Geração Kung-fu

Toda escola tem um valentão, na minha era uma valentona, nos intimidava na entrada, ameaçava no recreio e perseguia na saída da escola. Todo dia, era necessário criarmos estratégias para fugirmos da briga. Naquele dia, nós corremos e nos espalhamos por becos e outras ruas. A diaba vociferava:

– Amanhã eu vou pegar vocês.

Tentando vencer o sono e ficar acordado até tarde da noite, assim pela manhã inventaria uma dor no corpo e me livraria da surra prometida. Na sala de casa após a novela das 20h que sempre iniciava as 21h, passava os esperados filmes na tela quente, o daquela noite era “O vôo do dragão”, com um ator muito famoso nos anos 80 e resquícios dos 90, o Bruce Lee. 

Ele rasgava a camisa e surra comia nos canalhas que atravessavam seu caminho, quando eles conseguiam machuca-lo, o ódio do Bruce Lee aumentava, ele lambia sangue no dedo e sentava a porrada com o polegar para cima, fazia sinal de jóia, mas a cara sempre de enfezado. Finalizava sempre com um beijo em uma gata passeando com um carro sem teto na avenida beira-mar, subiam os créditos na tela e o coração ainda estava a mil por hora com aquele longa-metragem de ação. 

Naquela noite, mal consegui dormir, eu chutava o ar e fazia os mesmos gemidos do grande dragão. 

“Uaaaa, uaaaa”

Levantei as duras penas para a escola, mas estava empolgado, pois havia vencido o sono. Impressão minha, mas a turma toda estava sonolenta, no intervalo, Izael deu um grito lançando uma voadora no ar. Logo após acertar um balde que estava no pátio, derramando água para todo lado, a inspetora o pegou pelo braço.

– Foi você, Izael?

– Sim. “Erros são sempre perdoáveis se você tiver a coragem de admiti-los.” 

Nosso colega foi levado para a coordenação, desferiu o golpe e mandou a frase de impacto do filme. Todos aplaudiram. Um salve para o Izael onde estiver.

Naquele mês, eu ainda não havia esquecido do filme, mas havia esquecido da promessa da surra da valentona, todas as tardes, após a escola eu lutava contra o vento no quintal. Precisava estar pronto para o confronto. 

No intervalo, a nossa galera fazia golpes e sons, talvez isso tivesse surtido algum efeito na brigona. Mas não foi isso, correu no boca a boca que hoje seria o dia do juízo, iríamos sentir a fúria da valentona. 

Trocamos bilhetes entre a aula de Matemática, unidos éramos invencíveis. Mas faltando 10 minutos foi dando uma angústia, ansiedade e vontade de ir no banheiro. Com os portões abertos, saímos olhando para todos os lados, pelo semblante em nossas faces, parecíamos animais sabendo que seriam abatidos. 

Chegamos em casa a salvo, sabendo depois que a bendita(maldita também) recebeu uma suspensão e foi para casa mais cedo. 

Nos dias seguintes, sabendo do ocorrido, espalhamos a fofoca dizendo que ela estava com medo de voltar a escola com medo de nós. Ainda tínhamos quatro dias, depois somente o espírito do Bruce Lee para nos salvar.


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