Barbeiro


Vou contar como me contaram

O cara era sangue bom, barbeiro de qualidade, casado, pai de três filhos, não havia nada que manchasse sua reputação na praça, no salão sempre dava moral para as teorias dos clientes:
– Porra Mathias! O problema do vasco é o Rio de janeiro, se fosse do Rio Grande seria tratado como nação, com devoto e tudo mais.
E ele completava:
– O que faz falta é um Andrada ou Carlos Germano no gol.
No assunto economia, dava aula:
– Porra Mathias! Tô querendo fazer um plano de capitalização
– Compra título do governo, rendimento anual mais interessante.
Mas quando o assunto era adultério, congelava:
– Mathias! A prima da minha mulher vai passar uma semana lá em casa, com as coisas andando meio paradas, fica difícil não pensar em um prato fresco na mesa, entende?
– Aí Klebão, nessa seara eu vou te dever. Você sabe que eu sou evangélico, casado, minha vida é do trabalho pra casa, amo minha mulher, meus filhos e fora isso tô aqui trabalhando ou na igreja.
– Sem ofender Mathias, mas tu nunca pensou em jantar fora de casa? Jogar bola sem chuteira? Sacudir a roseira?
– …..
Pensou mais um pouco, mas falou firme.
– Nnnnnão
Não convenceu nem ele mesmo.
– Tá certo Mathias, você é um exemplo pra nós, eu me esforço e seguro minha onda mas as vezes preciso pescar, se é que me entende.
– Imagino Klebão. Mas como eu sei que uma mulher está dando em cima de mim?
– O olhar é diferente, ela joga mais o cabelo, sorri, usa o batom vermelho, sei lá. As vezes não tem nada disso mas você sente.
Enquanto aparava os pelos do nariz, pensava em algumas situações que teria sido assediado, mesmo na igreja o diabo sempre vem tomar mais um drink. Falando em drink, a história do Mathias é repleta de pormenores, vale recapitular aqui quem era o Mathias antes de casar e se converter.

Nascido e criado em periferia, ouvido abençoado, a primeira vez que colocou a mão em uma sanfona não precisou nem que lhe mostrassem como segurava, deu três folegadas desafinadas, mas na quarta acertou o dedo e o tempo daquela bixa e a poeira subiu no boteco perto de sua casa, a noite chegou e o pequeno Mathias suava e ficava encantado com o excesso de elogios das moças que dançavam e se esfregavam pra ganhar um troco através do meretrício.
Cresceu entre as partidas no campinho e a forrozada no boteco do seu Reis e dona Rosa, Ao longo da infância ganhava doces e refrigerante, com a chegada da adolescência conheceu o álcool e o fruto proibido, aprendeu a beber, cair e levantar, a amar e a desapegar. Seu primeiro ofício foi como animador de um bingo, valendo uma caixa de cerveja com um frango assado. Um ano depois virou forrozeiro, daqueles que faziam a festa das solteiras e das casadas, bebia e cantava dos dois tipos (se é que me entende). A vida atribulada fez com que ele mudasse de cidade e conhecesse a mulher mais bonita da sua vida, largou o forró, a música e tratou de aprender um novo ofício, virou barbeiro, os mesmos dedos que tocavam sanfona também mostrou habilidade com a tesoura. Abriu um negócio próprio, casou, entrou pra igreja, usou seu talento pra ecoar a palavra de Deus, a esposa o tratava como rei, um homem perfeito mas naquele dia, a conversa com o Klebão acendeu uma luz.

Naquele dia mais tarde, o irmão Aristides tinha ligado, convidando o Mathias para uma pelada no campo de futebol sintético que havia inaugurado na cidade ao lado, só pessoal da igreja. Passou um pano em tênis velho, uma blusa do Vila Nova e uma garrafa com agua, beijou a esposa passou a mão nas crianças, disse que voltava cedo.
No carro do irmão Aristides, o cheiro de perfume vagabundo, saiu cantando pneu e aumentou o volume ao som dos Barões da pisadinha, no banco do carona, um camarada que não tinha nem cara e nem intenções cristãs gritava pra fora do carro.
– É o frevo dos magos, porra! Acelera Tide!
A garrafa de Montilla era passada para o banco de trás, ao lado de Mathias, outro desconhecido arrumado pra assistir o jogo e não jogar. Vai dar merda, pensou ele.

O campo sintetico de fato estava inaugurando mas o clima era de festa e não de jogo, garrafa e mulher pra todo lado, um som fuleiro mas animado.
– Irmão Aristides, que merda é essa? A gente num ia jogar bola?
– Relaxa, Mathias. Já já o campo libera e nóis joga, se quiser tomar um goró, eu tenho bala de canela no carro, fica tranquilo.
– Poxa, Aristides. A gente é cristão, isso num tá certo.
– Fala um palavrão, caralho! Tá achando que eu não te conheço, porra. Eu sou aquele cabelinho de fogo do campinho, tu agitava o boteco do Reis e a gente olhando as calcinhas das raparigas dançando, você é um herói pra mim, Mathias. Eu preciso te salvar.
– Eu já tô salvo, casei, mudei de vida.
– Vá se foder, porra! Fiquei quase dois anos na igreja pra tu pegar confiança comigo e agora fica com esse papo de salvação, você tem um dom, precisa mudar a história desse povo e a sua também.
– Tô fora! Já fiz uma escolha…
– Tem uma sanfona ali, toca uns dois forró pela amizade e eu te levo pra casa. Relaxa que eu não conto nada, voce segue sua vida e vou seguir o meu rumo. Olha que eu sempre te ajudei arrumando cliente pro seu salão.

Hesitou, mas era verdade, sem as indicações ninguém saberia do salão.

– Duas do Gonzagão e você me leva pra casa.

– Fechado.

A sanfona arrepiou, o campo de futebol sintético foi amaciando os passos e esquentando o clima, Mathias já estava tocando uma hora sem parar entre goles na Montilla e as tragadas no Derby, pensando no tempo que iria precisar explicar porque chegara as oito da manhã.

– Desistimos do jogo e fomos fazer uma vigília.

– E esse batom na blusa? Esse cheiro de perfume barato? E por que você está chupando bala de canela.

– A vigília foi aonde mais precisam de nós, no bordel. E você sabe que eu adoro canela.

Depois disso, era jogo com vigília toda quarta e sexta. De dia entrelaçava os dedos na tesoura e anoite na sanfona. No salão:

– Sabe Mathias, depois de conhecer você eu larguei a boemia, queria que meus amigos conhecessem você, um exemplo.

– Sabe que eu voltei pro futebol, vamos bater uma bolinha.

– Eu não sei jogar bola.

– Eu também não, mas tem um mês que eu tô jogando toda semana, tô me sentindo outro.

Até na cama melhorou, a mulher que o diga.

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Futebol de cegos

TM 2014-10

-Alo  você que esta nos ouvindo na Se toca FM, estamos aqui eu, seu locutor favorito, Jacinto Forte e meu amigo Cuca Buloso. Eeeeeee hoje é a final do primeiro torneio de futebol de cegos da nossa querida cidade. Queria agradecer ao nosso prefeito Botelho Nabo que prestigia essa festa com sua linda esposa Agata dos Prazeres.

– É isso aí querido ouvinte. Vamos dar início a nossa partida, lembrando que o único que enxerga é o goleiro. E hoje o campinho está lotado para a grande final dos times Cegamente com:  Dorival, Reinaldinho, Farinha, Novalgina, e no gol ele Cocacola. No outro time, Só se for com os Zoio Com: Marreco, Tome uma, Zézé,Um palmo, e no gol Sabichão.

A partida começa, arquibancada atenta, só se ouvi o sino da bola e um cego chamando o outro. Mas não adianta esperar educação em um lugar onde nunca houve bons costumes e decência. Em menos de cinco minutos de jogo, uma gritaria da porra, uma falta de respeito só. O tonho levou cerveja no isopor e vendeu tudo, a Maria aproveitou pra vender suas petas pra quem estava com fome.

No segundo tempo, a torcida estava embriagada e a cara cheia de farelos, já não se ouvia o sino da bola, os jogadores zanzavam no campo, até que sabichão teve a idéia de gritar.

Tome uma, Marreco encima do Novalgina.

De repente uma sacola vazia de peta voa pra dentro do campinho. O prefeito levanta e grita:

– Pega a sacola!

Com a gritaria os cegos entenderam Cocacola.

– O prefeito tá torcendo para o Cegamente, filho da puta.

– Também, todo mundo passou a mão na na mulher dele, ele é mais cego do que nós.

Gargalhada geral, o prefeito entrou no campo pra tomar a bola e acabar com aquela difamação mas, quando abaixou. levou um chute no olho e cego ficou naquele momento, enquanto gritavam sacola, os cegos entendiam Cocacola . Correram em direção ao campo e sentaram a porrada no goleiro, e uns nos outros, briga generalizada, até a torcida foi em defesa do time e dos amigos cegos. Uma criança mequetrefe enquanto comia o último saco de petas, pegou ar, encheu e….

POOOOOOOOOUUUUUUUUU!

– É tiro!

O povo correu desesperado, os cegos seguiram o sons do passos e foram embora também, no meio do campo com a roupa toda rasgada apenas o prefeito ainda procurava seu rumo.

Na cidade, contam até hoje sobre o jogo de futebol que os cegos enxergaram e o prefeito ficou cego, coisa de Satanás.

Toca essa bola

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Cadu, nascido no fim da geração TV com início da geração internet, filho do Costa, um apaixonado por futebol. Ambos viram suas humildes vidas modificadas quando souberam que a próxima copa seria no Brasil, a nossa terra amada aonde até o cocô pode virar uma pelota.

O filho, desinteressado, nunca foi muito de ligar para esporte, preferia ouvir música e video game, tudo que não dependesse de outra pessoa para ser realizado. Com quase 22 anos, ainda não havia decidido seu futuro, trabalhava de vez em quando, estudava quando lhe convinha e namorava quando não restava nada mais interessante, extremamente versátil (preguiçoso).

O pai, seu Costa, filho de seu Antônio, cresceu na periferia do Rio, a primeira copa que assistiu foi a de 70 com o Brasil ganhando o tri campeonato, dali em diante nunca mais perdeu uma sequer. Era sempre a mesma história, enfeita a casa, compra tv nova, coleciona o álbum da copa, música, tudo pronto para o maior espetáculo da terra. Tinha uma simpatia, em dia de jogo do Brasil não pode usar sapato, ninguém da casa. Durante a copa de 98, o Brasil perdeu por conta de um conhecido que veio assistir direto do trabalho, deu tudo errado. Em 2002 ganhamos, seu Costa trancou todo mundo em casa, o que foi a gota d’água para Cadu que odiou aquilo tudo, pegou antipatia de futebol.

A casa nunca mais foi a mesma, ninguém se importava com a copa, Costa assistia na sala sozinho, som baixo, nem comemorava, as vezes dormia durante a partida. Mas tudo mudou quando foi anunciada a festa em nossa terra, viu que aquela seria a chance de reconciliar a amizade do filho e trazer a alegria do mundial para dentro do lar.

Comprou ingressos para todos os jogos possíveis, sempre dois, queria ver ao lado do filho.

– O primeiro vai ser Brasil e Croácia.

Disse entusiasmado

– Acho que não vai dar. Respondeu Cadu

Costa saiu cabisbaixo

– Tudo bem.

A mãe, dona Nina interveio, não queria ver o marido assim.

– Meu filho, seu pai só quer companhia.

– Então por que você não vai com ele?

– Por que ele sempre quis ir ao estádio contigo. Na vida as vezes optamos pela felicidade dos outros, pense em tudo que seu pai já fez por ti.

Cadu não dormiu aquela noite. Estava decidido, iria com o pai. No dia do jogo, na mesa do café aparece Cadu usando uniforme azul da seleção, no peito quatro estrelas e atrás escrito Cafu.

– Vamos ou não para esse jogo?

Seu Costa se animou, trocou de roupa e partiram para o Itaquerao, chegaram três horas antes, queria ver tudo.

O jogo começou, bola rolando, o povo em ebulição, clima de festa, mulher bonita pra todo lado. Cadu estava feliz pelo pai, não lembrara de quando havia visto aquele Costa feliz, brincalhão.

– Tá gostando Cadu?

-Tô.

– E porque não tá dizendo nada?

Cadu olhou o percurso da bola até que os croatas trouxeram para nosso lado, a multidão em silêncio.

– OLHA PRA FRENTE! TOCA A BOLA!

E foi gol contra.

Cadu ficou calado o resto do jogo e o Brasil ganhou de 3×1, para seu Costa já era um começo, pelo menos o filho não estava de sapato.

A Boleira

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Tia Heloisa era a melhor tia de toda a quarta série, as datas mais esperadas eram as festinhas da escola e o aniversário da professora Marli que, apesar de ser uma carrasca, ganhava um bolo de presente todo ano. Bolo esse que era artesanalmente feito pelas mãos da nossa Tia Heloisa que era também a mãe do Ricardinho, ruim de bola mas que sabia dançar e acabava sempre rodeado de meninas. Quando eu digo que o segredo de todo homem é saber dançar, ninguém me leva a sério.

– Pessoal, o aniversário da professora tá chegando!
– Ricardinho…
– Tá, vou falar. A mãe de mais ninguém aqui sabe fazer bolo não?
– Mas é que tua mãe é boleira. Disse Soninha
– Ela não gosta desse nome, se continuar, não vai ter bolo.

Tia Heloisa odiava o nome que o bairro lhe dera: BOLEIRA. Nunca admitiu que lhe gritassem na rua:

– Oh boleira!

Virava as costas e ia embora, o bolo sempre esteve presente em sua vida, na infância era uma bola pois só comia bolo, na adolescência levou bolo dos pretendentes, já adulta resolveu se dedicar para aquilo que tinha maestria. Bolo.

Perdia encomendas toda vez que era chamada de boleira, aos poucos ganhou o respeito do bairro, mas sempre havia um espírito de porco para desfazer o sorriso da mãe do Ricardinho. No mercado quase deu na cara da caixeira.

– A senhora é a boleira? Meu filho estuda com o seu, é o Henrique.

A veia temporal destacou no rosto mas ela se segurou, estava a comprar as coisas para o bolo da professora, Tia Heloisa gostava dela, a professora, tinha ensinado matemática à seu filho. Saiu do mercado sem dar bom dia.

Em casa preparou o bolo com todo carinho e atenção, tinha aprendido que o professor era um segundo pai, merecia respeito, por isso ela fazia sempre sua receita especial: Bolo de formigueiro com cobertura de chocolate e coco.

No dia seguinte, a surpresa da professora (jura?). Balões, dizeres no quadro, um cartão feito a mão com assinatura de todos, apesar da oposição dos bagunceiros. Por fim entra Tia Heloisa com sua obra de arte, uma vela acesa puxando um parabéns animado, estava escrito Marli com anilina e coco, os meninos estavam tonteados com o aroma.

Termina em é pic, é hora, rá, tim, bum, o nome Marli ecoando pela sala. Assopra vela. Agradece. Corta o bolo e oferece:

– Estou muito feliz pelo carinho, mas não posso deixar de agradecer a quem preparou essa delícia, a nossa boleira…

Não houve tempo de concluir a frase, Tia Heloisa enfiou o bolo na cara da professora.

– Boleira é o caralho. É Tia Heloisa!

Foi a gota d’agua

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