O sexo das moscas

Se você acreditava no ditado popular que era dito quando a relação não andava “ Igual mosca de padaria, não trepa nem sai de cima”, tenho de lhe confessar que você está enganado, elas trepam. Mas não é só isso,veja você no que ando pensando. 

Na verdade eu não suporto mais a convivência com esse inseto, ainda nem começamos o verão, mal superei as formigas e as eternas baratas que me cercam, agora as moscas são quase membros da família. Fazem todas as refeições conosco. A casa vive cheia delas, já queimamos incenso, passamos vinagre branco em toda a cozinha e nada. Elas só não aparecem à noite e em dias de chuva, as que chegam antes da chuva já ficam, mas não trazem os parentes. No meu passeio matinal me deparo com um casal de

moscas acasalando. Como isso é possível? Com uma crise dessa? A gasolina batendo recorde, o ovo com o preço da carne e a carne com preço de jóia. E elas estão ali, fornicando, sem se incomodar com a minha presença, e sejamos honestos, beirando a obesidade. Não é possível! É sim…

Dedico alguns minutos a pesquisa e sou obrigado a reconhecer que temos muitas semelhanças com as moscas em relação ao sexo. 

As moscas vivem em média trinta dias, desse total, quatorze são em processo de amadurecimento, formação de caráter e encontrando um sentido para a vida. O que sobra são míseros dezesseis dias dedicados à vida adulta. A vida de uma mosca é muito mais do zumbir em nossos ouvidos, comer lixos e botas ovos em todo canto. A mosca precisa e gosta de acasalar, o tempo médio é de dez minutos, mas não se resume a isso.

As fêmeas não topam qualquer parada, só acasalam com o companheiro ideal, tem até que cantar música de amor (ou zumbido) para acontecer os finalmente, e duvide ou não, a mosca fêmea nunca é traída. Se uma mulher com dois olhos descobre tudo, pense em uma com mil. Já as que acasalam menos morrem mais cedo, o que não muda muita coisa com a nossa forma de fazer sexo, figuradamente falando.

Já os machos, mesmo com tanto planejamento e juntando as patinhas dando a sensação de já terem um plano para conquistarem suas fêmeas, quando são rejeitados buscam conforto no álcool. Não adianta forçar, se a mosca fêmea não deu sopa, não vai pousar e pronto (tentativa de trocadilho ridícula), o jeito é afogar em mágoas e tentar com outra. Escrevo enquanto algumas insistem em me incomodar, de repente não querem se expor na web, ou apenas que eu revise algumas observações que podem não ser tão verdade assim, afinal, não vale generalizar, tenho pra mim que rola um adultério nesse mundo mosqueiral. Mas isso eu ainda preciso investigar porque elas não dizem nada, aliás, em boca fechada não entra mosca (Morri e me enterrei ao mesmo tempo com essa).

Abaixo uma coleção de artes feita pelo fotográfo Magnus Muhr (https://www.instagram.com/lemuhr/), essas e outras podem ser vistas em livro “The life of fly.”

Os anos 2000 e meu recalque

A revolução dos anos 2000 foi intensa e definitiva, começamos a migrar a passos lentos para o mundo digital. Qualquer adolescente no início dos anos 2000 teve contato com  filmes em DVD, dando fim a era das fitas VHS, filmes sendo substituídos por animações em 3D nos cinemas e a um celular, porém sofrendo com o dilema de não ter crédito para ligar. Fizemos nosso primeiro e-mail gratuito no BOL (Brasil On line) e em seguida criamos nosso perfil no orkut, que viria ser a febre da socialização virtual. Vale lembrar que o MSN, um software de troca de mensagens instantâneas lotavam as Lan-houses com intuito de bater papo, conhecer gente e atualizar o status com uma frase ou a música que estivesse ouvindo no momento.

O ano era 2004, estávamos no último ano do ensino médio, 30 jovens sem perspectiva de futuro nenhuma, mesmo declarando os cursos superiores que desejavam fazer. Em quase nossa totalidade, todos queríamos arrumar um emprego. Para os homens havia a possibilidade de servir o exército e as meninas conseguirem algo que não exigisse experiência. Mesmo com um futuro não muito animador, superficialmente todos falavam de  faculdades e de como iriam entrar na UnB: fosse pelo vestibular, fosse pelo Programa de Avaliação Seriada, o PAS. A real é que tínhamos esperança de dias melhores, de fato sobrevivemos a um ensino médio sem uniforme, sem professor, sem lanche e sem livro. Talvez em alguma escola, as condições fossem outras, mas na nossa, a situação era essa. Alguns colegas com estrutura familiar, um pouco de informação e renda fixa, faziam cursinhos para compensar o tempo perdido.

A nossa turma tinha um diferencial, queríamos estar juntos. Todo aniversário de algum colega era motivo para uma festinha tocando os hits do momento. Quintal decorado com um pouco de balões espalhados, uma mesa com o bolo e umas garrafas de refrigerantes e um som que tocava 3 em 1 (Disco, CD e fita K7). Para dar um clima de boate, as luzes eram apagadas e ficava apenas uma lâmpada pintada de tinta guache preta, que refletia sua luz em  alguns CD’s descascados na parede, trazendo uma atmosfera psicodélica mas sem álcool ou qualquer droga ilícita, quando surgia um goró, chamávamos de pinguerante devido a mistura, bebíamos em goles rápidos a fim de libertar nossos sonhos reprimidos pela dura vida que levávamos. O final do ano se aproximava, os professores aconselhavam sobre como era o dia-a-dia na universidade pública, sobre as festas do cursos e a rotina de livros e cópias. Nenhum falava sobre como fazer um currículo, como se comportar em uma entrevista de emprego ou onde procurar vaga. Os professores também sonhavam com os nossos sonhos.

Naquele mesmo ano, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) seria gratuito pela primeira vez a todos alunos que estavam concluindo o ensino médio nas escolas públicas, mesmo sem perspectiva eu fiz o exame e acredite, eu fui bem. Em janeiro do ano seguinte, o governo havia criado o Programa Universidade para todos (PROUNI) e eu com a minha nota do ENEM consegui uma bolsa 100% para fazer uma faculdade, aí sim eu entrei em um universo do qual eu nunca teria me visto. Eu acabei descobrindo que eu amava estudar, principalmente pelo fato de ser algo novo, sem uniforme, com gente diferente, com clima de vida adulta, mesmo sem ter um único centavo no bolso. 

Um dia comum em uma turma de Publicidade em 2006

Os anos seguinte continuaram com suas mudanças, posso dizer com tranquilidade que eu vi a banca de jornal morrer, os orelhões se tornaram cada vez mais obsoletos, as grandes franquias como O senhor do Anéis, Harry Potter e X-men enchiam as discussões entre os amigos devido aos seus efeitos especiais. Mas o que marcou minha vida foi o rock nacional independente. Durante minha vida toda eu escrevi letras de músicas e cantava na porta de casa para quem quisesse ouvir, durante o período escolar ainda montamos uma banda para tocar as minhas músicas, essa foi a fase mais legal da minha vida, eu me sentia um popstar, colocavamos as músicas em site chamado TRAMAVIRTUAL, que servia de divulgação para artistas do Brasil inteiro. O movimento underground usava os recursos virtuais para divulgarem suas músicas e atividades. Em minha cidade como não havia essa cena eu organizei alguns shows para nossa banda tocar. Os blogs surgiam com o intuito de externalizar emoções e opiniões através de um diário virtual, as páginas de fotos exibiam momentos registrados pelas novas máquinas digitais. Mas de tudo isso, eu sempre pensava que havia sido desleixado com meus estudos, mesmo vivendo uma juventude bacana, eu me sentia burro. Precisava ler mais, estudar mais, continuar até provar algo que fosse capaz: Passar na UnB. 

Afinando o baixo, minutos antes da apresentação.

De lá pra cá, foram 16 anos de estudo ininterruptos. Não sou nenhum gênio, não virei juiz nem diplomata, nem passei no melhor concurso público. Mas eu fiz muitas coisas das quais eu nunca tinha sonhado, conheci países, pessoas, realizei alguns prazeres pessoais, entrei em lugares que a minha vida econômica nunca permitiriam entrar, comi coisas sem gosto mas semblante de prazer porque era de conquista. No fim de tudo isso, pra dizer: – Eu passei na UnB!

Sim, passei. Mas o meu tempo também passou, meus objetivos são outros, meus sonhos são diferentes, mas esse recalque eu superei.Escrevo tudo isso para ir me livrando do passado que vive fresco na minha memória. Preciso cada vez mais estar conectado com o presente, e se quiser uma dica valiosa: Faça o mesmo! Viva como se houvesse um final mas não esqueça o que lhe trouxe aqui.

Eu acredito em você!

Último dia de aula de 2004. Provavelmente eu fui de chinelo.

Vida rodoviária

Indo para o trabalho, 11h40, dia de sol no outono.
Todo dia é uma aventura no ônibus.
– Vai descer motorista!
E lá vai o camarada caminhar 500 metros na chuva até um abrigo para depois chegar em casa, secar-se e pensar por que não foi de carro. “Sacanagem!” ele pensa a respeito da vida que o escolheu para fazer jus ao dia de cão.
– Gente! Desculpa incomodar vocês mas é que eu estou vendendo esse fone de ouvido para sustentar a minha família, quem puder segurar já é um incentivo .
Nessa de incentivo ele sempre esquece que deixou um com os passageiros da frente, desce pelo fundo agradecendo e desejando boa viagem e que Deus proteja o cobrador e o motorista dos caloteiros.
– Olha aqui, Tifany! Quando eu chegar em casa nóis vamo cunversá, porque não tem cabimento você ter comido mais da metade do ovos de páscoa que eu comprei pra você e seus irmão. Eu espero que ti dê uma diarreia, quando eu chegar nois cunversa, eu tô no ônibus, com aquele motorista lerdo da porra!
E assim vou captando a essência da vida de cada um durante a viagem. Quando desço:
“Três bandeja é cinco!”
“Vai seda! Vai seda!”
“Película, carregador é cinco!”
“Salgadinho, pimentinha é um real”
“Água, água, água, água, água, água, água”
Voltando pra casa, dia de chuva no verão
Final de semana chegando.
Sexta feira chuvosa, todo mundo doido pra ir pra casa. Na correria, ônibus abafado, gente correndo, empurra empurra, um manda abraço do colega do trabalho, deseja bom final de semana e até segunda. Alguém grita:
– Fone de ouvido 5, carregador 10!
O cheiro de churrasquinho invade as narinas, o povo tem que passar por um corredor com vários vendedores de seda pra maconha até roupas de carnaval.
Meu celular tenta ser furtado duas vezes enquanto tiro a foto.
Isso já é Brasília faz muitos anos.

A gangue do meio dia (1996)


O ano é 1996, a cidade de Valparaiso de Goiás é criada e deixa de ser um distrito de Luziânia, terá a sua primeira eleição municipal.
Enquanto um lado da cidade curtia o final do verão ao som da dança da bundinha (É o tchan) e boquinha da garrafa (Companhia do pagode), os bailes sacudiam ao som de Claudinho e Bochecha com Nosso sonho. Em alguma avenida, algum walkman o Skank tocava Garota Nacional. Mas o que vai parar o Brasil é o acidente causando a morte do Mamonas Assassinas e logo em seguida o surgimento do ET de Varginha durante a programação do Fantástico, na TV Globo que além disso lança a novela Rei do gado. Em outro canal surgia o Cidade Alerta, falando do aumento da violência nos grandes centros urbanos.
O Beep e o celular se popularizam, assim como a compra de computadores e o acesso a internet, mesmo que apenas para bater papo no BOL e carregar algumas fotos de conteúdo proibido para menores. A tecnologia conquista a criançada com o lançamento do Tamagochi. E no Brasil,a política mudava de rumo com a chegada das urnas digitais.
Tudo isso não bastou para que o ano fosse memorável para a turma da Tia Aparecida, que na terceira série procuravam aventura na saída da escola. Uma média de seis crianças entre meninos e meninas, entre eles um gênio:
– Tive uma ideia!
O que uma criança de 10 anos sem nenhum pêlo no sovaco, ainda faltando um dente nascer e uma mochila pesada teria em mente.
– Vamos apertar a campainha das casas e sair correndo!
Não houve tempo de articulação e defesa de tese, o mais gordinho da turma apertou e saiu correndo seguido pela turma em direção ao final da rua, ouvindo os berros da moradora ao fundo:
– Na próxima vou lhe dar uma chinelada, seus moleques!
Naquele momento atravessando a avenida, surgia a Gangue do Meio dia, com um sorriso de confirmação e cumplicidade e muito sebo nas canelas para todas as aventuras que iriam ocorrer ao longo daquele ano de 1996.
A lógica de trabalho era a mesma, um abençoado ia na frente, olhava onde tinha campainha, avistava-se se tinha alguém na garagem e acenava para o apertador da vez, para aqueles que estavam cansados no dia, bastava um regra de sobrevivência:

“Continue andando normalmente, não olhe para trás e não ria” o que era impossível quando era a vez do gordinho que corria deixando a bunda de fora e o material escolar pelo caminho. Em dias de chuva, o guarda chuva se tornava dispensável pois o vento não contribuía com a competição.
Ao longo dos meses, a gangue além de apertar campainhas, também começou a fazer alguns trotes com amigos de classe. A ideia era expandir o sentimento de união que havia na sala, onde o mais pentelho dos alunos passou o ano apenas respondendo:
– Auau! Professora!
Nos últimos meses do ano, alguns moradores se vingaram. Os meninos da gangue tomaram choque em campainhas com fio exposto, correram de cachorros, tentativa de atropelo com bicicleta e contar a travessura para a mãe que significava o mesmo que morrer.
As provas foram bastante cansativas e uma última aventura foi convocada para confraternizar todo o conteúdo da professora Ana Aparecida na escola municipal. Decidimos que todos iriam apertar uma campainha naquela manhã, com as provas e o desenho de Boas Férias nas mãos, a chuva ininterrupta fazia com que andássemos devagar, na primeira casa uma amiga escorregou e quebrou o tamanco da Carla Perez, na segunda um companheiro preferiu se molhar na chuva e esqueceu do laço que nos unia, na terceira aquele gordinho apertou e jogou suas provas para o alto e correu de duas mulheres armadas de pau, um amigo recolhia as provas na chuva na tentativa de salvá-lo pelo menos da surra de sua mãe. Seguindo a regra de sobrevivência, os dois últimos membros ficaram aflitos mas seguiram a regra. Eis que aquele garoto que apenas latia em sala tomou ímpeto e parou em frente a casa e gritou:
– Auau!
Pegou a mão da última membra da gangue e tacou-lhe um beijo na boca, 1996 chegava ao fim, ano que vem começa tudo de novo.

Obs: Esse texto simples, escrevo para Isael que estudou comigo na terceira série, seus “Auau’s” nunca saíram da minha cabeça, escrevo para recordar a infância deliciosa e aventureira que tivemos. Um abraço.

Paixão brasileira: Nudes e Fake news

O dia não estava bom. A mina terminou o namoro antes das 8 da manhã, não deixou café pronto como de costume e olha que na noite anterior a “chinelada” foi boa. Mas o que açoitava os pensamentos daquela mulher solteira beirando os 40 anos eram os hábitos domésticos de seu namorido. Ela dormia durante a semana por lá e ganhava uma hora a mais de sono por ser perto de seu emprego, de secretária da floricultura. Em cada noite dormida, tinha que fazer o café, o que não a incomodava pois também tomava. O difícil era o chuveiro frio que ele nunca consertava, e olha que era o ofício dele.

– Tô indo!

– Deixou café pronto?

– Sim, mas tô indo pra sempre!

Bateu a porta.

Geraldo ficou em dúvida sobre o que ouviu, mas em 30 segundos quando Eleonora não voltou para pegar alguma coisa que havia esquecido, se deu conta de que tinha algo errado naquela frase. Na verdade o que aconteceu foi um espetáculo da mais pura sinceridade. Enquanto tomava o café usando meias bicolores, pensava no que poderia ter acontecido para ela tomar aquela decisão, imaginou que ela estava cansada de namorar, queria algo sério, casamento!

Pra Geraldo, estava sério até demais, tinha sobrevivido até aqueles 41 anos sem nunca ter colocado uma reles aliança em seu dedo. Se fosse pra viver a solteirisse, que fosse.

– Ela voltou com aquele ex!

Não havia outra alternativa, por que ela iria deixar aquela vida de mordomia que levava? Cama com um amor peludinho, Chinelada duas vezes por semana e uma vida de rainha naquela casa (empregada também). Com a manhã de folga, resolveu fuçar na internet a vida da Ex e do ex dela. Ali tinha coisa!

Em tempos modernos, com a moderação de perfil, não conseguiu ver nada. Criou um perfil feminino, mandou emoji no direct e ainda chamou de crush. Do outro lado da tela, um ex, que estava carente respondeu com um nudes acrescido de um emoji de coração.

– Que merda é essa? (Geraldo se passando por Tifany)

– Meu corpo desejando o seu, gata. (Ex se passando por ele mesmo)

Em questão de minutos a verdade havia sido revelada, as ofensas encheram o canal sobrando elogios ao contrário. Em menos de uma hora estavam os dois na sala do delegado. Um acusando o outro de falsidade ideológica e o outro por adultério ( ao menos cúmplice) . Para resolver o delegado mandou ligar para Eleonora para saber o que fazer com os dois.

– Prenda os dois, seu delegado! Um me traía e o outro queria uma empregada de graça, eu cansei. isso não é vida!

Delegado acatou e mandou pra cela os dois por uma noite para refletirem sobre suas atitudes e deixarem Eleonora em paz. Noite fria,  cela sem colchão e cobertor…

– Eu tô com frio, posso te abraçar? Disse o Ex.

A noite iria ser longa mas para Eleonora iria ser de descanso, com os pés para cima, vendo tv e tomando café.

Bater ou correr (Um assalto para recordar)

 

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Sexta- feira, dia de pagamento e o melhor de tudo: O dia da entrega do vale transporte. Mais uma vez o Samuel avoado esqueceu de pegar seus vales, esqueceu de sacar algum trocado do salário, esqueceu de desligar o computador mais cedo e também esqueceu que iríamos subir a caminho do ponto de ônibus a pé e sozinhos graças ao seu esquecimento.
Do trabalho para casa, tínhamos dois caminhos até o ponto de ônibus, um cortando pelo mato e outro beirando a pista.

Vantagens de ir pelo mato: Indo pelo mato nós demoramos mais porém é tranquilo, podemos ver o céu estrelado, não tem cachorro louco querendo nos pegar, o risco de assalto é mínimo pois, nenhum bandido passa a noite atoa no mato, tem algumas corujas dando rasante em nossas cabeças, insetos fedidos e alguns buracos, não é de todo mal.
Vantagens de ir pela pista: É mais rápido, os carros podem nos pegar, tem uma cachorra louca que tenta nos atacar sempre, o risco de assalto é grande por que os vagabundos ficam atoa na parada esperando um desavisado para assaltar, porém não tem bichos ou insetos nos importunando. Também não é de todo mal.

Naquela sexta já passava das 23h20 quando saímos do serviço, o que não nos restou dúvida de que se fossemos pelo mato não conseguiriamos pegar o Bus da 23h30, fomos pela pista e no primeiro passo…. TCHORORORORORO (barulho de chuva).
Uma chuva torrencial nos fez mudar o trajeto da parada pretendida que estaria cheia de pessoas e bem iluminada, para ficar em um ponto de ônibus mais perto, sem ninguém e sem iluminação, tudo isso devido ao tempo. Nos dois sentidos da palavra.
Já era hora do ônibus passar e aquela parada escura dava um clima de abandono e insegurança, era tudo uma questão de minutos e o ônibus passaria.
– Bora mermão, passa tudo!
Fiquei sem entender, mas quando olhei para trás já tinha a resposta, ASSALTO.
Dois Adolescentes com uma faca roubando dois marmanjos, fomos para trás da parada e cada um pegou a sua vítima, eu fui rendido por um desconhecido, o Pava foi rendido pelo Capetinha.

Diálogo 1- Eu e o menor desconhecido
– Passa a carteira!
Ele Vasculhou a carteira e não achou nenhuma nota, depois começou a apalpar meu bolsos.
– Mermão, cadê a grana ?
– Pô velho! eu sou quebrado. Eu não sou estudante não, sou trabalhador!                    Grande diferença.                                                                                                                                  – Quê que tu tem dentro dessa mochila, aê?
– Eu tenho um biscoito, tá afim?
– Não, deixa eu vê…
O vagabundo tinha doutorado em mochila, além de achar bolsos secretos, tirou meus livros, coisas, papéis e espalhou tudo no chão. Para minha infelicidade ele achou meus vales transportes do mês inteiro que eu tinha acabado de receber (por isso era doutor em mochila, pois estava em um local super seguro até então), porém mostrou sua compaixão ao me entregar dois vales.
– Toma aê pra tu voltar pra casa.
– Pô! Valeu.
Somente um pobre para entender outro.

Diálogo 2 – Samuel e o Capetinha
– Me dá tua carteira!
– Eu não tenho.
– E cadê a grana?
– Então velho, eu só tenho esse 5 conto aqui.
– Não, de boa, fica com isso pra tu voltar pra casa.
– Velho, se você não roubar esse 5 conto, você não me assaltou.
– Então me dá esse 5 conto, o celular com a tela quebrada e esse casaco fedido. E não olha pra minha cara, otário. (Som de tapa no rosto)

E lá se foram os bandidos com as minhas coisas e os 5 conto do Samuel pra tornar o ato  em um assalto digno de ponto de ônibus.
– Porra velho! Eu não tenho nada aqui, como vamos voltar?
– O meu assaltante ainda me deixou com dois passes, aproveita e dá sinal que o nosso é esse aí.
Dentro do ônibus, em pé, molhados e com cara de bunda, Samuel começa:
– Eu fiquei te olhando pra gente correr…
– Correr? eu queria era dar um cacete naqueles moleques.
– Tu acha que é Rock Balboa é?
– E tu é o Papa Léguas é?
– Se tivéssemos corrido, não tinha acontecido nada.
– Por mim, a gente tinha decido o cacete.

E assim fomos até chegar em casa, resmungando a melhor saída,

que no fim não aconteceu.

Alienígenas invadem a capital

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Luzes. Um clarão que não permitia enxergar nada, o som era das vozes que se aproximavam e iam somando naquele ensaio de praça publica com deposito de quinquilharia.

Coisa estranha de ver, parecia um início de romaria sem presépio. Era cada coisa que ouvia e ainda não sabia do que estavam falando.

– Valei-me nossa senhora!

– Chegou a hora!

– É de lascar o cano.

Pouco ou quase nada podia-se definir daquele clarão na capital do cerrado, as fortes luzes não deixavam nem os pensamentos se organizarem. Mas a bagunça sim, esta já estava organizada, o branco se misturava com o vermelho e azul dos rotolights, que juntamente com a guarda municipal tentavam fazer ao menos uma fila.

– Pra que fila?

– Pra organizar.

Respondeu o soldado pensando em uma resposta melhor

– Hoje começa o fim do mundo.

Syrleide (Nome inglês, mistura de Sir com Lady) que chegara no último circular, queria saber o porque daquele furdunço em sua porta aquela hora da noite. Em pouco tempo já foi enquadrada na fila das sem rumo, as outras filas eram: Curiosos, Bêbados e devotos de Santo Expedito.

Ninguém sabia mais o que fazer, nem a polícia, nem o povo, muito menos Syrleide que só queria ver o final da novela.

Quando o clarão acabou, a energia da cidade se foi, no escuro as teorias eram outras, coisa de máfia, tem ET no meio ou seria alguém soldando algum portão velho, mas em poucos segundos tudo se clareou ao menos nas ideias. No fim da rua descia uma mistura de brinquedo assassino com fantasma do filme Ghost.

Era o palhaço Pirulito esfumaçando, depois de uma gato de luz mal-sucedido. Ao encarar a multidão e seus cartazes, não exitou:

– O circo chegou minha gente!

Corre Pirulito.

Trump, Superman e Homem Aranha

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Durante o credenciamento, tumulto, gente mexendo no celular, mulheres histéricas, chihuahuas latindo e muito terno pra pouco defunto. Clark havia se  perdido de Jimmy, com tantos protestos nas ruas nós sabemos onde um fotojornalista gosta de trabalhar. A posse do novo presidente do Estados Unidos estava muito competida, concorrida. Políticos apagados na gestão Obama, militares e muitas socialites.  socialights . As Os Kardashians não conseguiam conter a emoção e a inveja. Clark estava desatualizado  sobre os bastidores da política americana. A última briga com Lex Luthor ocupava sua mente em momentos de folga. Mas, imagine você saber que seu inimigo está mandando snaps para Lois, que por sinal é sua esposa. Por uma simples cabeçada, Lois  tinha feito Clark dormir na sala por uma semana, coisas que um homem casado às vezes precisa sentir na pele. Segundo Lois, não eram nada demais. Algumas mensagens românticas e um pouco de seminu (careca conta). Brincadeiras que nunca foram de se esperar do último conservador vindo de Kripton, que tinha tudo para ser um planeta foda, mas que sem moeda, resolvia tudo era na força e no raio laser. Deu no que deu. Ainda bem que Jonathan e Martha Kent já tinham parado de usar umas coisinhas e viram que tinha um menino na nave que veio do céu. Salve a cultura racional da gringa!

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– Gravador não entra!

Segurança com cara de mau.

– Mas como irei decupar o discurso do presidente?

– Caderninho de anotações também não entra! Nem caneta. Só celular, mas não tem rede.

Clark pensou em ativar o olho vermelho de fogo naquele segurança,  mas lembrou que já havia um Kent Lane Júnior em casa pra alimentar, pagar escola, levar ao parque… Existe superpoder pra tudo, mas pra ganhar dinheiro, só trabalhando mesmo. Ainda na fila imaginou que merda iria fazer naquele lugar sem gravador e sem o parceiro fotógrafo. Tudo seria televisionado do jeito que o novo chefe gosta, só que pela sua emissora, a Fox, de forma careta e tediosa. Provavelmente fizeram curso com a nossa EBC (Empresa brasileira de Comunicação). Ainda na fila, um jovem segurando de forma desajeitada uma Pentax entrava sem parceiro. Clark precisava garantir um furo. A coisa não estava fácil nas redações. Basta olhar o que aconteceu com a Playboy.

– Quanto você quer para fazer uma foto pra mim?

– Eu te conheço.

– 100 dólares.

– Você é o Superman!

– E você o Pateta.

– É sério! Fiquei olhando mas agora tenho certeza, esse cabelo com esse olhar de galã de comercial da Avon… É o Superman!

– Isso é passado, mas pelo meus velhos instintos você também não é normal.

– Peter Parker, sou fotografo do News Luthor.

– Trabalhar para o cara que quer, ainda vai, mas comer minha mulher não pode ser normal.

– Eu preciso de 100 dólares, vou pedir minha namorada em casamento.

– Se tu soubesses o buraco que vai entrar, não cavaria.

–  Como é? Vai precisar de uma foto ou não?

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Era trato feito, afinal Clark não podia vacilar. Entraram e acomodaram-se. Cerimônia careta, Obama com um sorriso branco e feliz, família com cara de foto da revista Quem, todos sorrindo e batendo palmas,  mas no fundo com aquele sentimento de “vai dar merda”.
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Apos o discurso, Peter já havia feito a foto, foi aberto para algumas perguntas, todas sobre economia, Israel e Palestina, petróleo, geração de emprego, qualidade de vida, saúde, fronteiras, aquecimento global. Para Clark  não sobrou assunto nenhum de interesse relevante para o Planeta Diário. Em sua vez aproveitou e fugiu das perguntas tradicionais, resolveu captar uma resposta espontânea.

– Presidente Trump, como vai ficar sua vida pessoal? Sendo mais especifico… e quanto ao sexo?

– Vai ser foda. Não tenho nenhuma estagiária aqui.

–  Se fosse Hilary, iria chover. Garanto!

Clark foi expulso, mas tinha um furo. E um emprego.

Obrigado Peter

 

Vendedor de Histórias

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Rodoviária de Brasília, seis da tarde, uma corrente sanguínea entre os que precisam ir e os que chegam para irem mais longe de onde vieram. Um pontinho preto no meio do quadro do Romero Brito, este sou eu. Os passageiros disputam espaços entre os pombos que farejam migalhas e os ambulantes que mais parecem anunciantes de Herbalife há um passo para bater a meta do mês. As meninas seguram a saia e os cabelos para não pegar o cheiro da fritura dos pastéis. Os meninos com o vale na mão contam os minutos para chegarem em casa a tempo de verem o início da partida.
As senhoras com suas sacolas enormes pedem ao motorista para entrarem pelos fundos por conta da muamba. Os idosos ostentam sua identidade, intimidando aqueles que ainda pagam passagem.
Eu estou a caminho da fila do meu ônibus que mais parece o último trem saindo da Serra Pelada, sem pressa, vou caminhando observando as peculiaridades daquele lugar exótico e seus personagens.
– Ei brother! Como vai?
– Bem…
– E sua mãe?
– Tá bem.
– Sua mãe é uma mulher de ouro.
– É…
– Brother, saí do lava jato, depois fui tentar algo na padaria da esquina mas também não deu certo.
– Tá difícil pra todo mundo né?
– Oh! Aí resolvi tentar vender uns perfumes aqui.
– Que boa notícia.
– Olha só, leva esse Givenchi para tua mãe e pega esse Ferrari pra você, pelos velhos tempos, tua mãe me ajudou muito, devo muito a ela.
– Eu não tenho dinheiro.
– Quem tá falando em dinheiro? É pela amizade.
– Que seja, obrigado.
Me viro e vou indo em direção a minha fila.
– Oh irmão! Faz um favor pro seu brother aqui.
– O que?
– Me paga um lanche que eu tô cheio de fome.
– Cara mas eu só tenho…..
Neste momento o perfumeiro pegou rapidamente oito reais de minha carteira com um passe me deixando apenas com um.
– Tá tudo certo, com esses oito eu tomo um caldo com pastel e esse passe eu volto pra casa, aquele abraço na sua mãe.
Já na fila, minha namorada chega e pergunta:
– Você tem um vale sobrando?
– Não! Só perfumes.
Contei toda a história que havia acabado de vivenciar, uma história de superação, de força de vontade, de coragem. O cara tá na luta, não desistiu.
– Amor isso não perfume, é água com amaciante.
– Como eu ia saber.
– E você conhece ele de onde?
– Nunca vi mais magro.

Ser ou não ser? Nova classe média.

Thiago_maroca

– E agora?

– Num sei , nunca pensei nisso.

– Temos que melhorar as palavras, segundo o governo somos a nova classe média!

– já aviso logo que não vou comer banana de garfo e faca.

– Vai ser difícil viu! virar  o livro da pobreza na sua vida né Adalberto?

– Oh Cida! Isso não passa de notícia besta pra gente não perceber a roubalheira que acontece todo dia neste país.

– Seja como for, nós podíamos ao menos tentar melhorar alguns costumes nessa casa né?

– Como o quê?

– Como o hábito nefasto que você tem de arremessar a toalha molhada sobre a cama.

– Isso é pra cama ficar geladinha na hora de deitar, quem aguenta esse calor?

– E quando você chega e saí atirando as roupas pela casa inteira, tá achando que aqui é a casa da sua mãe?

– Infelizmente preciso admitir que isso não é um mal costume, é um rito espiritual com intuito de espantar ancestrais malignos que moravam nesta casa, na casa de mamãe era o espiríto de minha vó Bernadete.

Cida não continha a frustração, achou que a notícia ao menos estimularia Adalberto a vestir-se melhor, fazer a barba com mais regularidade e por fim conseguir um emprego decente. Adalberto que não era trouxa, percebeu pela cara da mulher que algo não ia bem, sabia o fim da história, se adiantou:

– Por que não saímos para jantar, assim praticamos os hábitos da nova classe média.

– Claro, vou me arrumar.

Adalberto sabia a dureza que era dormir na sala, ligou para a mãe e garantiu a grana para a noitada, dessa vez iriam fazer diferente, coisa fina, coisa de nova classe média. Decidiram ir ao restaurante mais caro da redondeza.

Entraram, sentaram-se em frente a um quadro com uns cavalos azuis, o garçom colocou o cardápio na mesa, serviu água e perguntou qual entrada.

– Tá de sacanagem? Traz aquela gelada, canela de pedreiro e deixa para abrir na mesa…

– Adalberto…

– Desculpa, um vinho tinto cabernet sauvignon e uma entrada de frios, pasta  e pães a moda do chefe.

– Perfeitamente.

O cardápio era indecifrável, pediram o que mais parecia com frango. No fim era rã, que não era tão ruim assim. De sobremesa banana em calda de mousse de chocolate mas a conta, Cida se adiantou.

– Escuta, que valor é esse?

– Couvert senhora.

– Mas ninguém cantou.

– Pelo silêncio

– E este valor embaixo?

– Serviço do maitre!

– Não pedimos isso.

– Foi o vinho.

– Tá, mas por que deu tudo isso?

– Adicional de serviço da casa.

Adalberto pagou tudo calado, sabia que não valia a pena discutir com uma mulher indignada, dirigiu calado, até que Cida se manifestou.

– Classe média é o caralho. Toca pro bar do Juca que dá tempo de pedir um espetinho.

E tomar uma gelada, pensou Adalberto