparar para desfilar pelas ruas da minha cidade com minha blusa exclusiva da Angola, ao me vestir, leio a etiqueta: 

MADE IN BRAZIL 

LEGENDA: Na foto, Leandro, Eu, Nádia e Fabrício, durante o ROVERMOOT, no KENYA, em 2010.

Formigas não sabem nadar

Mas boiam. E isso assusta. Muito. Não há nada que segure um formigueiro, já vi de tudo no youtube, todas as receitas possíveis: Fumaça, fumo curtido no álcool, bicarbonato de sódio com vinagre, aliás , vinagre combina com tudo, tem estudo dizendo que vão levar pro espaço com a finalidade de testarem a reconstituição da camada de ozônio, vinagre é o bicho da goiaba e a gente não sabe é de nada.

Mas voltando às formigas, elas me deixam estupefato. De onde menos se imagina, surge um formigueiro: das pequenas, das minúsculas, das que parecem piolho, das grandes, das amarelas, das que parecem tanajuras. Ainda tem aquelas que existem para deixarem sua marca no mundo, as de fogo, mordem e fazem-nos lembrar de músculos ou cantos do corpo esquecidos, até então adormecidos, nada é possível para aliviar a dor que elas causam.

Em casa já tentamos de tudo, colocamos cravo em todos os armários, folhas de louro dentro do microondas e até, acredite, até canela em pau em volta de vela , muito similar a um rito religioso, para qual santo pede o afastamento das formigas? Sei que Francisco de Assis é amigo dos animais mas, formiga e mosquito é um pouco de exagero, você não concorda comigo?

Pois bem, no auge do desejo, pedir carinhosamente a minha amada que fizesse um bolo de calda, fosse o que fosse o sabor, mas que tivesse calda. Na minha preferência seria de café e na preferência dela, de cenoura com chocolate. Como um bom marido e ciente de que não quero despertar a ira para uma terceira guerra dentro de casa, aceito de bom grado o que vier. Assim sobrevive o homem médio da família de classe média brasileira: esquece uma toalha aqui, conserta uma coisa ali e a vida segue como o final da novela na globo, pelo menos as antigas.

Um bolo de sabor maravilhoso, aroma inigualável e quente. Tudo que for comer pela primeira vez, escolha ao menos estar quente. O sábio sempre diz: Enquanto estiver quente, está bom. E as formigas?

O que fazer com essas benditas para que não acabem com a iguaria que desejamos comer no dia seguinte durante o café da manhã? De todas as dicas e mandingas descritas até aqui, elas sobrevivem a todas quando se trata de comida, só não entram na geladeira, nosso segredo é manter tudo lá, até as panelas limpas. Lavamos a casa todo dia, por mais que lavemos, elas sempre aparecem. Mas já era de se esperar que minha amada tivesse alguma ideia genial.

“Formigas não sabem nadar!”

Dito isto com o bolo colocado dentro de uma bacia cheia de água, fazendo da forma, um barco flutuante correndo o risco de afundar.

“Agora temos de comer um pedaço de cada lado para que o bolo não vire.”

Tragédia anunciada! Malditas formigas!

Antes de dormir fui ao cais saber se o navio estava em alto-mar ou ancorado e mesmo no centro da bacia já via algumas no meio da água, não se mexiam mas Deus me livre delas saberem nadar, Em pouco estarão lendo esse texto e….

Camaradas Formigas, uni-vos! A geladeira nos pertence!

Jambo – Minha aventura escoteira na África

Olá amigos e leitores,

Durante esse isolamento social, estou tirando a poeira das antigas ideias, uma delas é publicar a minha experiência no continente africano, no Quênia especificamente.

Algumas fotos que você vai encontrar.

 

Baixe aqui:

LIVRO – Minha aventura escoteira na áfrica

 

Sobre o MOOT

Esse evento é para jovens de 18 a 25 anos, o que justifica algumas situações.

https://en.wikipedia.org/wiki/World_Scout_Moot

Fiz uma série de vídeos que pode enriquecer a experiência e conhecer alguns personagens citados

https://www.youtube.com/watch?v=0TS790jgC0s

https://www.youtube.com/watch?v=_Bgx5r92EHw

https://www.youtube.com/watch?v=xIBr-aUqf7Q

https://www.youtube.com/watch?v=Z5hk4rPWa9U

https://www.youtube.com/watch?v=_lS_39h_ZEA

https://www.youtube.com/watch?v=IJoETYcQJ8A

https://www.youtube.com/watch?v=cPqWTINKvgA

 

Saiba mais sobre o movimento escoteiro no Brasil aqui:

https://www.escoteiros.org.br/

Bjo, me clicka!

Ricardo

– Alô!

-Está sabendo do Ricardo?

– Não. Não nos falamos há algum tempo, o que houve?

O Ricardo foi o meu primeiro amigo na nova escola, eu tinha nove anos e acabado de mudar de cidade, chorei na despedida mas me alegrei ao saber que na escola a gente ganhava doce e podia levar pra casa. Durante a terceira série, nós tínhamos a professora Maria Helena que era muito paciente e equilibrada com aquela turma de 30 alunos oriundos de diferentes regiões do país. Eu tinha acabado de perder um dente de leite, Ricardo enquanto maquiava com canetinha hidrocor o rosto da Amanda, notou de que minha boca saia sangue. Ele me perguntou o que houve e eu mostrei pra ele. Depois da aula, descobrimos que morávamos na mesma direção, durante o trajeto de volta, Ricardo me apresentou a gangue do meio dia que consistia em apertar as campainhas das casas e correr alucinadamente para não ser pego.

O Ricardo sempre foi diferente dos outros garotos da nossa turma, ele sempre preferia dançar, pular elástico ou jogar queimada com as meninas do que figurinha no bafo ou brincar de golzinho com os meninos. Durante a aula, sentava perto delas, conversava o dia todo e não falava um palavrão, tinha aptidão para comunicador, bem melhor do que eu, garanto.  Até fingiu gostar de uma menina da rua de cima, a Letícia. A menina era bonita, mas podemos dizer que ela era muito diferente do perfil do Ricardo, digamos que ela era pra frente, termo utilizado pela minha mãe e que talvez hoje não faça muito sentido, ela já beijava na boca enquanto nós apenas mandávamos bilhetinho e no máximo um andar de mãos dadas até a esquina.

– Tô apaixonado!

– Quem é a vítima?

– Uma menina que mora na rua acima da minha, Letícia. Você conhece?

– Não.

Sim, eu conhecia, mas não disse nada. Ela já havia dado encima de mim, mas não podia jogar agua fria no sentimento que meu amigo estava se esforçando pra expressar. Com pouco tempo, ela tratou ele como alguns meninos já o tratavam, ele desistiu. Se apaixonou pela Michele, que era um ano mais velha e já estava na quarta série, mas pela Michele, todos eram apaixonados, ela era a única menina da escola que já tinha beijado um menino no portão de entrada, dando espaço para pensarmos que devemos gostar ao menos de uma menina que já sabia o que era um beijo na boca, coisa que nenhum aluno da tia Maria Helena sabia.

O Ricardo sempre transformava todo trabalho em apresentação. Declamava, cantava, dançava com coreografia, inclusive em inglês, o que já começou a ocorrer nos anos seguintes da educação fundamental. Ricardo falava inglês enquanto a turma tentava aprender o verbo to be, coisa que aprendi a pouco tempo atrás. Talvez no seu sentimento, lá no fundo, ele soubesse que sua salvação estivesse em outro lugar, quem sabe outro país.

A oitava série foi o último ano que estudamos juntos e a mais memorável, Ricardo treinava uma apresentação  em inglês com dança coreografada, naquela época já despontava cantoras pop’s. Um moleque atentado de nome Hugo o empurrou, repetindo incansavelmente o bullying diário sobre sua própria fragilidade sexual contra a de Ricardo, um empurra-empurra fez nosso personagem real jogar a merenda da escola pública, uma sopa, em seu encontro mas este desviou, acertou uma aluna quieta que devolveu sua sopa contra Ricardo, uma guerra do lanche. Todos foram suspensos no final da aula, fomos embora cheirando a sopa no cabelo e nas blusas.

Fiquei muito anos sem noticias dele, sempre ouvia boatos de coisas boas e ruins, sempre guardava as boas. Ele tinha assumido sua homossexualidade, estava bem consigo mesmo. Os anos escolares e educação familiar de nossa geração não nos ensinou a conviver com o diferente e aceitar suas escolhas. Nós aprendemos isso na marra, e algumas vezes(me incluo nisso) fomos cruéis com tantos outros Ricardo’s por aí.

O telefone não toca mais, o mundo vive a base de mensagens e publicações em redes sociais. O Ricardo que não era muito ligado a tecnologia havia postado um texto triste dando adeus e sugerindo o fim de sua existência, pedindo perdão por tudo. Meus seis anos de convivência com ele passaram na minha cabeça, como eu podia ter apagado o Ricardo da minha vida? Nós éramos bons amigos, riamos de tudo, fazíamos piada um com o outro. Liguei em seu celular, estava fora de área, não respondia as minhas mensagens, apelei para uma amiga em comum.

– O Ricardo tentou se matar!

E ninguém fez nada. Todos eram culpados.

Estava internado, sendo controlado com medicamentos, família frágil e dividida, incapaz de reconhecer tantos problemas a serem resolvidos internamente. Ele havia desistido de viver e era culpa minha, nossa, de todos que não souberam aceitar ele assim. Inclusive ele.

O primeiro sintoma de desaparecimento é quando não fazemos falta pra mais ninguém. O segundo é não sentirmos falta de ninguém, é preciso se redescobrir, se amar e a partir disso começar a sua nova construção, religar sua fé e se conectar com a vida, a sua maneira.

Enquanto escrevo, algum outro Ricardo está tentando contra a própria vida, talvez por um motivo diferente do meu amigo. Nenhum sofrimento irá cessar as injustiças que a vida nos coloca, seja forte Ricardo, você não está sozinho, não sou só eu que acredito em você, meu amigo.

Barbeiro


Vou contar como me contaram

O cara era sangue bom, barbeiro de qualidade, casado, pai de três filhos, não havia nada que manchasse sua reputação na praça, no salão sempre dava moral para as teorias dos clientes:
– Porra Mathias! O problema do vasco é o Rio de janeiro, se fosse do Rio Grande seria tratado como nação, com devoto e tudo mais.
E ele completava:
– O que faz falta é um Andrada ou Carlos Germano no gol.
No assunto economia, dava aula:
– Porra Mathias! Tô querendo fazer um plano de capitalização
– Compra título do governo, rendimento anual mais interessante.
Mas quando o assunto era adultério, congelava:
– Mathias! A prima da minha mulher vai passar uma semana lá em casa, com as coisas andando meio paradas, fica difícil não pensar em um prato fresco na mesa, entende?
– Aí Klebão, nessa seara eu vou te dever. Você sabe que eu sou evangélico, casado, minha vida é do trabalho pra casa, amo minha mulher, meus filhos e fora isso tô aqui trabalhando ou na igreja.
– Sem ofender Mathias, mas tu nunca pensou em jantar fora de casa? Jogar bola sem chuteira? Sacudir a roseira?
– …..
Pensou mais um pouco, mas falou firme.
– Nnnnnão
Não convenceu nem ele mesmo.
– Tá certo Mathias, você é um exemplo pra nós, eu me esforço e seguro minha onda mas as vezes preciso pescar, se é que me entende.
– Imagino Klebão. Mas como eu sei que uma mulher está dando em cima de mim?
– O olhar é diferente, ela joga mais o cabelo, sorri, usa o batom vermelho, sei lá. As vezes não tem nada disso mas você sente.
Enquanto aparava os pelos do nariz, pensava em algumas situações que teria sido assediado, mesmo na igreja o diabo sempre vem tomar mais um drink. Falando em drink, a história do Mathias é repleta de pormenores, vale recapitular aqui quem era o Mathias antes de casar e se converter.

Nascido e criado em periferia, ouvido abençoado, a primeira vez que colocou a mão em uma sanfona não precisou nem que lhe mostrassem como segurava, deu três folegadas desafinadas, mas na quarta acertou o dedo e o tempo daquela bixa e a poeira subiu no boteco perto de sua casa, a noite chegou e o pequeno Mathias suava e ficava encantado com o excesso de elogios das moças que dançavam e se esfregavam pra ganhar um troco através do meretrício.
Cresceu entre as partidas no campinho e a forrozada no boteco do seu Reis e dona Rosa, Ao longo da infância ganhava doces e refrigerante, com a chegada da adolescência conheceu o álcool e o fruto proibido, aprendeu a beber, cair e levantar, a amar e a desapegar. Seu primeiro ofício foi como animador de um bingo, valendo uma caixa de cerveja com um frango assado. Um ano depois virou forrozeiro, daqueles que faziam a festa das solteiras e das casadas, bebia e cantava dos dois tipos (se é que me entende). A vida atribulada fez com que ele mudasse de cidade e conhecesse a mulher mais bonita da sua vida, largou o forró, a música e tratou de aprender um novo ofício, virou barbeiro, os mesmos dedos que tocavam sanfona também mostrou habilidade com a tesoura. Abriu um negócio próprio, casou, entrou pra igreja, usou seu talento pra ecoar a palavra de Deus, a esposa o tratava como rei, um homem perfeito mas naquele dia, a conversa com o Klebão acendeu uma luz.

Naquele dia mais tarde, o irmão Aristides tinha ligado, convidando o Mathias para uma pelada no campo de futebol sintético que havia inaugurado na cidade ao lado, só pessoal da igreja. Passou um pano em tênis velho, uma blusa do Vila Nova e uma garrafa com agua, beijou a esposa passou a mão nas crianças, disse que voltava cedo.
No carro do irmão Aristides, o cheiro de perfume vagabundo, saiu cantando pneu e aumentou o volume ao som dos Barões da pisadinha, no banco do carona, um camarada que não tinha nem cara e nem intenções cristãs gritava pra fora do carro.
– É o frevo dos magos, porra! Acelera Tide!
A garrafa de Montilla era passada para o banco de trás, ao lado de Mathias, outro desconhecido arrumado pra assistir o jogo e não jogar. Vai dar merda, pensou ele.

O campo sintetico de fato estava inaugurando mas o clima era de festa e não de jogo, garrafa e mulher pra todo lado, um som fuleiro mas animado.
– Irmão Aristides, que merda é essa? A gente num ia jogar bola?
– Relaxa, Mathias. Já já o campo libera e nóis joga, se quiser tomar um goró, eu tenho bala de canela no carro, fica tranquilo.
– Poxa, Aristides. A gente é cristão, isso num tá certo.
– Fala um palavrão, caralho! Tá achando que eu não te conheço, porra. Eu sou aquele cabelinho de fogo do campinho, tu agitava o boteco do Reis e a gente olhando as calcinhas das raparigas dançando, você é um herói pra mim, Mathias. Eu preciso te salvar.
– Eu já tô salvo, casei, mudei de vida.
– Vá se foder, porra! Fiquei quase dois anos na igreja pra tu pegar confiança comigo e agora fica com esse papo de salvação, você tem um dom, precisa mudar a história desse povo e a sua também.
– Tô fora! Já fiz uma escolha…
– Tem uma sanfona ali, toca uns dois forró pela amizade e eu te levo pra casa. Relaxa que eu não conto nada, voce segue sua vida e vou seguir o meu rumo. Olha que eu sempre te ajudei arrumando cliente pro seu salão.

Hesitou, mas era verdade, sem as indicações ninguém saberia do salão.

– Duas do Gonzagão e você me leva pra casa.

– Fechado.

A sanfona arrepiou, o campo de futebol sintético foi amaciando os passos e esquentando o clima, Mathias já estava tocando uma hora sem parar entre goles na Montilla e as tragadas no Derby, pensando no tempo que iria precisar explicar porque chegara as oito da manhã.

– Desistimos do jogo e fomos fazer uma vigília.

– E esse batom na blusa? Esse cheiro de perfume barato? E por que você está chupando bala de canela.

– A vigília foi aonde mais precisam de nós, no bordel. E você sabe que eu adoro canela.

Depois disso, era jogo com vigília toda quarta e sexta. De dia entrelaçava os dedos na tesoura e anoite na sanfona. No salão:

– Sabe Mathias, depois de conhecer você eu larguei a boemia, queria que meus amigos conhecessem você, um exemplo.

– Sabe que eu voltei pro futebol, vamos bater uma bolinha.

– Eu não sei jogar bola.

– Eu também não, mas tem um mês que eu tô jogando toda semana, tô me sentindo outro.

Até na cama melhorou, a mulher que o diga.

Reflexões de uma janela

Dividido entre as dúvidas da vida, nunca sabia onde devia estar seu coração, alguns diriam o óbvio:

– Onde houver mais amor.

Se esta resposta bastasse já havia escolhido. Entenda:

No primeiro lugar, foi onde escolheu semear sua vida, adoeceu, quase morreu mas, não desistiu. Queria estar lá, provar a si mesmo que era capaz de sobreviver, dois anos foram o suficientes para saber que aquilo iria mata-lo, sobreviveu por mais sete, número simbólico do arco íris. Não vivia, convivia, no melhor dia perguntava se ainda havia amor naquela sala vazia, a resposta vinha seca, seguida de um silêncio brutal. Não tinha como continuar mas não sabia se aquele deveria ser o seu destino.

No segundo lugar, não escolheu, foi escolhido. Mesmo que isso soasse novo mas com um sentimento de aventura e frustração antecipada, saber o passado de alguém nos torna refém em repetir um futuro doloroso. Mesmo que a vida não seja uma certeza, a rotina caminha para que não saíamos do lugar comum. Mas havia vantagem em escolher um novo caminho para sua trajetória, era diferente de tudo que experimentou até ali. Ainda assim ali tinha mais amor e um coração carente.

Dormiu tentando escolher, mesmo que a viagem já tivesse terminado.

Quem poderia escolher por ele?

O que você escolheria?