Vida sem sentido – A saga de Miltinho

“O Sentido da vida é que ela termina.”

Miltinho estava com essa frase na cabeça. A juventude havia chegado ao fim e agora ele tinha uma vida adulta pela frente, iria começar em uma repartição do estado, burocracia dia sim, dia também. Em seu primeiro dia já sentiu o tédio que seria o resto da sua vida naquele lugar. Chefes, mapas, canos e por fim, encontrar os parentes perdidos que se aventuravam no mundo externo e esqueciam de voltar. Ainda havia aqueles que nunca mais voltavam, igual o pessoal que atravessa a fronteira entre o México e os Estados Unidos.

Miltinho era diferente dos seus 41 irmãos, todos eram obcecados por comida e buracos quentes, nem sabia quantos ainda estavam vivos, nem dos pais ele tinha notícia. Tinha que trabalhar para sustentar seus pais que apenas procriavam. A vida era curta e não tinha sentido, o jeito era se ocupar para não enlouquecer. Ele estava cansado e se me permite o trocadilho, tambem estavam esgotado, porque era ali que vivia, uma cidade embaixo da cidade. Os outros, amigos, da mesma idade e de sua turma, sempre o convidavam para viver algumas aventuras.

“Vamos dar um rolê em um novo restaurante. Quer ir, Miltinho?”

“Caralho, fomos em uma festa, descobriram a gente e meteram baygon na rapaziada, ficamos loucas. Bateu uma lombra, mais da metade morreu nesse rolê, hahahaha cof.. cof…”

Por que aquelas criaturas se jogavam no universo da morte? Enquanto ele trabalhava, pensava se havia algo além dessas perspectivas para sua vida.

“Hoje vou no irmão Joe, tá afim?”

Irmão Joe, era um ser evoluído, morava em uma biblioteca, se alimentava de livros, literalmente, mas depois pegou gosto por ler algumas obras também. A cada dois dias, o Irmão Joe falava alguma frase e encerrava sua aparição pública. A biblioteca que ele habitava era de uma família que fazia questão de bons títulos mas não se preocupava tanto com a limpeza, o que favorecia a permanência do Irmão Joe. Naquela noite, ele disse para um público de quatro membros, havia um novato, Miltinho.

“O Sentido da vida é que ela termina.”

Aquilo tirou a fome de Miltinho por semanas, e acredite, era super possível ficar semanas sem comer. Depois de uns dias, saindo da repartição,  entrou no cano que levava a biblioteca do Irmão Joe, não era dia de reunião. Miltinho queria bater um papo em particular.

“Hoje eu não tenho o que dizer”

Irmão Joe, tinha um aspecto bem mais velho, talvez fosse o mais antigo de todos, se houvesse um livro dedicado ao Irmão Joe, seria o Guinness, o livro dos recordes.

“Isso é possível? Logo você que mora em uma biblioteca” Disse Miltinho.

“Você não sabe a energia que reside no silêncio.”

Desse jeito Miltinho iria explodir de tanta reflexão.  Pela primeira vez conversava com alguém que sabia algo além do universo de um bueiro. Será que o destino o colocou ali?

“Como eu faço pra ser igual a você?”

“Você é diferente de mim e isso basta, mas você podia ler alguma coisa.”

Irmão Joe falou do único livro que ele leu todo: A Metamorfose. Falava de um homem que ajudava a sua família, mas um dia acordou e viu que havia se tornado um inseto horroroso, abandonado à própria sorte, excluído pela família. Miltinho sabia que a sinopse era idêntica a da sua vida, esse tal de Greg Samsa não percebeu, que todo seu esforço para sustentar a família não foi visto quando ele não pode mais manter seus compromissos, mas a vida de Miltinho não podia acabar daquele jeito, ele precisava mudar de vida, ele precisava ter um sonho para acreditar.

“Já sei, eu quero ver o oceano, esse vai ser o sonho que vou lutar até o fim da minha vida”

Irmão Joe já estava se alimentando de algum livro enquanto Miltinho falava sozinho para aquelas páginas amarelas e empoeiradas, com as folhas medindo dez vezes o seu tamanho. Mesmo que soubesse, não tinha tanto tempo de vida para realizar aquele sonho, o primeiro segredo é contar para todos, assim eles o chamariam de louco, mas talvez alguém ajudasse com alguma ideia.

“O oceano? Tem uma piscina de esgoto aqui pertinho, isso é o oceano para mim”

“Esse tal de Oceano é o restaurante que a galera foi comer anteontem, né?”

“Eu não conheço o oceano, mas sei como chegar lá! Basta ir até o final do último cano”

De fato, não era muito difícil entender essa metáfora

“Mas tem que ir pela superfície”

Agora estava complicado. Como sair daquela zona de conforto?Como despistar a família e os 41 irmãos, na verdade não sabia mais quantos eram. Dane-se! Miltinho agora tinha um sonho e precisava realizá-lo, mesmo que isso lhe custasse sua insignificante vida. Ele tinha um plano, não muito requintado, mas tinha. Iria se fingir de morto e deixar que as formigas o levassem o mais longe possível, assim não levantaria suspeitas sobre o seu paradeiro, de acordo com o livro, Greg Samsa se torna um peso quando se transforma em um inseto, Miltinho queria que sua família deixasse de ser um peso para ele. Com o anúncio de sua morte, ficaria para outro irmão levar comida para os pais.

Assim o fez, ficou sem respirar, esperou que algum transeunte do bueiro notificasse seu falecimento. As formigas entraram em ação, foi levado a superfície, pela primeira vez viu o mundo externo. O sol, como queimava, ardia todo o seu corpo, mas era lindo, pensava se alguém já havia tentado tocá-lo. Era a primeira vez que Miltinho sentia calor, mesmo que não desse certo seu sonho, decidiu que gostaria de sentir o calor do sol para o resto de sua curta vida. Chegaste ao final da linha, se aproximava de seu corpo umas formigas maiores, com presas maiores. Miltinho sentiu uma sensação que nunca experimentara, não era uma sensação boa. Aquelas formigas pareciam muito sedentas por cortar em pequenas partes o corpo do Miltinho e entrar com elas no formigueiro, o jeito foi improvisar. Acordou como  Greg Samsa acordou de uma noite intranquila. Virou de barriga pra baixo e desatinou a andar, como quem percebe que está no lugar errado, cercado por todo o formigueiro e mesmo tendo mais agilidade que elas, ele não se via a salvo, as formigas já o cercavam. Não havia saída, será que alguém poderia ajudá-lo? Se o Sol fosse alguém ele pediria ajuda, e por que não pedir? Enquanto Miltinho olhava o sol firmemente, pensou que se estivesse mais perto,  ele o ouviria, quando percebeu estava voando em sua direção e assim viu-se distanciando do formigueiro e novamente pela primeira vez, sentiu o vento na face enquanto sobrevoava a cidade, tinha asas e não sabia que podia voar. Enquanto se dirigia ao sol, não desejava mais lhe pedir socorro, mas lhe agradecer, olhava a cidade cada vez menor lá embaixo, será que seus semelhantes já fizeram isso? 

Agora ele conseguia ver as cores do mundo, o verde, o marrom, uma faixa cinza e branca que subia em direção ao azul do céu, e por falar em azul, no horizonte, em oposição ao sol era possível ver uma faixa azul escura, o oceano. Miltinho usou suas asas na maior potência em direção ao mar, já era possível sentir o cheiro da maresia e ouvir o barulho das ondas. Quando pousou suas seis patas na areia molhada, notou o sentido da frase citada por irmão joe:

“O Sentido da vida é que ela termina.”

Para Miltinho, que não sabia ao certo quanto tempo levou até aquele momento, talvez semanas ou meses, a vida havia feito sentido, de certo ele poderia ter sido o único a ter realizado tal façanha, mas sabia que nenhum livro contaria sua história. E ali ele ficou, deitado na areia, olhando as ondas se quebrarem.  E a vida com sentido havia chegado ao fim.

Os anos 2000 e meu recalque

A revolução dos anos 2000 foi intensa e definitiva, começamos a migrar a passos lentos para o mundo digital. Qualquer adolescente no início dos anos 2000 teve contato com  filmes em DVD, dando fim a era das fitas VHS, filmes sendo substituídos por animações em 3D nos cinemas e a um celular, porém sofrendo com o dilema de não ter crédito para ligar. Fizemos nosso primeiro e-mail gratuito no BOL (Brasil On line) e em seguida criamos nosso perfil no orkut, que viria ser a febre da socialização virtual. Vale lembrar que o MSN, um software de troca de mensagens instantâneas lotavam as Lan-houses com intuito de bater papo, conhecer gente e atualizar o status com uma frase ou a música que estivesse ouvindo no momento.

O ano era 2004, estávamos no último ano do ensino médio, 30 jovens sem perspectiva de futuro nenhuma, mesmo declarando os cursos superiores que desejavam fazer. Em quase nossa totalidade, todos queríamos arrumar um emprego. Para os homens havia a possibilidade de servir o exército e as meninas conseguirem algo que não exigisse experiência. Mesmo com um futuro não muito animador, superficialmente todos falavam de  faculdades e de como iriam entrar na UnB: fosse pelo vestibular, fosse pelo Programa de Avaliação Seriada, o PAS. A real é que tínhamos esperança de dias melhores, de fato sobrevivemos a um ensino médio sem uniforme, sem professor, sem lanche e sem livro. Talvez em alguma escola, as condições fossem outras, mas na nossa, a situação era essa. Alguns colegas com estrutura familiar, um pouco de informação e renda fixa, faziam cursinhos para compensar o tempo perdido.

A nossa turma tinha um diferencial, queríamos estar juntos. Todo aniversário de algum colega era motivo para uma festinha tocando os hits do momento. Quintal decorado com um pouco de balões espalhados, uma mesa com o bolo e umas garrafas de refrigerantes e um som que tocava 3 em 1 (Disco, CD e fita K7). Para dar um clima de boate, as luzes eram apagadas e ficava apenas uma lâmpada pintada de tinta guache preta, que refletia sua luz em  alguns CD’s descascados na parede, trazendo uma atmosfera psicodélica mas sem álcool ou qualquer droga ilícita, quando surgia um goró, chamávamos de pinguerante devido a mistura, bebíamos em goles rápidos a fim de libertar nossos sonhos reprimidos pela dura vida que levávamos. O final do ano se aproximava, os professores aconselhavam sobre como era o dia-a-dia na universidade pública, sobre as festas do cursos e a rotina de livros e cópias. Nenhum falava sobre como fazer um currículo, como se comportar em uma entrevista de emprego ou onde procurar vaga. Os professores também sonhavam com os nossos sonhos.

Naquele mesmo ano, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) seria gratuito pela primeira vez a todos alunos que estavam concluindo o ensino médio nas escolas públicas, mesmo sem perspectiva eu fiz o exame e acredite, eu fui bem. Em janeiro do ano seguinte, o governo havia criado o Programa Universidade para todos (PROUNI) e eu com a minha nota do ENEM consegui uma bolsa 100% para fazer uma faculdade, aí sim eu entrei em um universo do qual eu nunca teria me visto. Eu acabei descobrindo que eu amava estudar, principalmente pelo fato de ser algo novo, sem uniforme, com gente diferente, com clima de vida adulta, mesmo sem ter um único centavo no bolso. 

Um dia comum em uma turma de Publicidade em 2006

Os anos seguinte continuaram com suas mudanças, posso dizer com tranquilidade que eu vi a banca de jornal morrer, os orelhões se tornaram cada vez mais obsoletos, as grandes franquias como O senhor do Anéis, Harry Potter e X-men enchiam as discussões entre os amigos devido aos seus efeitos especiais. Mas o que marcou minha vida foi o rock nacional independente. Durante minha vida toda eu escrevi letras de músicas e cantava na porta de casa para quem quisesse ouvir, durante o período escolar ainda montamos uma banda para tocar as minhas músicas, essa foi a fase mais legal da minha vida, eu me sentia um popstar, colocavamos as músicas em site chamado TRAMAVIRTUAL, que servia de divulgação para artistas do Brasil inteiro. O movimento underground usava os recursos virtuais para divulgarem suas músicas e atividades. Em minha cidade como não havia essa cena eu organizei alguns shows para nossa banda tocar. Os blogs surgiam com o intuito de externalizar emoções e opiniões através de um diário virtual, as páginas de fotos exibiam momentos registrados pelas novas máquinas digitais. Mas de tudo isso, eu sempre pensava que havia sido desleixado com meus estudos, mesmo vivendo uma juventude bacana, eu me sentia burro. Precisava ler mais, estudar mais, continuar até provar algo que fosse capaz: Passar na UnB. 

Afinando o baixo, minutos antes da apresentação.

De lá pra cá, foram 16 anos de estudo ininterruptos. Não sou nenhum gênio, não virei juiz nem diplomata, nem passei no melhor concurso público. Mas eu fiz muitas coisas das quais eu nunca tinha sonhado, conheci países, pessoas, realizei alguns prazeres pessoais, entrei em lugares que a minha vida econômica nunca permitiriam entrar, comi coisas sem gosto mas semblante de prazer porque era de conquista. No fim de tudo isso, pra dizer: – Eu passei na UnB!

Sim, passei. Mas o meu tempo também passou, meus objetivos são outros, meus sonhos são diferentes, mas esse recalque eu superei.Escrevo tudo isso para ir me livrando do passado que vive fresco na minha memória. Preciso cada vez mais estar conectado com o presente, e se quiser uma dica valiosa: Faça o mesmo! Viva como se houvesse um final mas não esqueça o que lhe trouxe aqui.

Eu acredito em você!

Último dia de aula de 2004. Provavelmente eu fui de chinelo.

Qual vacina tomar? Melhor tomar vergonha

Chegou o grande dia. Após um ano confinado em casa, hoje ele vai vacinar. Vale lembrar que não foi um ano fácil, a gripezinha do presidente levou alguns amigos do peito, o álcool da garrafa de pinga virou esterilizante e a convivência com a mulher se tornou inviável abrindo os ouvidos para começar a ouvir o que o cachorro dizia.

O posto amanheceu lotado, até os noiados ficaram para ver a logística da vacinação. A regra de não aglomerar funcionou apenas na presença da polícia, quando a viatura se foi, a velharada se juntou e começou a conversar, fazer teorias conspiratórias de whatsapp e lamentar o título do Brasileirão que esse ano devia ser do Palmeiras ou do Santos, O Flamengo já havia ganhado um título e o Inter por um gol não viu a glória que esperava há mais de quarenta anos. Era assunto que não acabava mais, valia falar de tudo, do Lula, da família, do aumento da carne, só não podia falar de morte, ali todo mundo tinha visto de perto o perigo da COVID 19.

A vacinação começou, os primeiros que saiam do posto exibiam o esparadrapo para o restante da fila, teve um que saiu até mancando, tamanha a proeza. O drive thrue estava lento quase parado, na fila dos pedestres começou uma movimentação incomum. Um senhor de máscara no queixo, aparentemente havia esterilizado o corpo internamente com álcool Ipióca, correu para o meio da fila fugindo de sua senhora para não ser flagrado daquela aventura. Mesmo com o Lockdown, boteco com sinuca é serviço essencial, mas nada adiantou, um senhor de cara alegre fechou o semblante imediatamente ao ver um o espertão furar a fila.

-Me salva, eu tô me escondendo da minha mulher.

-Essa é a fila da vacinação, não dá vacilação.

Comecou um buzinaço, parecia aqueles atos de classe média a favor do presidente, que ultimamente até máscara está usando. Os ânimos se exaltaram, a enfermeira gritou pela décima vez:

-Só acima de 65 anos, identidade na mão por favor!

O incomodado com o furão, voltou a sorrir, só que desta vez sem graça, lembrou que só tinha 64, mas jurou que viu no celular a mensagem dizendo a partir de 63.

-Me empresta tua identidade e fica tudo certo.

-Fechado. Tu tá bem conservado para ser idoso.

-Não fico bebendo o tempo todo.

-Assim você me ofende. Poxa! Eu tô a tanto tempo em casa, que não tem nada que eu não tenha terminado de consertar, a antena da tv já tinha três anos que não funcionava, agora em tv em todos os cômodos funcionando, só tomei uma cachacinha pra matar a saudade que eu tava do boteco. E saber se tava tudo bem, o dono é meu amigo.

-Pois é, eu peguei o hábito de ver novela, assinei globo play e ainda acompanho umas coreanas que minha neta achou com legenda no youtube. Como pode fazerem novelas tão ruins ultimamente? Selva de pedra, Tieta e Quatro por quatro são as melhores na minha opinião.

Uma espertinha chegou de carro gritando: – Meu pai é militar! tem prioridade.

A cara do coroa no carro era de quem não queria passar essa vergonha. Aí não houve como evitar aglomeração

-Eu sou professora!

-Eu sou técnico em enfermagem!

-Eu sou ambulante!

-Eu tô é desempregada!

Uma mulher que acompanhava mãe, mostrou um pouco de sensatez ao levantar a bandeira da paz e lembrar que todos ali iriam vacinar e que o momento era de espera mas de alívio ao saber que havia chegado a vez daquelas pessoas. O cerco se desfez no carro, um cidadão mais tranquilo até puxou um louvor que aliviou os ouvidos e acabou com o zum zum zum. Enquanto isso, a enfermeira voltava do fim da fila gritando:

– Só acima de 65 anos, identidade na mão por favor!

Os dois se olharam e piscaram, tato é trato.

-Só mais uma coisa.

-Diga!

-Segura meu lugar aqui enquanto eu vou ali tomar mais uma, tô muito preocupado com essa doença.

Ps: Esse é o meu pai vacinado. 

Exposição virtual – Um olhar sob Montevidéo (Uruguai)

Em 2015, viajei para esse país vizinho com uma riqueza cultural impressionante.

Fiquei uma semana, aproveitei para clicar, selecionei as melhores imagens para você desfrutar um pouco dessa minha experiência.

Algumas curiosidades:

  • Fiquei sem grana e tive que trabalhar no hostel como cozinheiro
  • Custo de vida alto me ajudou a ser mais sensível em relação a modelo de vida bem regrado da maioria da população;
  • Andava a pé por toda a cidade pois é pequena e agradável;
  • Aprendi um pouco sobre a situação da maconha neste país e nós não temos a mesma educação para legalizar no Brasil.

Obrigado pela visita, até a próxima.

Bjo, me clicka

Vida rodoviária

Indo para o trabalho, 11h40, dia de sol no outono.
Todo dia é uma aventura no ônibus.
– Vai descer motorista!
E lá vai o camarada caminhar 500 metros na chuva até um abrigo para depois chegar em casa, secar-se e pensar por que não foi de carro. “Sacanagem!” ele pensa a respeito da vida que o escolheu para fazer jus ao dia de cão.
– Gente! Desculpa incomodar vocês mas é que eu estou vendendo esse fone de ouvido para sustentar a minha família, quem puder segurar já é um incentivo .
Nessa de incentivo ele sempre esquece que deixou um com os passageiros da frente, desce pelo fundo agradecendo e desejando boa viagem e que Deus proteja o cobrador e o motorista dos caloteiros.
– Olha aqui, Tifany! Quando eu chegar em casa nóis vamo cunversá, porque não tem cabimento você ter comido mais da metade do ovos de páscoa que eu comprei pra você e seus irmão. Eu espero que ti dê uma diarreia, quando eu chegar nois cunversa, eu tô no ônibus, com aquele motorista lerdo da porra!
E assim vou captando a essência da vida de cada um durante a viagem. Quando desço:
“Três bandeja é cinco!”
“Vai seda! Vai seda!”
“Película, carregador é cinco!”
“Salgadinho, pimentinha é um real”
“Água, água, água, água, água, água, água”
Voltando pra casa, dia de chuva no verão
Final de semana chegando.
Sexta feira chuvosa, todo mundo doido pra ir pra casa. Na correria, ônibus abafado, gente correndo, empurra empurra, um manda abraço do colega do trabalho, deseja bom final de semana e até segunda. Alguém grita:
– Fone de ouvido 5, carregador 10!
O cheiro de churrasquinho invade as narinas, o povo tem que passar por um corredor com vários vendedores de seda pra maconha até roupas de carnaval.
Meu celular tenta ser furtado duas vezes enquanto tiro a foto.
Isso já é Brasília faz muitos anos.

Reflexões de uma janela

Dividido entre as dúvidas da vida, nunca sabia onde devia estar seu coração, alguns diriam o óbvio:

– Onde houver mais amor.

Se esta resposta bastasse já havia escolhido. Entenda:

No primeiro lugar, foi onde escolheu semear sua vida, adoeceu, quase morreu mas, não desistiu. Queria estar lá, provar a si mesmo que era capaz de sobreviver, dois anos foram o suficientes para saber que aquilo iria mata-lo, sobreviveu por mais sete, número simbólico do arco íris. Não vivia, convivia, no melhor dia perguntava se ainda havia amor naquela sala vazia, a resposta vinha seca, seguida de um silêncio brutal. Não tinha como continuar mas não sabia se aquele deveria ser o seu destino.

No segundo lugar, não escolheu, foi escolhido. Mesmo que isso soasse novo mas com um sentimento de aventura e frustração antecipada, saber o passado de alguém nos torna refém em repetir um futuro doloroso. Mesmo que a vida não seja uma certeza, a rotina caminha para que não saíamos do lugar comum. Mas havia vantagem em escolher um novo caminho para sua trajetória, era diferente de tudo que experimentou até ali. Ainda assim ali tinha mais amor e um coração carente.

Dormiu tentando escolher, mesmo que a viagem já tivesse terminado.

Quem poderia escolher por ele?

O que você escolheria?

Hoje foi um dia qualquer (com chuva)

Acordei as nove horas da manhã, tomei café lentamente, revisei as tarefas do dia, fui no mercado comprar cuscuz, aproveitei e comprei leite, farinha, arroz tava na promoção, feijão pela hora de morte e o limão a R$1,99 o kilo, comprei logo três kilos, pra fazer drinks e mais drinks. Em casa já atrasado para pegar o ônibus e ir trabalhar, resisti e não fui com o carro, cheguei atrasado 20 minutos mas ninguém notou, tratei de contar uma piada tosca na copa enquanto pegava o café, cumprimentei os presentes, gritei pela presença dos ausentes e no meu setor uma reunião, um furdunço sobre um equipamento danificado. Procura culpado, aponta dedo, tira dedo, ameaça abandonar o setor, indaga sobre quem poderia ter sido, encontram novos velhos equipamentos com defeitos. Ameaça chover!

A tarde segue maravilhosa em um estúdio pegando fogo, uma entrevista sem fim. No fim do expediente, tempo nublado mas sem cheiro de terra molhada, recuso a carona até a rodoviária pois estou decidido a ir com a bike do aplicativo de mobilidade pela cidade, sinto o vento no rosto, passo pelos noiados, pelas árvores, pelos carros, atravesso pista sem calçada, vou pela terra, pela grama, pela calçada, pelo buraco da pista até que chego na rodoviária e me despeço da magrela que me deu o vento nos braços e o suor no rosto. Estação sem vaga para devolver a bike. A chuva chega!

A cidade some através do temporal, o tempo de uso de bike ultrapassa e terei que pagar uma multa, a chuva faz com que eu faça amizade com outros usuários do aplicativo, xingamos o sistema, a chuva, e as bikes. A vida une as pessoas de alguma forma e não sabemos. A chuva passa!

Volto um kilometro e devolvo a bike, pego meu ônibus, leio um pouco das crônicas do Walcyr Carrasco, que aliás me inspira a escrever esta. Chego em casa e descubro que um grande jornalista morreu, Ricardo Boechat. De fato esse não foi um dia qualquer.

Pela janela, ameaça chover novamente.

Paixão brasileira: Nudes e Fake news

O dia não estava bom. A mina terminou o namoro antes das 8 da manhã, não deixou café pronto como de costume e olha que na noite anterior a “chinelada” foi boa. Mas o que açoitava os pensamentos daquela mulher solteira beirando os 40 anos eram os hábitos domésticos de seu namorido. Ela dormia durante a semana por lá e ganhava uma hora a mais de sono por ser perto de seu emprego, de secretária da floricultura. Em cada noite dormida, tinha que fazer o café, o que não a incomodava pois também tomava. O difícil era o chuveiro frio que ele nunca consertava, e olha que era o ofício dele.

– Tô indo!

– Deixou café pronto?

– Sim, mas tô indo pra sempre!

Bateu a porta.

Geraldo ficou em dúvida sobre o que ouviu, mas em 30 segundos quando Eleonora não voltou para pegar alguma coisa que havia esquecido, se deu conta de que tinha algo errado naquela frase. Na verdade o que aconteceu foi um espetáculo da mais pura sinceridade. Enquanto tomava o café usando meias bicolores, pensava no que poderia ter acontecido para ela tomar aquela decisão, imaginou que ela estava cansada de namorar, queria algo sério, casamento!

Pra Geraldo, estava sério até demais, tinha sobrevivido até aqueles 41 anos sem nunca ter colocado uma reles aliança em seu dedo. Se fosse pra viver a solteirisse, que fosse.

– Ela voltou com aquele ex!

Não havia outra alternativa, por que ela iria deixar aquela vida de mordomia que levava? Cama com um amor peludinho, Chinelada duas vezes por semana e uma vida de rainha naquela casa (empregada também). Com a manhã de folga, resolveu fuçar na internet a vida da Ex e do ex dela. Ali tinha coisa!

Em tempos modernos, com a moderação de perfil, não conseguiu ver nada. Criou um perfil feminino, mandou emoji no direct e ainda chamou de crush. Do outro lado da tela, um ex, que estava carente respondeu com um nudes acrescido de um emoji de coração.

– Que merda é essa? (Geraldo se passando por Tifany)

– Meu corpo desejando o seu, gata. (Ex se passando por ele mesmo)

Em questão de minutos a verdade havia sido revelada, as ofensas encheram o canal sobrando elogios ao contrário. Em menos de uma hora estavam os dois na sala do delegado. Um acusando o outro de falsidade ideológica e o outro por adultério ( ao menos cúmplice) . Para resolver o delegado mandou ligar para Eleonora para saber o que fazer com os dois.

– Prenda os dois, seu delegado! Um me traía e o outro queria uma empregada de graça, eu cansei. isso não é vida!

Delegado acatou e mandou pra cela os dois por uma noite para refletirem sobre suas atitudes e deixarem Eleonora em paz. Noite fria,  cela sem colchão e cobertor…

– Eu tô com frio, posso te abraçar? Disse o Ex.

A noite iria ser longa mas para Eleonora iria ser de descanso, com os pés para cima, vendo tv e tomando café.

O colecionador de derrotas

Não levantou mas já estava acordado, não iria fazer diferença nenhuma, lá fora chovia e dentro de casa só havia espaço e silêncio, coisa que todo adulto almeja, não precisava fazer café. Na verdade não precisava fazer nada, não tinha motivo nem animo para levantar, abrir os olhos seria o máximo de esforço, enfim, desistiu do tédio e levantou. Pensando no quão  pode ser controverso a vida, lembrou que demorou a pegar no sono na noite passada, mesmo chegando bêbado, resistiu e bebeu a última cerveja da geladeira que agora só tinha água, uma melancia murcha e meia cebola, quando falam que vida de solteiro é boa esquecem de dizer sobre fazer comida para apenas uma pessoa, isso sim é um tédio.

A primeira derrota podemos dizer que foi a separação, mas não podemos atribuir isso apenas ao amor, essa palavra é complicada, construir tem mais sentido, digamos que uma relação para durar necessita construir pontes, e no caso dele, algumas não saíram do projeto.  Uma vida a dois envolve respeito, carinho, ajuda mútua, cumplicidade e muito bom humor. Não faltou nada disso. Na verdade sobrou, exceto sonhos, esses já não eram os mesmos.

Não demorou muito para que a solidão estimulasse a volta de sentimentos antigos, ideias que não atormentavam a mente quando jovem retornaram com intensidade, acordou tarde na véspera do aniversário, chovia forte lá fora, não tinha mensagens, não tinha amigos nem motivo para comemorar. Entrou no carro e decidiu dirigir por duas horas para conhecer seu verdadeiro pai, isso lhe encheu de alegria, lhe deu ânimo, sentiu-se vivo. Uma peça do seu quebra cabeça iria ser colocada no lugar, não tinha expectativa mas no fundo queria chegar no encontro, chorar, abraçar, sentar na mesa com a família, ouvir e contar histórias, ser convidado para o almoço da semana seguinte mas, nada disso aconteceu. Houve uma conversa rápida e fria, zero de afeto e empatia, mas aquele homem branco, áspero, era seu pai. Ao tentar aproximação pela internet teve seu contato bloqueado, a vida voltou ao estado monocromático dos últimos meses. Foi uma boa experiência, pelo menos pagou pedágio, viu outra cidade, se perdeu, achou seu pai e perdeu-se novamente.

Buscando refúgio para outra vida, resolveu buscar abrigo na fé, encontrou respostas, caminhou com direção, seguindo as setas amarelas, achou no silêncio a resposta que nunca ouviu nos ruídos de sua rotina, o segredo de uma nova vida era terminar esta que ainda vivia enquanto havia tempo. Na volta pra casa, em seus hábitos de costume, saiu do único motivo que o tirava de casa nos fins de semana, o grupo de serviço da igreja, ali já não havia fé, mas ele acreditava na mudança do ser humano, quando alguém não muda mas muda os outros é um sinal de que você não pertence mais a aquele lugar. Assim deixou toda uma série de palavras nas paredes, calos de suas mãos pelo chão e muito do seu suor em cada canto daquele santuário, quando se vive pela fé é difícil, no primeiro momento acreditar que a sua crença está no seu coração e não em um lugar. Você é um ser pleno, portador de toda luz nessa vida mas pra entender isso leva tempo, finito e temeroso tempo da vida.

Por fim, ainda sem rumo, encontra parte de uma vida despedaçada que lhe ajuda a colher alguns cacos pela rua, estranho seria se nada acontecesse nesses dias cinzas. O sorriso, a falta de obrigações, tudo vira uma boa notícia nesse caminho espinhoso, o problema é apenas aceitar que existe uma competição invejosa como se ele fosse lutar por alguma coisa, ainda assim, demais pessoas acreditam que ele seria capaz de roubar algum coração estando nesse estado, ele está na enfermaria e não em uma competição esportiva. Ao conhecer alguém novo você também ganha novos odiadores, mesmo que você não tenha aonde colocar os troféis de tantas derrotas.

Ainda assim ele pensa em como recomeçar sua vida, todos os dias.

Fronteira

Estava sentada sobre uma pedra no fim da rua, mesmo nublado, já passava das 8 horas da manhã, mas os cães nem os corredores haviam dado sinal de vida, devia ser feriado e ela não sabia, talvez fosse a Fórmula 1 sendo transmitida na Coréia do Norte, “Um evento e tanto!” Pensou.

Foi acometida de um sentimento de dúvida sobre onde estava, se era uma fronteira, divisa ou limite, coisas que só acontecem quando você está um certo tempo longe de casa, já faziam dezessete dias que não ligava para ninguém, não checava os e-mails e nem atualizava suas redes sociais, eremita de primeira viagem, mas com orgulho. Ao olhar as placas em dois idiomas deduziu que estaria perto da divisa, ou seria limite?

Laura, se esse for seu nome mesmo, decidiu ter um ano sabático, coisa de rico, muito comum na Índia e no Oriente Médio. Sair sem rumo e sem destino para refletir sobre o que o futuro lhe reserva, aos ricos acompanhado de uma taça de Chandom, aos pobres acompanhados da imagem de nossa senhora desatadora dos nós, à ela um pouco de tudo e principalmente sorte, muita sorte. Não é fácil ser mulher nesse mundo, os homens de bem da família a trataram como uma princesa garantindo que nenhum mal lhe cercaria, os outros homens garantiram o pior presságio para qualquer mulher nessa vida, o mais importante dos conselhos seria sempre fechar as pernas acima de tudo.

Fugindo da lógica familiar, comprou uma passagem, mentiu sobre intercâmbio, prometeu se alimentar corretamente e dar notícias semanalmente, há 17 dias na estrada ainda não havia visto no que tinha se transformando, nem queria mas, já era algo bom porque ninguém tinha comentado ou criado expectativa sobre seus passos.

– Aposto que é limite!

Conversou com a estrada, as árvores balançaram afirmando, continuava no mesmo território, este reconhecia dois povos unificados por um estado que respeita a cultura de ambos, criando estados separados em divisas e suas cidades organizadas e administradas dentro dos seus limites. Fronteira divide os países.

Que loucura Laura, ligue para casa. Estamos com saudade de controlar sua cabeça e todo o resto.