Exposição virtual – Um olhar sob Montevidéo (Uruguai)

Em 2015, viajei para esse país vizinho com uma riqueza cultural impressionante.

Fiquei uma semana, aproveitei para clicar, selecionei as melhores imagens para você desfrutar um pouco dessa minha experiência.

Algumas curiosidades:

  • Fiquei sem grana e tive que trabalhar no hostel como cozinheiro
  • Custo de vida alto me ajudou a ser mais sensível em relação a modelo de vida bem regrado da maioria da população;
  • Andava a pé por toda a cidade pois é pequena e agradável;
  • Aprendi um pouco sobre a situação da maconha neste país e nós não temos a mesma educação para legalizar no Brasil.

Obrigado pela visita, até a próxima.

Bjo, me clicka

Vida rodoviária

Indo para o trabalho, 11h40, dia de sol no outono.
Todo dia é uma aventura no ônibus.
– Vai descer motorista!
E lá vai o camarada caminhar 500 metros na chuva até um abrigo para depois chegar em casa, secar-se e pensar por que não foi de carro. “Sacanagem!” ele pensa a respeito da vida que o escolheu para fazer jus ao dia de cão.
– Gente! Desculpa incomodar vocês mas é que eu estou vendendo esse fone de ouvido para sustentar a minha família, quem puder segurar já é um incentivo .
Nessa de incentivo ele sempre esquece que deixou um com os passageiros da frente, desce pelo fundo agradecendo e desejando boa viagem e que Deus proteja o cobrador e o motorista dos caloteiros.
– Olha aqui, Tifany! Quando eu chegar em casa nóis vamo cunversá, porque não tem cabimento você ter comido mais da metade do ovos de páscoa que eu comprei pra você e seus irmão. Eu espero que ti dê uma diarreia, quando eu chegar nois cunversa, eu tô no ônibus, com aquele motorista lerdo da porra!
E assim vou captando a essência da vida de cada um durante a viagem. Quando desço:
“Três bandeja é cinco!”
“Vai seda! Vai seda!”
“Película, carregador é cinco!”
“Salgadinho, pimentinha é um real”
“Água, água, água, água, água, água, água”
Voltando pra casa, dia de chuva no verão
Final de semana chegando.
Sexta feira chuvosa, todo mundo doido pra ir pra casa. Na correria, ônibus abafado, gente correndo, empurra empurra, um manda abraço do colega do trabalho, deseja bom final de semana e até segunda. Alguém grita:
– Fone de ouvido 5, carregador 10!
O cheiro de churrasquinho invade as narinas, o povo tem que passar por um corredor com vários vendedores de seda pra maconha até roupas de carnaval.
Meu celular tenta ser furtado duas vezes enquanto tiro a foto.
Isso já é Brasília faz muitos anos.

Reflexões de uma janela

Dividido entre as dúvidas da vida, nunca sabia onde devia estar seu coração, alguns diriam o óbvio:

– Onde houver mais amor.

Se esta resposta bastasse já havia escolhido. Entenda:

No primeiro lugar, foi onde escolheu semear sua vida, adoeceu, quase morreu mas, não desistiu. Queria estar lá, provar a si mesmo que era capaz de sobreviver, dois anos foram o suficientes para saber que aquilo iria mata-lo, sobreviveu por mais sete, número simbólico do arco íris. Não vivia, convivia, no melhor dia perguntava se ainda havia amor naquela sala vazia, a resposta vinha seca, seguida de um silêncio brutal. Não tinha como continuar mas não sabia se aquele deveria ser o seu destino.

No segundo lugar, não escolheu, foi escolhido. Mesmo que isso soasse novo mas com um sentimento de aventura e frustração antecipada, saber o passado de alguém nos torna refém em repetir um futuro doloroso. Mesmo que a vida não seja uma certeza, a rotina caminha para que não saíamos do lugar comum. Mas havia vantagem em escolher um novo caminho para sua trajetória, era diferente de tudo que experimentou até ali. Ainda assim ali tinha mais amor e um coração carente.

Dormiu tentando escolher, mesmo que a viagem já tivesse terminado.

Quem poderia escolher por ele?

O que você escolheria?

Hoje foi um dia qualquer (com chuva)

Acordei as nove horas da manhã, tomei café lentamente, revisei as tarefas do dia, fui no mercado comprar cuscuz, aproveitei e comprei leite, farinha, arroz tava na promoção, feijão pela hora de morte e o limão a R$1,99 o kilo, comprei logo três kilos, pra fazer drinks e mais drinks. Em casa já atrasado para pegar o ônibus e ir trabalhar, resisti e não fui com o carro, cheguei atrasado 20 minutos mas ninguém notou, tratei de contar uma piada tosca na copa enquanto pegava o café, cumprimentei os presentes, gritei pela presença dos ausentes e no meu setor uma reunião, um furdunço sobre um equipamento danificado. Procura culpado, aponta dedo, tira dedo, ameaça abandonar o setor, indaga sobre quem poderia ter sido, encontram novos velhos equipamentos com defeitos. Ameaça chover!

A tarde segue maravilhosa em um estúdio pegando fogo, uma entrevista sem fim. No fim do expediente, tempo nublado mas sem cheiro de terra molhada, recuso a carona até a rodoviária pois estou decidido a ir com a bike do aplicativo de mobilidade pela cidade, sinto o vento no rosto, passo pelos noiados, pelas árvores, pelos carros, atravesso pista sem calçada, vou pela terra, pela grama, pela calçada, pelo buraco da pista até que chego na rodoviária e me despeço da magrela que me deu o vento nos braços e o suor no rosto. Estação sem vaga para devolver a bike. A chuva chega!

A cidade some através do temporal, o tempo de uso de bike ultrapassa e terei que pagar uma multa, a chuva faz com que eu faça amizade com outros usuários do aplicativo, xingamos o sistema, a chuva, e as bikes. A vida une as pessoas de alguma forma e não sabemos. A chuva passa!

Volto um kilometro e devolvo a bike, pego meu ônibus, leio um pouco das crônicas do Walcyr Carrasco, que aliás me inspira a escrever esta. Chego em casa e descubro que um grande jornalista morreu, Ricardo Boechat. De fato esse não foi um dia qualquer.

Pela janela, ameaça chover novamente.

Paixão brasileira: Nudes e Fake news

O dia não estava bom. A mina terminou o namoro antes das 8 da manhã, não deixou café pronto como de costume e olha que na noite anterior a “chinelada” foi boa. Mas o que açoitava os pensamentos daquela mulher solteira beirando os 40 anos eram os hábitos domésticos de seu namorido. Ela dormia durante a semana por lá e ganhava uma hora a mais de sono por ser perto de seu emprego, de secretária da floricultura. Em cada noite dormida, tinha que fazer o café, o que não a incomodava pois também tomava. O difícil era o chuveiro frio que ele nunca consertava, e olha que era o ofício dele.

– Tô indo!

– Deixou café pronto?

– Sim, mas tô indo pra sempre!

Bateu a porta.

Geraldo ficou em dúvida sobre o que ouviu, mas em 30 segundos quando Eleonora não voltou para pegar alguma coisa que havia esquecido, se deu conta de que tinha algo errado naquela frase. Na verdade o que aconteceu foi um espetáculo da mais pura sinceridade. Enquanto tomava o café usando meias bicolores, pensava no que poderia ter acontecido para ela tomar aquela decisão, imaginou que ela estava cansada de namorar, queria algo sério, casamento!

Pra Geraldo, estava sério até demais, tinha sobrevivido até aqueles 41 anos sem nunca ter colocado uma reles aliança em seu dedo. Se fosse pra viver a solteirisse, que fosse.

– Ela voltou com aquele ex!

Não havia outra alternativa, por que ela iria deixar aquela vida de mordomia que levava? Cama com um amor peludinho, Chinelada duas vezes por semana e uma vida de rainha naquela casa (empregada também). Com a manhã de folga, resolveu fuçar na internet a vida da Ex e do ex dela. Ali tinha coisa!

Em tempos modernos, com a moderação de perfil, não conseguiu ver nada. Criou um perfil feminino, mandou emoji no direct e ainda chamou de crush. Do outro lado da tela, um ex, que estava carente respondeu com um nudes acrescido de um emoji de coração.

– Que merda é essa? (Geraldo se passando por Tifany)

– Meu corpo desejando o seu, gata. (Ex se passando por ele mesmo)

Em questão de minutos a verdade havia sido revelada, as ofensas encheram o canal sobrando elogios ao contrário. Em menos de uma hora estavam os dois na sala do delegado. Um acusando o outro de falsidade ideológica e o outro por adultério ( ao menos cúmplice) . Para resolver o delegado mandou ligar para Eleonora para saber o que fazer com os dois.

– Prenda os dois, seu delegado! Um me traía e o outro queria uma empregada de graça, eu cansei. isso não é vida!

Delegado acatou e mandou pra cela os dois por uma noite para refletirem sobre suas atitudes e deixarem Eleonora em paz. Noite fria,  cela sem colchão e cobertor…

– Eu tô com frio, posso te abraçar? Disse o Ex.

A noite iria ser longa mas para Eleonora iria ser de descanso, com os pés para cima, vendo tv e tomando café.

O colecionador de derrotas

Não levantou mas já estava acordado, não iria fazer diferença nenhuma, lá fora chovia e dentro de casa só havia espaço e silêncio, coisa que todo adulto almeja, não precisava fazer café. Na verdade não precisava fazer nada, não tinha motivo nem animo para levantar, abrir os olhos seria o máximo de esforço, enfim, desistiu do tédio e levantou. Pensando no quão  pode ser controverso a vida, lembrou que demorou a pegar no sono na noite passada, mesmo chegando bêbado, resistiu e bebeu a última cerveja da geladeira que agora só tinha água, uma melancia murcha e meia cebola, quando falam que vida de solteiro é boa esquecem de dizer sobre fazer comida para apenas uma pessoa, isso sim é um tédio.

A primeira derrota podemos dizer que foi a separação, mas não podemos atribuir isso apenas ao amor, essa palavra é complicada, construir tem mais sentido, digamos que uma relação para durar necessita construir pontes, e no caso dele, algumas não saíram do projeto.  Uma vida a dois envolve respeito, carinho, ajuda mútua, cumplicidade e muito bom humor. Não faltou nada disso. Na verdade sobrou, exceto sonhos, esses já não eram os mesmos.

Não demorou muito para que a solidão estimulasse a volta de sentimentos antigos, ideias que não atormentavam a mente quando jovem retornaram com intensidade, acordou tarde na véspera do aniversário, chovia forte lá fora, não tinha mensagens, não tinha amigos nem motivo para comemorar. Entrou no carro e decidiu dirigir por duas horas para conhecer seu verdadeiro pai, isso lhe encheu de alegria, lhe deu ânimo, sentiu-se vivo. Uma peça do seu quebra cabeça iria ser colocada no lugar, não tinha expectativa mas no fundo queria chegar no encontro, chorar, abraçar, sentar na mesa com a família, ouvir e contar histórias, ser convidado para o almoço da semana seguinte mas, nada disso aconteceu. Houve uma conversa rápida e fria, zero de afeto e empatia, mas aquele homem branco, áspero, era seu pai. Ao tentar aproximação pela internet teve seu contato bloqueado, a vida voltou ao estado monocromático dos últimos meses. Foi uma boa experiência, pelo menos pagou pedágio, viu outra cidade, se perdeu, achou seu pai e perdeu-se novamente.

Buscando refúgio para outra vida, resolveu buscar abrigo na fé, encontrou respostas, caminhou com direção, seguindo as setas amarelas, achou no silêncio a resposta que nunca ouviu nos ruídos de sua rotina, o segredo de uma nova vida era terminar esta que ainda vivia enquanto havia tempo. Na volta pra casa, em seus hábitos de costume, saiu do único motivo que o tirava de casa nos fins de semana, o grupo de serviço da igreja, ali já não havia fé, mas ele acreditava na mudança do ser humano, quando alguém não muda mas muda os outros é um sinal de que você não pertence mais a aquele lugar. Assim deixou toda uma série de palavras nas paredes, calos de suas mãos pelo chão e muito do seu suor em cada canto daquele santuário, quando se vive pela fé é difícil, no primeiro momento acreditar que a sua crença está no seu coração e não em um lugar. Você é um ser pleno, portador de toda luz nessa vida mas pra entender isso leva tempo, finito e temeroso tempo da vida.

Por fim, ainda sem rumo, encontra parte de uma vida despedaçada que lhe ajuda a colher alguns cacos pela rua, estranho seria se nada acontecesse nesses dias cinzas. O sorriso, a falta de obrigações, tudo vira uma boa notícia nesse caminho espinhoso, o problema é apenas aceitar que existe uma competição invejosa como se ele fosse lutar por alguma coisa, ainda assim, demais pessoas acreditam que ele seria capaz de roubar algum coração estando nesse estado, ele está na enfermaria e não em uma competição esportiva. Ao conhecer alguém novo você também ganha novos odiadores, mesmo que você não tenha aonde colocar os troféis de tantas derrotas.

Ainda assim ele pensa em como recomeçar sua vida, todos os dias.

Fronteira

Estava sentada sobre uma pedra no fim da rua, mesmo nublado, já passava das 8 horas da manhã, mas os cães nem os corredores haviam dado sinal de vida, devia ser feriado e ela não sabia, talvez fosse a Fórmula 1 sendo transmitida na Coréia do Norte, “Um evento e tanto!” Pensou.

Foi acometida de um sentimento de dúvida sobre onde estava, se era uma fronteira, divisa ou limite, coisas que só acontecem quando você está um certo tempo longe de casa, já faziam dezessete dias que não ligava para ninguém, não checava os e-mails e nem atualizava suas redes sociais, eremita de primeira viagem, mas com orgulho. Ao olhar as placas em dois idiomas deduziu que estaria perto da divisa, ou seria limite?

Laura, se esse for seu nome mesmo, decidiu ter um ano sabático, coisa de rico, muito comum na Índia e no Oriente Médio. Sair sem rumo e sem destino para refletir sobre o que o futuro lhe reserva, aos ricos acompanhado de uma taça de Chandom, aos pobres acompanhados da imagem de nossa senhora desatadora dos nós, à ela um pouco de tudo e principalmente sorte, muita sorte. Não é fácil ser mulher nesse mundo, os homens de bem da família a trataram como uma princesa garantindo que nenhum mal lhe cercaria, os outros homens garantiram o pior presságio para qualquer mulher nessa vida, o mais importante dos conselhos seria sempre fechar as pernas acima de tudo.

Fugindo da lógica familiar, comprou uma passagem, mentiu sobre intercâmbio, prometeu se alimentar corretamente e dar notícias semanalmente, há 17 dias na estrada ainda não havia visto no que tinha se transformando, nem queria mas, já era algo bom porque ninguém tinha comentado ou criado expectativa sobre seus passos.

– Aposto que é limite!

Conversou com a estrada, as árvores balançaram afirmando, continuava no mesmo território, este reconhecia dois povos unificados por um estado que respeita a cultura de ambos, criando estados separados em divisas e suas cidades organizadas e administradas dentro dos seus limites. Fronteira divide os países.

Que loucura Laura, ligue para casa. Estamos com saudade de controlar sua cabeça e todo o resto.

Tempo de festa

Todos temiam o rei do Olimpo, sabiam que sua ira era tão incontrolável como sua bondade. Dionísio sempre em festa, só fazia um único desejo ao pai: “Que parasse o tempo pois assim o banquete nunca terminaria”
De saco cheio com a aporrinhacao, naquela tarde Zeus convidara um homem inusitado para uma conversa em seus aposentos, tratou logo  de coloca lo frente a frente com Dionísio para que todos os esclarecimentos sobre o tempo fossem feitos.

Chronos, Deus do tempo, sem paciência para floreios já deixou claro que sua fome pelos segundos, minutos e horas era insaciável. Se quisesse outra resposta, ele daria mas parar o tempo jamais.

Dionísio em seus raros momentos de sobriedade sabia que não havia como conseguir mais tempo com aquele homem ranzinza. 

– O tempo não é relativo.

Disse incisivamente o que segurava a ampulheta com o passado de todos os homens.

– E quanto tempo leva para sabermos se é amor?

Dionísio sem saída, não tinha mais argumentos com aquele ser faminto. Chronos ainda não havia respondido, o que não era comum, o tempo pelo primeira vez poderia ser relativo. 

– Eu não sei responder a esta pergunta.

–  Mas o que houve? Com a fama que leva, deveria.

– Isto é relativo. 

– Com o tempo nada é relativo. Retrucou Dionísio e assim Chronos foi obrigado a abrir uma exceção ao Deus festivo, tirou um segundo do dia e criou o ano bissexto.

Salve!

Obs: O tempo é relativo em relação ao amor. A conversa já havia sido encerrada.

Vingança (A Bicha Má)

Family-Claude-Monet-The-Dinner-1869

 

Samuel já havia conquistado o pouco da vida que lhe bastava, casa própria (financiada), carro (parcelado e em atraso), um bom emprego e família. Mesmo levando uma vida modesta e sem muitos luxos se permitia agradecer ao pouco que Deus lhe deu, um filho educado (Com satanás no corpo) uma filha feliz (Estilo quem toma Diazepan com Whisky) e uma esposa fiel (mas que acabava com a dispensa antes de 15 dias).

Se fosse jogar no bicho, seria a esperança, mas nunca jogou até porque esperança é nome de sogra ruim e o bicho não contempla essa delicadeza dos gramados. A boa sorte adentrava naquele lar e os problemas como racionamento de água e a crise politica institucional não eram assuntos tratados na mesa do café, o segredo de todo Bon Vivant é ceder às pequenas vontades dos entes familiares: um almoço na rua, um sorvete depois da escola e  porque não um cinema na terça a tarde? Tantos perguntavam a sabedoria para uma família daquela e ele dizia: “- É só deixar a vida me levar” mesmo não sabendo nada sobre Zeca pagodinho.

Naquela manhã antes de sair para o trabalho, o telefone fixo tocou com o sentimento de ser mais uma mensagem gravada com a voz da Xuxa pedindo doação para Igreja Universal, afinal, ser funcionária de bispo tem que cumprir meta dentro e fora da telinha. Que saudade do Dr Roberto Marinho! Todos pensavam assim, mesmo que ele torcesse pelo América, era um bom homem. Mas o bispo não era.

– Muca?

Hoje não seria um dia bom, a voz não era reconhecível mas aquele apelido tinha uma origem, a ex namoradinha da adolescência de Samuel.

– Bom dia, quem é?

Ele já sabia, estava tentando ganhar tempo, nesse momento a família já analisava minuciosamente o embargo na voz do patriarca, o café fervia e o aroma inundava a sala.

– Mulher, o café está fervendo!

Todo mundo já sabia que iria dar merda, chamou a esposa de “mulher”, tinha coisa errada.

– Muca, tô querendo mudar, vi no seu condomínio uma casa vazia, queria umas indicações, você tá gostando de morar aí com a sua família?

– Para de me ligar!

Desligou, respirou fundo, olhou para a mesa, um típico quadro de “O jantar” de Claude Monet, onde todos olham para o prato e fingem não terem ouvido o grito histérico do papai.

– Era engano!

(Claro que era, todo mundo notou Muca)

Terminaram o café em silêncio, o que não era comum. As crianças rumaram para o regime semi aberto infantil e a amada esposa foi ao mercado comprar mais pães para saciar sua lombriga. Enquanto dirigia ao trabalho, Samuel pensou como aquela mulher havia conseguido seu número, sabia de sua família e o pior: seu endereço.

Lembrou da vez que conheceu aquele anjo decaído em forma de cabelos loiros e um sorriso encantador. Foi na adolescência, com muitas expectativas e pouca grana a vida se resumia a um copo de refrigerante com Domus e um fandangos. No sol quente daquele setembro de 2003 muita coisa aconteceu, a internet começava a dar seus passos para o futuro, um pouco de Nirvana no discman e uma sombra na praça bastava para matar o tédio da vida vazia daquele casal, até o dia que ela resolveu matar alguém: o Samuel.

Numa crise de ciúme inesperada, estimulada pela bebida alcoólica, a doce companhia viu os olhos de Samuel seguir as nádegas de uma senhora que saia do posto de saúde mancando devido a uma injeção. De fato Samuel a olhava mas com pena, a parada de ônibus estava longe e aquela senhora gordinha lembrara sua mãe, que devia ter preparado macarrão com queijo naquela quarta feira, oque o fez salivar imaginando a iguaria. Tarde demais.

Diabo loiro (anjo nem na foto) teve um súbito de ira e agarrou-se a um galho seco e começou a tangir o bem amado como se houvesse consumado tal ato, isso sim é que é curar ressaca. Samuel ainda tonto pelo álcool e desnorteado pelas galhadas corria em direção oposta a do anjo, chegando em casa, comeu macarrão com queijo e dormiu. O telefone tocou a tarde inteira, 34 vezes precisamente, na última ligação atendeu o que seria um dejavu nos dias atuais:

– PARA DE ME LIGAR!

O tempo passou, a necessidade de álcool e novas rotas para o desencontro foram necessárias nestes últimos quinze anos. Mesmo sem ter notícia, mantinha viva na mente a imagem de que aquela surra deveria ter continuado, podia sentir a raiva de sua ex por onde pisasse e a sensação de que aquela ira era alimentada por ela.

Em uma quarta feira atual, Já anoite, chegando em casa e entorpecido pela idéia de reencontrar o motivo de seu medo na porta de sua casa, sentiu um mal súbito ao olhar para a casa numero 41, não era o diabo loiro, era algo muito pior. A luz apagada da varanda e as janelas fechadas evidenciavam o temor de Samuel, andou lentamente até a porta, bateu duas vezes na porta, não economizou nos pulmões:

– Ei! Alguém abre a porta! Mulher? Meninos?

Não podia sequer pestanejar, o cheiro do gás butano invadia suas narinas preenchendo sua memória com imagens cruéis, como podia ter deixado a família sozinha naquele dia em que o diabo descobriu seu endereço e ligou? Agora era tarde, todos estavam mortos mas, por um instante teve súbito de consciência e ligou para seu pai apenas para averiguar seus pensamentos obscuros.

– Alo?

– Pai?

– Oi Filho.

– Os meninos estão aí?

– Não, aconteceu alguma coisa?

– Ela matou eles!

Abandonou o celular na grama, esmurrou a porta, ainda daria tempo de salva-los. Com uma força sobrenatural arrombou a porta de compensado, gritou pela família, olhou dentro do forno, embaixo da cama, por último foi ao telhado. Nada feito. Não matou ainda, foi sequestro. Imaginou todas as economias e as negociações para resgatar as únicas coisas que tinham valor na vida. Retornou ao celular na grama, seu pai ainda estava na linha.

– Pai, eles não estão aqui.

– Já olhou na vizinha?

– Não.

Desligou o telefone, era quarta feira, dia de juntar a gurizada na casa 45, um verdadeiro clube do terror a base de Danoninho. E lá estavam todos vivos e felizes aguardando Samuel para de repente tomarem um sorvete a noite. Ao chegar em casa a esposa notou a porta encostada.

– Nossa! O que aconteceu aqui?

– Essa porta é muito ruim, só encostei e ela caiu.

Sem muitas explicações, uma boa família não se preocupa em justificar todos os problemas, basta viver e supera los, até surgirem outros. Como o skate que a menina estava querendo ganhar de natal. No fim daquela noite, o telefone tocou novamente. Samuel apressado correu em direção mas a esposa já havia atendido.

– Alo! Hummm, tá, tchau!

Samuel a olhava transtornado

– Era engano…. Muca.

Naquela noite, Samuel não dormiu, não tinha certeza de mais nada, ficou com medo de sua esposa ser igual ao diabo loiro, dessa vez a surra iria até o fim.

Quem roubou o Brasil?

Durante a entrega de provas corrigidas aos alunos da quinta série, uma aluna questiona.

– Professor! minha prova tem uma questão que está certa e o senhor colocou errada.

O que escrevia errado disse:

– Nossa! Quem diria, o professor mais correto da escola…

– O que nunca adoece – Acrescentou a que estava pendurada por faltas.

– O professor mais inteligente – Concluiu a burra que puxava saco.

– CHEGA! Que questão foi essa? Provavelmente deve ter sido o corretor de palavras do computador, eu jamais imprimo a prova sem antes revisar. Qual foi a questão?

– A que diz ” Quem roubou o Brasi?l”.

– Os portugueses. Chegaram de boa, viu que tinha ouro, levaram tudo.

– Aproveitadores. Disse Joãozinho

–  Mas também, os índios queriam o ouro só pra eles, tem que dividir.

– Socialista!

– Eu coloquei que foi Dom Pedro, chegou, roubou mas não foi embora.

– Monarquista de merda!

– Eu vi no youtube que foi Getúlio Vargas.

– Pelego! – Prosseguia Joãozinho.

– Seu Luis da padaria me contou que foi JK, construiu Brasília sem uma moeda no bolso, os juros tá rolando até hoje.

– Lobo em pele de cordeiro!

– Os militares! foram os militares. Inúmeras obras e nenhum documento que comprove a necessidade delas.

– Gangsters!

– Meu avô me disse que foi o Sarney, primeiro o Maranhão, depois o Brasil.

– Oportunista!

– Foi o Collor, congelando as poupanças.

– Moderninho salafrário.

– Meu falou que foi o FHC, criou a reeleição para continuar roubando.

– Espertalhão!

– Meu tio disse que foi o Lula, roubou tanto que caiu um dedo com o peso das moedas.

– Mentiroso!

– Minha mãe disse que foi a Dilma, roubou mas não conseguiu comprar uma roupa bonita.

– Deselegante!

A turma agitada indaga:

– E aí professor, qual é a resposta correta?

– Fora Temer!

A turma em uníssono respondeu

– FORA TEMER!

– Fora todos!- Retrucou Joãozinho.

E assim começava mais um dia na quinta série.