
Você já parou para pensar nisso? Existe uma música que conte a sua história? No meu caso, existem músicas que me lembram momentos.
Na minha infância, as modas de viola que meu pai ouvia todo sábado pela manhã me fizeram decorar sem nenhum esforço, clássicos como “Boate azul”, escrita em 1963 por Benedito Seviero, porem, foi proibida sua execução pela ditadura, a mesma só foi gravada em 1982 pelo grupo Amantes do Luar, mas ganhou fama com a gravação da dupla Joaquim e Manoel, em 1985. Qualquer boteco que tenha uma música sertaneja tocando, em algum momento toca Boate azul.
Aos meus nove anos eu podia não saber todos os nomes dos cachorros da TV Colosso, mas sabia identificar as vozes de Tião carreiro e Pardinho em qualquer aparelho sonoro. A música o “Rio de Lagrimas” que fala de um amor e o rio de Piracicaba, com mais de 50 anos, ainda toca no smartfone do meu coroa.
O meu outro ouvido, também escutou as músicas de minha mãe na infância, licença para o trocadilho, mas o lado “B” desse disco eu escuto até hoje. Minha mãe, como uma boa baiana, ama ouvir axé music e em todos os verões dos anos 90 haviam lançamentos que ecoavam os quatro cantos do país. Artistas como Daniela Mercury, Araketu, Cheiro de amor, Banda Eva e o divisor de águas da história brasileira contemporânea brasileira: É o tchan!
Na minha juventude, os meus cabelos ainda estavam presentes na cuca, a barba dando sinais de nascença, um movimento de rock nacional melódico começava a tomar forma com a popularização da internet. O estilo Emo surgiu graças a MTV e aos mp3’s players, na rede, as plataformas para conhecer bandas e postar fotos cresciam e isso ampliava os horizontes sonoros. As músicas da minha adolescência foram quase todas dos discos do Cpm22, batida rápida, guitarra suja e uma voz gritando, umas letras de protesto, mas muitas falando de amor. O hardcore melódico durou um bom tempo nas rádios, eu também queria ser famoso com a minha banda. O meu papel era escrever as letras, depois eu queria cantar, mas esse talento veio faltando na minha fabricação. O jeito foi aprender alguns acordes e tocar contrabaixo para não ser expulso do conjunto que eu mesmo havia criado.
Depois da euforia da juventude, o ouvido foi se adaptando e criando uma certa dificuldade em gostar de qualquer coisa, principalmente quando a qualidade da gravação piora a música. Comecei a gostar de novos artistas, mas principalmente de ouvir com mais atenção os antigos, inclusive pesquisar a autoria da música, a história e as regravações. Por exemplo: Você sabia que Ney Matogrosso, conhecido por interpretar e performar a música Lobisomem no grupo Secos e Molhados, é mais ouvido no Spotify por uma música chamada “Poema”, que Cazuza escreveu para sua vó quando ela faleceu e a mesma só foi musicalizada por Frejat anos depois da morte de Cazuza?
Fica a lição de casa, vale ouvir com atenção essa maravilha.