Tempo de festa

Todos temiam o rei do Olimpo, sabiam que sua ira era tão incontrolável como sua bondade. Dionísio sempre em festa, só fazia um único desejo ao pai: “Que parasse o tempo pois assim o banquete nunca terminaria”
De saco cheio com a aporrinhacao, naquela tarde Zeus convidara um homem inusitado para uma conversa em seus aposentos, tratou logo  de coloca lo frente a frente com Dionísio para que todos os esclarecimentos sobre o tempo fossem feitos.

Chronos, Deus do tempo, sem paciência para floreios já deixou claro que sua fome pelos segundos, minutos e horas era insaciável. Se quisesse outra resposta, ele daria mas parar o tempo jamais.

Dionísio em seus raros momentos de sobriedade sabia que não havia como conseguir mais tempo com aquele homem ranzinza. 

– O tempo não é relativo.

Disse incisivamente o que segurava a ampulheta com o passado de todos os homens.

– E quanto tempo leva para sabermos se é amor?

Dionísio sem saída, não tinha mais argumentos com aquele ser faminto. Chronos ainda não havia respondido, o que não era comum, o tempo pelo primeira vez poderia ser relativo. 

– Eu não sei responder a esta pergunta.

–  Mas o que houve? Com a fama que leva, deveria.

– Isto é relativo. 

– Com o tempo nada é relativo. Retrucou Dionísio e assim Chronos foi obrigado a abrir uma exceção ao Deus festivo, tirou um segundo do dia e criou o ano bissexto.

Salve!

Obs: O tempo é relativo em relação ao amor. A conversa já havia sido encerrada.

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Trump, Superman e Homem Aranha

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Durante o credenciamento, tumulto, gente mexendo no celular, mulheres histéricas, chihuahuas latindo e muito terno pra pouco defunto. Clark havia se  perdido de Jimmy, com tantos protestos nas ruas nós sabemos onde um fotojornalista gosta de trabalhar. A posse do novo presidente do Estados Unidos estava muito competida, concorrida. Políticos apagados na gestão Obama, militares e muitas socialites.  socialights . As Os Kardashians não conseguiam conter a emoção e a inveja. Clark estava desatualizado  sobre os bastidores da política americana. A última briga com Lex Luthor ocupava sua mente em momentos de folga. Mas, imagine você saber que seu inimigo está mandando snaps para Lois, que por sinal é sua esposa. Por uma simples cabeçada, Lois  tinha feito Clark dormir na sala por uma semana, coisas que um homem casado às vezes precisa sentir na pele. Segundo Lois, não eram nada demais. Algumas mensagens românticas e um pouco de seminu (careca conta). Brincadeiras que nunca foram de se esperar do último conservador vindo de Kripton, que tinha tudo para ser um planeta foda, mas que sem moeda, resolvia tudo era na força e no raio laser. Deu no que deu. Ainda bem que Jonathan e Martha Kent já tinham parado de usar umas coisinhas e viram que tinha um menino na nave que veio do céu. Salve a cultura racional da gringa!

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– Gravador não entra!

Segurança com cara de mau.

– Mas como irei decupar o discurso do presidente?

– Caderninho de anotações também não entra! Nem caneta. Só celular, mas não tem rede.

Clark pensou em ativar o olho vermelho de fogo naquele segurança,  mas lembrou que já havia um Kent Lane Júnior em casa pra alimentar, pagar escola, levar ao parque… Existe superpoder pra tudo, mas pra ganhar dinheiro, só trabalhando mesmo. Ainda na fila imaginou que merda iria fazer naquele lugar sem gravador e sem o parceiro fotógrafo. Tudo seria televisionado do jeito que o novo chefe gosta, só que pela sua emissora, a Fox, de forma careta e tediosa. Provavelmente fizeram curso com a nossa EBC (Empresa brasileira de Comunicação). Ainda na fila, um jovem segurando de forma desajeitada uma Pentax entrava sem parceiro. Clark precisava garantir um furo. A coisa não estava fácil nas redações. Basta olhar o que aconteceu com a Playboy.

– Quanto você quer para fazer uma foto pra mim?

– Eu te conheço.

– 100 dólares.

– Você é o Superman!

– E você o Pateta.

– É sério! Fiquei olhando mas agora tenho certeza, esse cabelo com esse olhar de galã de comercial da Avon… É o Superman!

– Isso é passado, mas pelo meus velhos instintos você também não é normal.

– Peter Parker, sou fotografo do News Luthor.

– Trabalhar para o cara que quer, ainda vai, mas comer minha mulher não pode ser normal.

– Eu preciso de 100 dólares, vou pedir minha namorada em casamento.

– Se tu soubesses o buraco que vai entrar, não cavaria.

–  Como é? Vai precisar de uma foto ou não?

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Era trato feito, afinal Clark não podia vacilar. Entraram e acomodaram-se. Cerimônia careta, Obama com um sorriso branco e feliz, família com cara de foto da revista Quem, todos sorrindo e batendo palmas,  mas no fundo com aquele sentimento de “vai dar merda”.
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Apos o discurso, Peter já havia feito a foto, foi aberto para algumas perguntas, todas sobre economia, Israel e Palestina, petróleo, geração de emprego, qualidade de vida, saúde, fronteiras, aquecimento global. Para Clark  não sobrou assunto nenhum de interesse relevante para o Planeta Diário. Em sua vez aproveitou e fugiu das perguntas tradicionais, resolveu captar uma resposta espontânea.

– Presidente Trump, como vai ficar sua vida pessoal? Sendo mais especifico… e quanto ao sexo?

– Vai ser foda. Não tenho nenhuma estagiária aqui.

–  Se fosse Hilary, iria chover. Garanto!

Clark foi expulso, mas tinha um furo. E um emprego.

Obrigado Peter

 

Sobre a certeza de ter feito a escolha errada

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De repente ninguém teve coragem para lhe perguntar, mas talvez sua feição não permitiu que alguém se aproximasse. De uma forma ou outra, será inevitável em algum momento da sua vida  lhe fazerem a seguinte pergunta:

– Voce está certo de sua escolha?

Mas e aí? Está ou não? No mundo, a reposta precisa ser direta e rápida. As vezes sua opinião ainda  não está totalmente formada, tenho dúvidas sobre quem tem alguma opinião formada. No jornalismo ( o sério) emitir opinião é um privilégio que se conquista com muito tempo e respeito na carreira.Mas voltando ao assunto, a questão é: Você sabe do que está falando?

O que precisamos é no mínimo ter consciência sobre nossos atos, aquele que escolheu ser de determinada religião deverá seguir seus preceitos; Quem decidir torcer por tal time tem que mostrar lealdade no rebaixamento; A opção politica deve ser firme nos momentos de agonização; Dieta não tem pausa; Por fim, até que a morte nos separe.

Os exemplos podem ser milhares, o questionamento é sobre ter culhão, sobre botar a cara para bater, arriscar receber vaias em dia de derrota.

A juventude é para mim o maior desafio da atualidade, podemos identificar rigidez e apatia na mesma pessoa com assuntos diferentes. Um jovem é capaz de se indignar com a má qualidade da educação e escrever errado na redação do enem. Decidir ser vegetariano e usar couro. Escolher ser cristão e condenar a mendicância.

 Opte ser totalmente errado, vai por mim que dar certo, mesmo que soe contraditório.

A sociedade está em dramática, a crise econômica esvazia o bolso e nos devolve tempo para olharmos para dentro de nossa alma que não se alimenta de coisas boas há muito tempo. Durante os últimos anos o consumo exagerado por coisas  não deixou que refletessimos sobre quem nós somos.O pior foi esquecer o sentido da palavra refletir.

Aproveite a virada do ano, agregue a todas simpatias que você acredita, fale para os amigos de verdade sobre suas eternas escolhas erradas.Sobre escolher amar a pessoa errada, optar por não ter futuro na profissão. Descobrir-se Ateu, entender que não ser hétero não lhe torna homossexual no instante seguinte. Vai ver que tá faltando tudo e você fingindo que já pode apagar a luz.

A vida desenhada pelos seus pais não encaixou nos seus planos, tu é maconheiro trabalhador, cristão preguiçoso, revolucionário da web, hétero pão com ovo, escritor analfabeto. Tantas categorias que vão travar a máquina de pensar.

Se quiser, desenha você num papel e se pergunta quem é você, vai escrevendo e tentando encontrar alguma coerência com as regras do mundo tradicional e depois com o mundo contemporâneo.

Seja só você mesmo irmão, mas tenha atitude de segurar a barrar que é gostar de ser errado.

Desejo que esse ano, seja bom, seja cabuloso, seja massa, seja headbanger, seja top, apenas.

Feliz 2017

 Thiago Maroca

Como é que chama aquele menino?

Thiago Maroca

– Jesus!

– O filho da Maria?

– É.

– Irmão do Tiago?

– Eh mulher!

Ninguém acreditou, como podia, logo o filho do José, o carpinteiro, homem calado, de pouca conversa na vila, ter um filho danado como aquele e ainda por cima, inventador de histórias.

– Mulher, tu imagina que ele agora anda conversando com os animais, e o que é pior é que os bicho fica tudo calado, foi- se a época da Galiléia de meus avós.

– Minha irmã! ontem mesmo ele tava no rio com os meninos , mergulhou e ficou lá no fundo por quase dez minutos, quando Maria chegou aperreada, deu um puxão e perguntou o que ele tava fazendo , Jesus respondeu que tava contemplando o universo, vê se pode.

Um menino de apenas sete anos com uma criatividade incrível. Maria conversava com José, enquanto servia o café da tarde.

– Aí José, tô preocupada com Jesus, vive fazendo umas esquisitices na vila, tenho medo do futuro desse menino.

– Calma Maria, esse menino tem jeito, acho que ele vai ser artista. Num sei… mas esse menino vai fazer história.

E fez. Parabéns Jesus! Que a mensagem a ser repassada seja sempre o amor.

Arrasou no natal, o mundo para pra agradecer a você.

Amor geográfico

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Se a história de Romeu e Julieta fosse adaptada para a atual realidade do Distrito Federal, a discussão sobre a origem familiar seria o de menos tendo em vista a imobilidade urbana com a greve dos servidores, que apenas servem à eles mesmos.

Façamos o seguinte, Romeu conheceu Julieta pelo Tinder , resolveram se encontrar no parque da cidade, num domingo a tarde.

Romeu, 18 anos, procurando emprego, pagodeiro, morador de sobradinho 2, pegou ônibus por 4 reais até a rodoviária e um circular de 3 até a entrada do parque.

Julieta, 19 anos, estudante de nutrição e desempregada, bicho grilo, moradora de Vicente Pires, o pai a deixou na Eptg, pegou ônibus para rodoviária por 4 reais e um circular até a entrada do parque por 3. No ônibus viu um garoto esquisito usando óculos branco, bermuda florida, regata amarela, ouvindo pagode sem fone de ouvido mas com a cara de feliz.
Romeu olhou a menina de cima a baixo, cabelo solto, brincos de capim dourado, blusa com estampa do Bob e uma saia rodada. Ambos de havaianas.

No parque, uma troca rápida de mensagens, um pouco de voz pra matar a saudade e pronto.

– Eu te vi no ônibus, como não notei? sabia que tinha algo especial.
– Eu também te vi (mais seca que a represa do Tietê)

Conversaram, comeram pipoca, açaí, água de côco, picolé, chocolate, algodão doce, água, biscoito e um kit kat. 
Se encostaram, passaram braço, se abraçaram, falaram besteiras, repararam em seus rostos, ele tinha um olho torto, ela tinha olheiras mas, a alegria era recíproca. Se beijaram.

Durante três meses a paquera foi maravilhosa, no dia de conhecer a casa dela, depois de pegar dois ônibus de 4 reais e ainda andar dois kilometros até a entrada do condomínio, chegou suado, sem fôlego. 
– Você não mora, você se esconde.
– E você que mora ao lado de uma fábrica de cimento, poluindo o ar e até os ouvidos por que ouvir pagode todo dia é de infartar.

Foi a gota dágua, o almoço nem tinha servido e já estavam indigestos. Não houve morte neste conto moderno, houve corte de gastos, com o fim da paquera cada um economizou 16 reais  por semana. Eta crise lascada!

Telefone pra que?

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Quando saí de casa senti uma sensação de liberdade, não tinha microondas, não havia máquina de lavar mas podia comer pizza todos os dias, até porque eu sou péssimo em cozinha.

Com o tempo fui melhorando de emprego, em menos de dez anos eu já tinha um carro usado, um microondas e uma estante para meus livros. Porém, melhor que tudo isso era a liberdade e ela se chamava Internet ADSL 1 mega de velocidade. Já faz algum tempo, parece que foi hoje.

O serviço de internet sempre vinha com uma venda casada de telefonia fixa, eu nem me importei em saber o número do telefone. Não ia usar mesmo, exceto quando o celular estivesse descarregado em um domingo a noite chuvoso para pedir uma pizza. Este era um detalhe que devia ter ficado atento. O telefone nunca parou de tocar.

– Alô!

– André?

– Não sou o João, foi engano.

– Nem pra mentir você presta!

– Não estou mentindo, passar bem.

– Vá para o inferno André!

– Depois de você.

Desliguei.

Todo sábado, começava uma chuva de ligações:

– Completou 30 minutos, a minha segunda pizza será de banana.

– Guarde um pedaço para mim.

– Engraçadinho, o regulamento da promoção é simples, se atrasar você leva uma segunda pizza de graça.

– E onde é?

– Palhaço, não atrase muito,se não é tudo de graça, regra dois lembra?

– Claro.

Desligou na minha cara, mas era espirituosa. Por fim a melhor de todas as ligações.

– Senhor Luiz Aurelio?

– Sim.

– Aqui é a Keyce da WW Cobranças, o senhor tem um débito de mil reais conosco, temos um desconto especial.

– Claro tenho toda disponibilidade no sábado, e você vai fazer o que depois do trabalho?

– Então, se o senhor aceitar estaremos enviando o boleto para sua casa no valor de 873,34. Posso confirmar?

– Somente se você me disser que horas sai do trabalho.

– Isso é uma confirmação?

– Depende de você.

– As 20h15, Trabalho na Alfred Nasser com a João Miguel no centro, isso não é um sim.

– Então confirmo pessoalmente.

 

E Ainda dizem que tudo que você precisa está na internet.

Tchau 2014, desculpa qualquer coisa

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É sempre assim, tudo termina com um desculpa qualquer coisa!  

Deveria ser mais fácil, mas na despedida é importante deixar claro que talvez você tenha feito algo errado, para  não deixar passar batido e nem deixar ninguém magoado, finaliza com:

– Tchau, desculpa qualquer coisa.

Quem de fato se importa com um desculpa qualquer coisa? Já pensou se a mina te diz:

– Você broxou,eu vou indo, desculpa qualquer coisa.

E imagina você ouvir isso no restaurante:

– Hoje não tem comida, desculpa qualquer coisa.

Fico pensando na superação de desculpas que damos toda vez que dizemos desculpa qualquer coisa. Mas é isso mesmo, o ano passou e de repente a casa tá cheia de primos, uma bagunça só, e você se prepara para mais um ano de luta diária com a promessa de qua as coisas deem certo desta vez, quem sabe um carro novo, emprego novo, tudo novo pois afinal é ano novo.

Minha sugestão: deixe de fato as coisas velhas no ano que passa. Desculpas velhas, manias velhas, fofocas velhas, preguiça velha, falsidade velha, vamos de fato sermos novos.

 

Feliz 2015 e Desculpa qualquer coisa!

Amor de sogra

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(Este sou cortando o bolo do meu casamento)

Luciano, de tudo sabia um pouco, de gambiarra, de jogo do bicho. Sempre com uma solução criativa para tirar um amigo de alguma enrascada, principalmente quando o assunto era adultério.
Uma vez saiu de madrugada, atravessou a cidade e de lá ligou pra mulher do colega pedindo um guincho pois “os dois” estavam no prego, no meio da estrada, tudo isso enquanto o amigo corria em direção a Luciano.

Mas Luciano tinha um defeito, que não era bem defeito, era viciado em comer. Escolhia suas namoradas por linha gastronômica, seu primeiro namoro foi a Sara, filha do dono da padaria, seu Flores, durante o namoro não comeu um brioche sequer e nem colocou azeitona na empada do sogro, velho pão duro com miolo de baguete. Fim de namoro.

Durante as andanças da vida, namorou duas boleiras, uma pizzaola e a mina do crepe, ou seja, sempre comeu mal.
Almoçava todo dia na Dona Neca, uma mineira de panelas velhas que fazia um tutu e uma carne de porco frita, com direito a uma marmelada pra passar duas horas dormindo na rede.

Dona Neca tinha duas filhas, Luiza e Daniela, totalmente diferentes, Luciano sem muitos sonhos, decidiu que iria plantar suas raízes onde poderia se alimentar bem, comer era outra coisa.
Sem conhecer Daniela, que estudava fora escolheu Luiza pra namorar. Não foi preciso muito esforço, ela também não era ambiciosa, ajudava a mãe no restaurante e isso bastava.
Sem muita imaginação, casaram, Luciano foi morar na casa da sogra no mesmo dia que Daniela chegara de viagem, uma morena espetacular, alegre, festeira e com um rebolado de quebrar o coco.

A tentação era diária, não teve jeito, a maravilhosa comida da sogra de dia, e de noite comendo a cunhada maravilhosa.
O tempo passa e a novela é a mesma, típico assunto de mesa de bar, de festa de natal e batizado de guri:

– Tá vendo? Dois sem vergonha.
– Onde já se viu, ser casado com duas.
– E tudo debaixo do mesmo teto.
– E o que Dona Neca acha disso tudo ?

Na verdade Dona Neca era o pivô de todo o triângulo amoroso, Luciano era apaixonado pelo tempero da sogra, seu primeiro e único amor.

Quartinho da Bagunça (+18)

 quarto bagunçado

– Cidinho cadê seu pai?

– Foi comprar cigarro.

– Vai me ajudando a encaixotar as coisas do quartinho da bagunça.

Lá vai Alcides (Cidinho) em busca da terra do nunca, o quartinho da bagunça era o fim de todas as coisas que não tinham serventia mas que não precisava ser jogado fora. Imagine você, acumular 19 anos de coisas em um único quarto. As primeiras decorações de natal, calendários e papel. Papel capaz de fazer 20 cópias da bíblia em braile. Agora uma etapa chegava ao fim, os meninos cresceram, não precisavam mais de uma casa, estavam se endireitando para a vida adulta. Clara havia passado para a federal e Cidinho começara um cursinho, seu Jadson decidiu: Vamos mudar.

Não é fácil colocar uma vida em caixas, como iria ser o relacionamento com o açougueiro do novo bairro? Seria possível abrir uma conta na padaria? O buteco da esquina tem sinuca? Alguém faz aposta no bicho na área?

Cidinho ainda não estava disposto a entender como seriam os próximos meses, anos e décadas sem aquela casa, tinha uma dificuldade enorme de se livrar do passado, olhava as paredes e conseguia ver os desenhos que fazia com giz de cera, quando comeu muito bolo com anilina e mijou azul pela casa inteira jurando ser seu ultimo dia na terra.

–  FUI INFECTADO, UM VÍRUS, VOU MORRERRRRRRR

E a mãe lhe acalmou dizendo que isso era o resultado de comer tanto bolo de festa.

Ainda no quarto da bagunça, Cidinho olhava as caixas empilhadas, os potes de pedaços de coisas que o pai sempre trazia da rua, já era noite, parecia que não havia mais ninguém na casa, apenas Cidinho e Nina, a cachorra meia idade que fazia companhia. No meio daquela mundo véio de troço, achou uma pasta de tecido com um peso dentro, devia ser algo importante, naqueles tediosos 18 anos nada mais lhe interessou tanto. Uma pasta misteriosa.

– Caraca,o velho tem coleção da playboy.

E tinha mesmo, só coisa rara.  Vera Fischer, Luiza Brunet, Cláudia Raia, Luma de Oliveira, Mara Maravilha e a Xuxa. Deviam valer alguma coisa, estavam todas bem conservadas. Cidinho não se conteve, apesar de já ter visto de tudo pela internet, sabia o valor do papel, tem sensações que apenas uma folha pode transmitir, por isso os livros nunca irão morrer.

Abriu e folheou todas elas, folha por folha, quanta mulher bonita, não entendia como as mulheres de hoje querem ser parecidas com homens, cheios de músculos. A beleza está no natural, na originalidade de cada uma, no cheiro, no sorriso, na curva singela da bunda, no desenho dos seios e no dançar das pernas.

Dedicou uma para todas aquelas beldades, limpou com o pano que estava usando para tirar a poeira, ficou sentado imaginando quando seria sua primeira vez, que fosse com uma musa inspiradora daquelas.

Já com as panelas encaixotadas, só restara comer uma pizza na sala. Nani adentrou a sala com uma coisa na boca.

– O que é isso Nani? Cidinho, voce deixou a Nani pegar o pano cheio de poeira? Aff, Vem cá Nani…

E lá foi a Nani lambendo um por um no sofá, exceto Cidinho que a repeliu com um tapa.

– Cachorra Esquisita.

Enquanto ela lambia a cara de todos, Cidinho pensava: Gozei na cara de todo mundo.A vingança por ninguém ter lhe consultado sobre mudar, mudar é foda. Bota foda nisso.

Casei com o diabo

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Cida, uma senhora simpática, negra, cabelo liso, corpo bonito mas recatada, educada, fala baixo, trabalha,  não tem filhos, vive a espera de alguém ideal, um homem honesto mas que fosse bonito e goste de trabalhar.

– Bonito, Honesto e que trabalhe,só em sonho. Dizia sua vó

– Eu ainda vou encontra-lo, eu sei que ele está em algum lugar.

– Faz uma promessa.

– Promessa?

– Pra Santo Antônio,o santo casamenteiro.

Lá foi Cida acender uma vela para o santo, pediu e prometeu que nunca iria reclamar do marido que o santo lhe arrumasse, naquele mesmo dia, ficou para assistir a missa das 17h, conheceu Eusébio, o aprendiz de padre, cuidava do altar, preparava a hóstia, limpava o confessionário.

– Eusébio, vamos ao cinema?

– Hoje não posso, o padre João quer que eu arrume a sacristia.

– E amanhã?

– Tenho  que lavar a bata.

Cida desistiu, era católico demais, as últimas notícias dele eram que estava dormindo na igreja. Era bonito e honesto mas não trabalhava, ficou fora da lista. Parou de ir à missa.

Resolveu frequentar um centro espírita, Alan Kardec, mesa branca, mas morria de medo da entidade errar de médium e incorporar nela, ficava sempre de olho aberto, resolveu sair porque a coisa era séria demais.

A vó lhe pedira companhia para uma festa de criança, era dia de Cosme e Damião e o terreiro do pai Benedito estava cheio, casa de chão batido, todo mundo de branco e muita animação ao som de atabaques, Cida tinha gostado da festa e do filho do pai Benedito, Joaquim.

Não era feio, era elegante, usava um terno branco e chapéu, falava grosso, bebia e fumava. Cida não se importou, o mundo era cheio de vícios, começou a fumar também.

O namoro estava dando certo até o dia em que descobriu a profissão de seu namorado, bicheiro. O pouco que ganhava era perdido em bebida, fumo e aposta. Cida gostava de Joaquim, tinha pegada, era bom em tudo menos em aposta, não era honesto. Aproveitou enquanto pode e depois terminou, não ia dar certo, havia perdido o medo de entidade, já ensaiava uma pomba gira, as vezes um preto velho mas nada oficial, largou tudo e virou evangélica.

Resolveu frequentar uma igreja perto de casa, a avó não gostara da ideia “Crente é tudo chato, pra eles tudo é do Demônio” Ainda assim Cida estava gostando, era uma congregação nova, ministério pentecostal renovado luterano, ao comando do pastor Getulio o culto rolava, coisa calma, igreja vazia, era contemporânea demais, o povo gosta de show, campanha, desobsessao.

Cida tinha gostado do pastor, apesar de feio. Sabia que seria impossível encontrar tantas qualidades num homem só. Durante um culto levantou a mão e pediu para dar um testemunho, agradeceu, deu fim no cigarro e outras coisas. O culto ficou animado, teve dízimo e muita música. O pastor não tirava o olho da irmã, viu potencial.

No culto seguinte Getulio resolveu fazer uma benção coletiva, ficava de frente para o irmão e dizia:

– Senhor, entra na vida desta criatura.

Rolava um aleluia e era a vez do próximo, na vez de Cida, ela lhe piscou de longe, ao tocar sua cabeça, Cida pigarreou, foi a deixa.

– Te achei demônio, você tá atrasando a vida dela, deixando ela sentir azia e dor de dente….

Foi um show completo, se Joaquim tivesse visto casaria na hora, usou um pouco de cada entidade, pediu cerveja, doces e um cigarro, não foi atendida, o demônio saiu e a igreja virou um sucesso, satanás só descia em Cida, a igreja era renovada.

Casaram, tiveram filhos, a igreja virou igrejas e o pastor Getúlio um ídolo. Na mesa do café, enquanto servia o café ao seu digníssimo esposo

– Cida, você não precisa pedir cigarro toda vez.

– Nem você me bater.

Cida não largou o cigarro e nem Joaquim.