
A primeira vez que ouvi essa frase, eu devia ter uns catorze anos. Pedi aos meus pais para ir à festa junina da igreja com uns amigos da rua, e levei aquele não que todo adolescente conhece bem:
“Mas você não é todo mundo.”
Os meninos da rua haviam passado a tarde inteira vendendo o paraíso — trio de forró, comida boa, e, para nós, jovens, “todas as meninas da igreja estarão lá”. Na minha cabeça de quem mentia na escola dizendo já ter beijado alguém, mas que, na verdade ainda carregava o BV como um segredo de estado, aquela noite podia ser o fim de uma era. (Houve, é verdade, um episódio aos cinco anos, com a Karina, atrás do bloco — inesperado, inocente e, francamente, traumático o suficiente para eu não querer contar essa parte.)
O tempo passou. Não fui àquela festa, mas fui a muitas outras, e numa delas beijei uma colega da crisma. Anos depois, soube que ela virou freira. Espero sinceramente não ter tido participação nessa decisão — nem eu, nem a minha boca.
Mas a frase ficou. Você não é todo mundo.E é curioso como ela volta, anos depois, com outro sentido, quando o assunto é política.
Porque durante o período eleitoral, acontece a mesma coisa: nem tudo é para você, nem tudo é sobre você. Este país de dimensão continental escancara, na propaganda política, as nossas diferenças regionais. Tem lugar onde a política pública chega e muda a vida das pessoas; tem região onde nunca se ouviu falar de determinada ação. Tem gente que não consegue se aposentar porque não tem condições de chegar à cidade mais próxima e ser atendida — sem saber que, em muitos casos, bastaria solicitar pelo aplicativo.
E os aplicativos, convenhamos, são a revolução da nossa geração. Você pede carona, pede comida, compra bugiganga. Mas ainda não inventaram um aplicativo que coloque você em contato direto com o político, para avaliar sua atuação no desenvolvimento do país. Não adianta vir a Brasília tentar falar pessoalmente: eles trabalham três dias, faltam com regularidade suspeita, e ainda assim acham que quem cumpre quarenta e quatro horas semanais tem condições para negociar férias e escala com o patrão. Às vezes a classe média brasileira vive uma ingenuidade que me intriga. Outras vezes, penso que não é ingenuidade — é má-caratice mesmo, porque encarar a lei em vigor significaria ter que lidar com seus próprios empregados como manda o figurino.
Se a política é o tema do momento, a nossa Copa do Mundo, então use o que você sabe e discuta as mudanças ao seu redor, no seu bairro. Antes de falar de um candidato a presidente ou outro, você já perguntou ao vereador por que pagamos a taxa do lixo e ainda temos lixões imensos? Já conseguiu questionar o prefeito quando haverá remédio básico na farmácia municipal?
Eleição é uma parte do jogo. Criticar e cobrar os agentes públicos é o segundo tempo.
E talvez seja aí que a frase da minha mãe ganhe seu sentido mais honesto: você não é todo mundo. Mas, na política, todo mundo é você.
Fui. Bom feriadão!
Thiago Maroca não é todo mas acredita que todo mundo deva fazer seu papel.
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