Eleição passa, política fica


Tem gente que só lembra que existe política de dois em dois anos, quando aparece santinho na calçada e vizinho querendo puxar assunto no elevador. Passou a apuração, o assunto some, como se a política fosse uma festa de aniversário que acaba quando cortam o bolo. Só que quem acompanha o eleito depois da eleição escolhe melhor quem vai sucedê-lo. Pega o caso da presidência. A maioria de nós acredita que o cargo vem com poderes ilimitados e olhos em todos os cantos do país. Na cabeça de muita gente, o presidente é responsável pelo gol impedido na final do campeonato escolar da cidade e pelo ônibus sentido rodoviária que atrasou cinco minutos. Não é bem assim.
O chefe do Executivo monta um time de ministros, que montam seus próprios times, quase sempre pela afinidade político-partidária. Em algumas situações alguém ainda dá uma olhada no currículo para ver se a pessoa tem a ver com a função. Não é perfeito, mas melhorou. Sabe por quê? Porque o povo começou a exigir profissionais melhores nas pastas, principalmente em segurança, educação e saúde. Quando a gente cobra, eles se mexem. E cobrar começa antes do voto. Hoje ninguém precisa comprar gato por lebre. Dá para pesquisar a vida do candidato no Jusbrasil e no DivulgaCand, do TSE. No primeiro, você vê os processos em que ele aparece. No segundo, o patrimônio declarado e o histórico de candidaturas. Coloque lado a lado o que ele promete e o que ele já fez. Uma proposta bonita de quem nunca pisou numa escola pública merece, no mínimo, uma sobrancelha levantada. Vale comparar também o patrimônio com o histórico e a moral com os processos.
Mas cuidado com o critério. Orientação sexual, religião e falta de direitos não medem caráter nem competência de ninguém. Quem ocupa um cargo público precisa entender a complexidade do país, saber dos seus desafios e se comprometer com a vida de todos, sem deixar ninguém de fora por causa das escolhas individuais.
Agora, um recado para o espelho. Não existe país honesto com população corrupta, nem o contrário. A gente cobra do político a educação que nem sempre pratica: fura fila, estaciona na vaga do idoso, dá um jeitinho, e depois xinga o deputado que fez a mesma coisa em escala maior. Política é para sempre, e ela começa em casa, nas decisões da família, na reunião do condomínio, na escola dos filhos, no jeito como a gente trata o trabalho e, principalmente, na forma como vive coletivamente. O meu direito não pode passar por cima do direito de ninguém.
Então faça boas escolhas. E, já que estamos aqui, deixo uma sugestão: eleja o máximo de mulheres possível. Eu tenho mesmo a tendência de acreditar que elas são mais sensatas nas decisões. Se estiver errado, pelo menos vai ter mais mulheres ajudando a decidirem assuntos que muitas vezes elas estão no tema mas não são ouvidas.

Bjo, fui.
Thiago Maroca é escritor, doutorando em artes, chefe escoteiro e pai.
Manda um oi: thiagomaroca@gmail.com


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