Vingança (A Bicha Má)

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Samuel já havia conquistado o pouco da vida que lhe bastava, casa própria (financiada), carro (parcelado e em atraso), um bom emprego e família. Mesmo levando uma vida modesta e sem muitos luxos se permitia agradecer ao pouco que Deus lhe deu, um filho educado (Com satanás no corpo) uma filha feliz (Estilo quem toma Diazepan com Whisky) e uma esposa fiel (mas que acabava com a dispensa antes de 15 dias).

Se fosse jogar no bicho, seria a esperança, mas nunca jogou até porque esperança é nome de sogra ruim e o bicho não contempla essa delicadeza dos gramados. A boa sorte adentrava naquele lar e os problemas como racionamento de água e a crise politica institucional não eram assuntos tratados na mesa do café, o segredo de todo Bon Vivant é ceder às pequenas vontades dos entes familiares: um almoço na rua, um sorvete depois da escola e  porque não um cinema na terça a tarde? Tantos perguntavam a sabedoria para uma família daquela e ele dizia: “- É só deixar a vida me levar” mesmo não sabendo nada sobre Zeca pagodinho.

Naquela manhã antes de sair para o trabalho, o telefone fixo tocou com o sentimento de ser mais uma mensagem gravada com a voz da Xuxa pedindo doação para Igreja Universal, afinal, ser funcionária de bispo tem que cumprir meta dentro e fora da telinha. Que saudade do Dr Roberto Marinho! Todos pensavam assim, mesmo que ele torcesse pelo América, era um bom homem. Mas o bispo não era.

– Muca?

Hoje não seria um dia bom, a voz não era reconhecível mas aquele apelido tinha uma origem, a ex namoradinha da adolescência de Samuel.

– Bom dia, quem é?

Ele já sabia, estava tentando ganhar tempo, nesse momento a família já analisava minuciosamente o embargo na voz do patriarca, o café fervia e o aroma inundava a sala.

– Mulher, o café está fervendo!

Todo mundo já sabia que iria dar merda, chamou a esposa de “mulher”, tinha coisa errada.

– Muca, tô querendo mudar, vi no seu condomínio uma casa vazia, queria umas indicações, você tá gostando de morar aí com a sua família?

– Para de me ligar!

Desligou, respirou fundo, olhou para a mesa, um típico quadro de “O jantar” de Claude Monet, onde todos olham para o prato e fingem não terem ouvido o grito histérico do papai.

– Era engano!

(Claro que era, todo mundo notou Muca)

Terminaram o café em silêncio, o que não era comum. As crianças rumaram para o regime semi aberto infantil e a amada esposa foi ao mercado comprar mais pães para saciar sua lombriga. Enquanto dirigia ao trabalho, Samuel pensou como aquela mulher havia conseguido seu número, sabia de sua família e o pior: seu endereço.

Lembrou da vez que conheceu aquele anjo decaído em forma de cabelos loiros e um sorriso encantador. Foi na adolescência, com muitas expectativas e pouca grana a vida se resumia a um copo de refrigerante com Domus e um fandangos. No sol quente daquele setembro de 2003 muita coisa aconteceu, a internet começava a dar seus passos para o futuro, um pouco de Nirvana no discman e uma sombra na praça bastava para matar o tédio da vida vazia daquele casal, até o dia que ela resolveu matar alguém: o Samuel.

Numa crise de ciúme inesperada, estimulada pela bebida alcoólica, a doce companhia viu os olhos de Samuel seguir as nádegas de uma senhora que saia do posto de saúde mancando devido a uma injeção. De fato Samuel a olhava mas com pena, a parada de ônibus estava longe e aquela senhora gordinha lembrara sua mãe, que devia ter preparado macarrão com queijo naquela quarta feira, oque o fez salivar imaginando a iguaria. Tarde demais.

Diabo loiro (anjo nem na foto) teve um súbito de ira e agarrou-se a um galho seco e começou a tangir o bem amado como se houvesse consumado tal ato, isso sim é que é curar ressaca. Samuel ainda tonto pelo álcool e desnorteado pelas galhadas corria em direção oposta a do anjo, chegando em casa, comeu macarrão com queijo e dormiu. O telefone tocou a tarde inteira, 34 vezes precisamente, na última ligação atendeu o que seria um dejavu nos dias atuais:

– PARA DE ME LIGAR!

O tempo passou, a necessidade de álcool e novas rotas para o desencontro foram necessárias nestes últimos quinze anos. Mesmo sem ter notícia, mantinha viva na mente a imagem de que aquela surra deveria ter continuado, podia sentir a raiva de sua ex por onde pisasse e a sensação de que aquela ira era alimentada por ela.

Em uma quarta feira atual, Já anoite, chegando em casa e entorpecido pela idéia de reencontrar o motivo de seu medo na porta de sua casa, sentiu um mal súbito ao olhar para a casa numero 41, não era o diabo loiro, era algo muito pior. A luz apagada da varanda e as janelas fechadas evidenciavam o temor de Samuel, andou lentamente até a porta, bateu duas vezes na porta, não economizou nos pulmões:

– Ei! Alguém abre a porta! Mulher? Meninos?

Não podia sequer pestanejar, o cheiro do gás butano invadia suas narinas preenchendo sua memória com imagens cruéis, como podia ter deixado a família sozinha naquele dia em que o diabo descobriu seu endereço e ligou? Agora era tarde, todos estavam mortos mas, por um instante teve súbito de consciência e ligou para seu pai apenas para averiguar seus pensamentos obscuros.

– Alo?

– Pai?

– Oi Filho.

– Os meninos estão aí?

– Não, aconteceu alguma coisa?

– Ela matou eles!

Abandonou o celular na grama, esmurrou a porta, ainda daria tempo de salva-los. Com uma força sobrenatural arrombou a porta de compensado, gritou pela família, olhou dentro do forno, embaixo da cama, por último foi ao telhado. Nada feito. Não matou ainda, foi sequestro. Imaginou todas as economias e as negociações para resgatar as únicas coisas que tinham valor na vida. Retornou ao celular na grama, seu pai ainda estava na linha.

– Pai, eles não estão aqui.

– Já olhou na vizinha?

– Não.

Desligou o telefone, era quarta feira, dia de juntar a gurizada na casa 45, um verdadeiro clube do terror a base de Danoninho. E lá estavam todos vivos e felizes aguardando Samuel para de repente tomarem um sorvete a noite. Ao chegar em casa a esposa notou a porta encostada.

– Nossa! O que aconteceu aqui?

– Essa porta é muito ruim, só encostei e ela caiu.

Sem muitas explicações, uma boa família não se preocupa em justificar todos os problemas, basta viver e supera los, até surgirem outros. Como o skate que a menina estava querendo ganhar de natal. No fim daquela noite, o telefone tocou novamente. Samuel apressado correu em direção mas a esposa já havia atendido.

– Alo! Hummm, tá, tchau!

Samuel a olhava transtornado

– Era engano…. Muca.

Naquela noite, Samuel não dormiu, não tinha certeza de mais nada, ficou com medo de sua esposa ser igual ao diabo loiro, dessa vez a surra iria até o fim.

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Alienígenas invadem a capital

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Luzes. Um clarão que não permitia enxergar nada, o som era das vozes que se aproximavam e iam somando naquele ensaio de praça publica com deposito de quinquilharia.

Coisa estranha de ver, parecia um início de romaria sem presépio. Era cada coisa que ouvia e ainda não sabia do que estavam falando.

– Valei-me nossa senhora!

– Chegou a hora!

– É de lascar o cano.

Pouco ou quase nada podia-se definir daquele clarão na capital do cerrado, as fortes luzes não deixavam nem os pensamentos se organizarem. Mas a bagunça sim, esta já estava organizada, o branco se misturava com o vermelho e azul dos rotolights, que juntamente com a guarda municipal tentavam fazer ao menos uma fila.

– Pra que fila?

– Pra organizar.

Respondeu o soldado pensando em uma resposta melhor

– Hoje começa o fim do mundo.

Syrleide (Nome inglês, mistura de Sir com Lady) que chegara no último circular, queria saber o porque daquele furdunço em sua porta aquela hora da noite. Em pouco tempo já foi enquadrada na fila das sem rumo, as outras filas eram: Curiosos, Bêbados e devotos de Santo Expedito.

Ninguém sabia mais o que fazer, nem a polícia, nem o povo, muito menos Syrleide que só queria ver o final da novela.

Quando o clarão acabou, a energia da cidade se foi, no escuro as teorias eram outras, coisa de máfia, tem ET no meio ou seria alguém soldando algum portão velho, mas em poucos segundos tudo se clareou ao menos nas ideias. No fim da rua descia uma mistura de brinquedo assassino com fantasma do filme Ghost.

Era o palhaço Pirulito esfumaçando, depois de uma gato de luz mal-sucedido. Ao encarar a multidão e seus cartazes, não exitou:

– O circo chegou minha gente!

Corre Pirulito.

Trump, Superman e Homem Aranha

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Durante o credenciamento, tumulto, gente mexendo no celular, mulheres histéricas, chihuahuas latindo e muito terno pra pouco defunto. Clark havia se  perdido de Jimmy, com tantos protestos nas ruas nós sabemos onde um fotojornalista gosta de trabalhar. A posse do novo presidente do Estados Unidos estava muito competida, concorrida. Políticos apagados na gestão Obama, militares e muitas socialites.  socialights . As Os Kardashians não conseguiam conter a emoção e a inveja. Clark estava desatualizado  sobre os bastidores da política americana. A última briga com Lex Luthor ocupava sua mente em momentos de folga. Mas, imagine você saber que seu inimigo está mandando snaps para Lois, que por sinal é sua esposa. Por uma simples cabeçada, Lois  tinha feito Clark dormir na sala por uma semana, coisas que um homem casado às vezes precisa sentir na pele. Segundo Lois, não eram nada demais. Algumas mensagens românticas e um pouco de seminu (careca conta). Brincadeiras que nunca foram de se esperar do último conservador vindo de Kripton, que tinha tudo para ser um planeta foda, mas que sem moeda, resolvia tudo era na força e no raio laser. Deu no que deu. Ainda bem que Jonathan e Martha Kent já tinham parado de usar umas coisinhas e viram que tinha um menino na nave que veio do céu. Salve a cultura racional da gringa!

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– Gravador não entra!

Segurança com cara de mau.

– Mas como irei decupar o discurso do presidente?

– Caderninho de anotações também não entra! Nem caneta. Só celular, mas não tem rede.

Clark pensou em ativar o olho vermelho de fogo naquele segurança,  mas lembrou que já havia um Kent Lane Júnior em casa pra alimentar, pagar escola, levar ao parque… Existe superpoder pra tudo, mas pra ganhar dinheiro, só trabalhando mesmo. Ainda na fila imaginou que merda iria fazer naquele lugar sem gravador e sem o parceiro fotógrafo. Tudo seria televisionado do jeito que o novo chefe gosta, só que pela sua emissora, a Fox, de forma careta e tediosa. Provavelmente fizeram curso com a nossa EBC (Empresa brasileira de Comunicação). Ainda na fila, um jovem segurando de forma desajeitada uma Pentax entrava sem parceiro. Clark precisava garantir um furo. A coisa não estava fácil nas redações. Basta olhar o que aconteceu com a Playboy.

– Quanto você quer para fazer uma foto pra mim?

– Eu te conheço.

– 100 dólares.

– Você é o Superman!

– E você o Pateta.

– É sério! Fiquei olhando mas agora tenho certeza, esse cabelo com esse olhar de galã de comercial da Avon… É o Superman!

– Isso é passado, mas pelo meus velhos instintos você também não é normal.

– Peter Parker, sou fotografo do News Luthor.

– Trabalhar para o cara que quer, ainda vai, mas comer minha mulher não pode ser normal.

– Eu preciso de 100 dólares, vou pedir minha namorada em casamento.

– Se tu soubesses o buraco que vai entrar, não cavaria.

–  Como é? Vai precisar de uma foto ou não?

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Era trato feito, afinal Clark não podia vacilar. Entraram e acomodaram-se. Cerimônia careta, Obama com um sorriso branco e feliz, família com cara de foto da revista Quem, todos sorrindo e batendo palmas,  mas no fundo com aquele sentimento de “vai dar merda”.
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Apos o discurso, Peter já havia feito a foto, foi aberto para algumas perguntas, todas sobre economia, Israel e Palestina, petróleo, geração de emprego, qualidade de vida, saúde, fronteiras, aquecimento global. Para Clark  não sobrou assunto nenhum de interesse relevante para o Planeta Diário. Em sua vez aproveitou e fugiu das perguntas tradicionais, resolveu captar uma resposta espontânea.

– Presidente Trump, como vai ficar sua vida pessoal? Sendo mais especifico… e quanto ao sexo?

– Vai ser foda. Não tenho nenhuma estagiária aqui.

–  Se fosse Hilary, iria chover. Garanto!

Clark foi expulso, mas tinha um furo. E um emprego.

Obrigado Peter

 

Vendedor de Histórias

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Rodoviária de Brasília, seis da tarde, uma corrente sanguínea entre os que precisam ir e os que chegam para irem mais longe de onde vieram. Um pontinho preto no meio do quadro do Romero Brito, este sou eu. Os passageiros disputam espaços entre os pombos que farejam migalhas e os ambulantes que mais parecem anunciantes de Herbalife há um passo para bater a meta do mês. As meninas seguram a saia e os cabelos para não pegar o cheiro da fritura dos pastéis. Os meninos com o vale na mão contam os minutos para chegarem em casa a tempo de verem o início da partida.
As senhoras com suas sacolas enormes pedem ao motorista para entrarem pelos fundos por conta da muamba. Os idosos ostentam sua identidade, intimidando aqueles que ainda pagam passagem.
Eu estou a caminho da fila do meu ônibus que mais parece o último trem saindo da Serra Pelada, sem pressa, vou caminhando observando as peculiaridades daquele lugar exótico e seus personagens.
– Ei brother! Como vai?
– Bem…
– E sua mãe?
– Tá bem.
– Sua mãe é uma mulher de ouro.
– É…
– Brother, saí do lava jato, depois fui tentar algo na padaria da esquina mas também não deu certo.
– Tá difícil pra todo mundo né?
– Oh! Aí resolvi tentar vender uns perfumes aqui.
– Que boa notícia.
– Olha só, leva esse Givenchi para tua mãe e pega esse Ferrari pra você, pelos velhos tempos, tua mãe me ajudou muito, devo muito a ela.
– Eu não tenho dinheiro.
– Quem tá falando em dinheiro? É pela amizade.
– Que seja, obrigado.
Me viro e vou indo em direção a minha fila.
– Oh irmão! Faz um favor pro seu brother aqui.
– O que?
– Me paga um lanche que eu tô cheio de fome.
– Cara mas eu só tenho…..
Neste momento o perfumeiro pegou rapidamente oito reais de minha carteira com um passe me deixando apenas com um.
– Tá tudo certo, com esses oito eu tomo um caldo com pastel e esse passe eu volto pra casa, aquele abraço na sua mãe.
Já na fila, minha namorada chega e pergunta:
– Você tem um vale sobrando?
– Não! Só perfumes.
Contei toda a história que havia acabado de vivenciar, uma história de superação, de força de vontade, de coragem. O cara tá na luta, não desistiu.
– Amor isso não perfume, é água com amaciante.
– Como eu ia saber.
– E você conhece ele de onde?
– Nunca vi mais magro.

Ser ou não ser? Nova classe média.

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– E agora?

– Num sei , nunca pensei nisso.

– Temos que melhorar as palavras, segundo o governo somos a nova classe média!

– já aviso logo que não vou comer banana de garfo e faca.

– Vai ser difícil viu! virar  o livro da pobreza na sua vida né Adalberto?

– Oh Cida! Isso não passa de notícia besta pra gente não perceber a roubalheira que acontece todo dia neste país.

– Seja como for, nós podíamos ao menos tentar melhorar alguns costumes nessa casa né?

– Como o quê?

– Como o hábito nefasto que você tem de arremessar a toalha molhada sobre a cama.

– Isso é pra cama ficar geladinha na hora de deitar, quem aguenta esse calor?

– E quando você chega e saí atirando as roupas pela casa inteira, tá achando que aqui é a casa da sua mãe?

– Infelizmente preciso admitir que isso não é um mal costume, é um rito espiritual com intuito de espantar ancestrais malignos que moravam nesta casa, na casa de mamãe era o espiríto de minha vó Bernadete.

Cida não continha a frustração, achou que a notícia ao menos estimularia Adalberto a vestir-se melhor, fazer a barba com mais regularidade e por fim conseguir um emprego decente. Adalberto que não era trouxa, percebeu pela cara da mulher que algo não ia bem, sabia o fim da história, se adiantou:

– Por que não saímos para jantar, assim praticamos os hábitos da nova classe média.

– Claro, vou me arrumar.

Adalberto sabia a dureza que era dormir na sala, ligou para a mãe e garantiu a grana para a noitada, dessa vez iriam fazer diferente, coisa fina, coisa de nova classe média. Decidiram ir ao restaurante mais caro da redondeza.

Entraram, sentaram-se em frente a um quadro com uns cavalos azuis, o garçom colocou o cardápio na mesa, serviu água e perguntou qual entrada.

– Tá de sacanagem? Traz aquela gelada, canela de pedreiro e deixa para abrir na mesa…

– Adalberto…

– Desculpa, um vinho tinto cabernet sauvignon e uma entrada de frios, pasta  e pães a moda do chefe.

– Perfeitamente.

O cardápio era indecifrável, pediram o que mais parecia com frango. No fim era rã, que não era tão ruim assim. De sobremesa banana em calda de mousse de chocolate mas a conta, Cida se adiantou.

– Escuta, que valor é esse?

– Couvert senhora.

– Mas ninguém cantou.

– Pelo silêncio

– E este valor embaixo?

– Serviço do maitre!

– Não pedimos isso.

– Foi o vinho.

– Tá, mas por que deu tudo isso?

– Adicional de serviço da casa.

Adalberto pagou tudo calado, sabia que não valia a pena discutir com uma mulher indignada, dirigiu calado, até que Cida se manifestou.

– Classe média é o caralho. Toca pro bar do Juca que dá tempo de pedir um espetinho.

E tomar uma gelada, pensou Adalberto

Vingativa

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Imagine duas bahianas conversando.

– E o que ele disse à você?

– Disse que você não significa nada na vida dele.

– E o que mais?

– Como e o quê mais?

– Como o quê rapaz?

– Oxi, eu que lhe perguntei sua porra.

– Apoi agora tá tirando onda.

– Não se arreta e nem pica a mula.

– Sim, mas o que foi  mesmo que você ouviu?

– Eu vi! Os dois todo chique entrando na pizzaria.

– E depois?

– Depois… não sei…

– Tem que saber, tu num entrou?

– Entrei, mas tive que passar ligeira no banheiro, tava apertada.

– E quando saiu?

– Já não estavam lá.

 

Pronto, foi o suficiente para Rosi, jovem, negra e linda se sentir traída por Lindomar, seu noivo. Bastou um simples comentário dizendo que o mesmo foi visto na noite passada com outra para o circo estar armado. Depois da fofoca, o segundo item essencial na vida de qualquer pessoa deve ser a vingança. Nós somos feitos no amor e lapidados no ódio, amamos o que não temos e odiamos quem tem.
Vingança só existe por que libera dopamina, assim como o sexo.Vingança boa é planejada, sexo bom não tem cerimônia, chega sarrando, vem passando o braço no beco, subindo a respiração, encoxando… Pois é. Mas tudo é passado, depois dessa, Rosi só pensava em vingança.
Nenhuma estratégia é feita na emoção, era preciso cautela porque quem pega galinha não diz xô. Iria esperar ver os dois entrarem no motel, quando a coisa estivesse rolando, iria surpreender os apaixonados jogando pimenta nos olhos do canalha e da piranha.

O telefone tocou
– Alô!
– Rosi, minha flor de dendê, vou me atrasar para o nosso jantar.
– E tu vai tá fazendo o que mesmo?
– Oh minha rainha, vou fechar a contabilidade da pizzaria do Tonico.
– Tá bom…

Desligou.
Era a hora de colocar o plano em prática, mesmo planejando, vingança boa se come quente.
Chegou na surdina, ficou imperceptível, pediu uma coca cola, avistando de longe o noivo a conversar com uma loira. O sangue nordestino subiu, pegou a garrafa de coca, quebrou na quina da mesa, antes de levantar já vociferava as ameaças que pertencem ao vocabulário bahiano, o dedo indicador fazendo apologia ao crime dizia que Rosi não estava para brincadeira. Mesmo antes de chegar próximo da mesa, a presença de Rosi foi notada através de uma cadeira que voou toda a pizzaria seguido por um grito de raiva.

– PIRANHAAAAAA!
Não houve tempo para a esquiva, a loira levou uma cadeirada e desmaiou. Lindomar mais perdido que analfabeto em banca de revista, não sabia se acudia a desfalecida ou a noiva em fúria que se arremessava com a garrafa de coca cola quebrada em sua reta.

– Agora eu vou matar vocêeeeee.

PLOFT!
Silêncio geral na pizzaria.

Duas mulheres acudiam Rosi estalecada no chão, rodeada de cacos de vidros e um cheiro forte de cachaça Pitu. Rosi atordoada e bêbada olhava em volta e nada lhe parecia familiar.

– Mulher aprenda a beber pelo menos.
– Fazendo um vexame desse…
– Cadê o Lindomar?
Eis que surgia o noivo repetindo em voz alta meu amor, meu amor, meu amor… levando sua amada pelo colo até a mesa pedindo uma água e se prontificando a pagar pelos excessos causados por sua rainha.
– Acho melhor você ir para casa, as meninas vão lhe acompanhar enquanto eu acerto com o Tonico os danos e o custo da noite.
Sem entender e ainda zonza, foi caminhando. Ao lembrar que havia esquecido sua bolsa encontra Lindomar trazendo do banheiro a loira desmaiada nos braços.

– Seu filho da putaaaaaaaa, eu vou matar os dois.
Pense numa noite animada, só acabou quando chegou a ambulância para Lindomar e a polícia para Rosi.

E eu juro que comecei escrevendo uma crônica de amor.

Como é que chama aquele menino?

Thiago Maroca

– Jesus!

– O filho da Maria?

– É.

– Irmão do Tiago?

– Eh mulher!

Ninguém acreditou, como podia, logo o filho do José, o carpinteiro, homem calado, de pouca conversa na vila, ter um filho danado como aquele e ainda por cima, inventador de histórias.

– Mulher, tu imagina que ele agora anda conversando com os animais, e o que é pior é que os bicho fica tudo calado, foi- se a época da Galiléia de meus avós.

– Minha irmã! ontem mesmo ele tava no rio com os meninos , mergulhou e ficou lá no fundo por quase dez minutos, quando Maria chegou aperreada, deu um puxão e perguntou o que ele tava fazendo , Jesus respondeu que tava contemplando o universo, vê se pode.

Um menino de apenas sete anos com uma criatividade incrível. Maria conversava com José, enquanto servia o café da tarde.

– Aí José, tô preocupada com Jesus, vive fazendo umas esquisitices na vila, tenho medo do futuro desse menino.

– Calma Maria, esse menino tem jeito, acho que ele vai ser artista. Num sei… mas esse menino vai fazer história.

E fez. Parabéns Jesus! Que a mensagem a ser repassada seja sempre o amor.

Arrasou no natal, o mundo para pra agradecer a você.

Futebol de cegos

TM 2014-10

-Alo  você que esta nos ouvindo na Se toca FM, estamos aqui eu, seu locutor favorito, Jacinto Forte e meu amigo Cuca Buloso. Eeeeeee hoje é a final do primeiro torneio de futebol de cegos da nossa querida cidade. Queria agradecer ao nosso prefeito Botelho Nabo que prestigia essa festa com sua linda esposa Agata dos Prazeres.

– É isso aí querido ouvinte. Vamos dar início a nossa partida, lembrando que o único que enxerga é o goleiro. E hoje o campinho está lotado para a grande final dos times Cegamente com:  Dorival, Reinaldinho, Farinha, Novalgina, e no gol ele Cocacola. No outro time, Só se for com os Zoio Com: Marreco, Tome uma, Zézé,Um palmo, e no gol Sabichão.

A partida começa, arquibancada atenta, só se ouvi o sino da bola e um cego chamando o outro. Mas não adianta esperar educação em um lugar onde nunca houve bons costumes e decência. Em menos de cinco minutos de jogo, uma gritaria da porra, uma falta de respeito só. O tonho levou cerveja no isopor e vendeu tudo, a Maria aproveitou pra vender suas petas pra quem estava com fome.

No segundo tempo, a torcida estava embriagada e a cara cheia de farelos, já não se ouvia o sino da bola, os jogadores zanzavam no campo, até que sabichão teve a idéia de gritar.

Tome uma, Marreco encima do Novalgina.

De repente uma sacola vazia de peta voa pra dentro do campinho. O prefeito levanta e grita:

– Pega a sacola!

Com a gritaria os cegos entenderam Cocacola.

– O prefeito tá torcendo para o Cegamente, filho da puta.

– Também, todo mundo passou a mão na na mulher dele, ele é mais cego do que nós.

Gargalhada geral, o prefeito entrou no campo pra tomar a bola e acabar com aquela difamação mas, quando abaixou. levou um chute no olho e cego ficou naquele momento, enquanto gritavam sacola, os cegos entendiam Cocacola . Correram em direção ao campo e sentaram a porrada no goleiro, e uns nos outros, briga generalizada, até a torcida foi em defesa do time e dos amigos cegos. Uma criança mequetrefe enquanto comia o último saco de petas, pegou ar, encheu e….

POOOOOOOOOUUUUUUUUU!

– É tiro!

O povo correu desesperado, os cegos seguiram o sons do passos e foram embora também, no meio do campo com a roupa toda rasgada apenas o prefeito ainda procurava seu rumo.

Na cidade, contam até hoje sobre o jogo de futebol que os cegos enxergaram e o prefeito ficou cego, coisa de Satanás.

Livro de estacionar para colorir

Sexta feira. uma há menos para o ano acabar, e começar outro igual ao anterior. Quente, tedioso e cheio de dívidas.

– Tomar uma véi?

Pois é, foi um convite, o pessoal que lavam os carros nos arredores fizeram uma festa surpresa para única mulher no meio daquela macharada que passam o dia a oferecer proteção e limpeza por alguns trocados. Simone tem cinco filhos, cuida de uma área que circula uma média de 50 carros por dia, arrecada pouco mais de uma salário no mês, acorda cedo, chega tarde. Merecia uma festa, com churrasco e heineken, tudo pago pela irmandade da flanela.

– Hoje não, preciso ir direto pra casa.

O telefone tocou seis vezes durante o trajeto, tentei chegar em  -20 minutos mas não rolou, nem subi, pedi pra ela descer, fomos direto ao shopping, já eram 21h e sexta.

O espírito da pãodurice prevaleceu na hora de procurar uma vaga, ansiedade com o horário e com a mulher que não parava de culpar o atraso que era  parte da vida urbana, avistei um carro saindo e peguei a vaga no mísero estacionamento gratuito da porra de um shopping de quase 30 mil km².

– Você não tem consciência né? Disse a mulher que esperava a vaga

Desci, fingi que não  ouvi, entrei correndo no shopping, corri porta adentro da livraria, procurei pelo danado livro anti estresse de colorir. Dá -lhe Augusto Cury para controlar tanta ansiedade e estresse.  Mas o dia perdeu o sentido, mesmo comprando a merda do livro de colorir, a frase da mulher no carro não havia saído da minha cabeça.

Paguei o livro, voltei correndo ao estacionamento, pensei onde ela estaria, se havia arranhado meu carro, procurando vaga ainda, chorando, bebendo seu ódio por mim. Não a encontrei há tempo de pedir desculpas nem de discutir os valores sociais e morais da vaga pública. Merda!

Devia ter ficado no estacionamento que estava em festa, parabéns Simone.

 

Desgraça em família

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Lá vinha Joaquim chegando para menos um dia a contar para aposentadoria, já que  a estabilidade do serviço público não substituía a frustração de não ter feito aquilo que lhe deu vontade: ter sido chefe de cozinha. Mas  não podia reclamar, viajou, casou, comprou uma boa casa, fez empréstimo, pagou escola em atraso, pegou outro empréstimo, a sogra morou junto com ele por um ano e depois disso voltou a acreditar em Deus, mesmo que ele (Deus) não tenha ouvido seu pedido de leva-la logo para o purgatório, convenceu a cobra de morar com a outra filha que por sinal era mais nova, mais gostosa e mais divertida. Insuportavelmente feliz.

De tanto amaldiçoar a sogra cresceu a preocupação de que sua amada mãezinha,  dona Neuza, pudesse estar sendo hostilizada por um ebó vindo de sua cunhada, Débora , mulher do Toninho, seu único irmão, mais novo e pilantra de marca maior.

Toninho ao 30 anos possuía um currículo invejável, agremiou vários troféus, pegou mulher bandida, advogada, policial, carcereira, por fim, arriscou promotora pública mas não rolou. Tinha um relacionamento sério de idas e vindas com Débora, uma biscate que o amava mas o usurpava sempre que podia.  A única admiração de Toninho era Joaquim, seu irmão. Um de pai de família exemplar, funcionário serio, com exceção da mulher megera que arrumou, lhe deu dois filhos mas não conseguiu se livrar do mau hálito, Toninho demonstrava o desprezo pela cunhada sempre lhe oferecendo Halls.

– Essa bala tem um hálito refrescante

– …..

Com silêncio, a cunhada o desprezava, só aturava e recebia sua visita por respeito ao marido e a mãe que estava doente.

Naquele dia  Joaquim chegou no serviço com a cara de poucos amigos, a mulher deu-lhe uma bronca sobre o atraso do colégio, com bafo e tudo. Ligou o computador, olhou as noticias e a críticas sobre o Palmeiras. foi fumar por uma hora no estacionamento da empresa. Ao regressar:

– Caralho Joaquim, na próxima leva essa merda de celular contigo! Disse o Bezerra, seu parceiro de mesa.

– Seu irmão ligou umas vinte vezes.

Mamãe. Só podia ser. Ligou desesperado para o irmão, sem respirar, Toninho atendeu aos prantos.

– Uma desgraça, Joaquim, na nossa família.

– Porra Toninho, eu tentei fazer de tudo mas a mamãe já estava doente.

Silêncio mortal

– Não foi a mãe.

– quem foi?

– A Débora.

-Graças a deus!

-Devia  ter sido a tua, aquela boca podre.

-Devia mesmo.

Pensou alto.