Casei com o diabo

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Cida, uma senhora simpática, negra, cabelo liso, corpo bonito mas recatada, educada, fala baixo, trabalha,  não tem filhos, vive a espera de alguém ideal, um homem honesto mas que fosse bonito e goste de trabalhar.

– Bonito, Honesto e que trabalhe,só em sonho. Dizia sua vó

– Eu ainda vou encontra-lo, eu sei que ele está em algum lugar.

– Faz uma promessa.

– Promessa?

– Pra Santo Antônio,o santo casamenteiro.

Lá foi Cida acender uma vela para o santo, pediu e prometeu que nunca iria reclamar do marido que o santo lhe arrumasse, naquele mesmo dia, ficou para assistir a missa das 17h, conheceu Eusébio, o aprendiz de padre, cuidava do altar, preparava a hóstia, limpava o confessionário.

– Eusébio, vamos ao cinema?

– Hoje não posso, o padre João quer que eu arrume a sacristia.

– E amanhã?

– Tenho  que lavar a bata.

Cida desistiu, era católico demais, as últimas notícias dele eram que estava dormindo na igreja. Era bonito e honesto mas não trabalhava, ficou fora da lista. Parou de ir à missa.

Resolveu frequentar um centro espírita, Alan Kardec, mesa branca, mas morria de medo da entidade errar de médium e incorporar nela, ficava sempre de olho aberto, resolveu sair porque a coisa era séria demais.

A vó lhe pedira companhia para uma festa de criança, era dia de Cosme e Damião e o terreiro do pai Benedito estava cheio, casa de chão batido, todo mundo de branco e muita animação ao som de atabaques, Cida tinha gostado da festa e do filho do pai Benedito, Joaquim.

Não era feio, era elegante, usava um terno branco e chapéu, falava grosso, bebia e fumava. Cida não se importou, o mundo era cheio de vícios, começou a fumar também.

O namoro estava dando certo até o dia em que descobriu a profissão de seu namorado, bicheiro. O pouco que ganhava era perdido em bebida, fumo e aposta. Cida gostava de Joaquim, tinha pegada, era bom em tudo menos em aposta, não era honesto. Aproveitou enquanto pode e depois terminou, não ia dar certo, havia perdido o medo de entidade, já ensaiava uma pomba gira, as vezes um preto velho mas nada oficial, largou tudo e virou evangélica.

Resolveu frequentar uma igreja perto de casa, a avó não gostara da ideia “Crente é tudo chato, pra eles tudo é do Demônio” Ainda assim Cida estava gostando, era uma congregação nova, ministério pentecostal renovado luterano, ao comando do pastor Getulio o culto rolava, coisa calma, igreja vazia, era contemporânea demais, o povo gosta de show, campanha, desobsessao.

Cida tinha gostado do pastor, apesar de feio. Sabia que seria impossível encontrar tantas qualidades num homem só. Durante um culto levantou a mão e pediu para dar um testemunho, agradeceu, deu fim no cigarro e outras coisas. O culto ficou animado, teve dízimo e muita música. O pastor não tirava o olho da irmã, viu potencial.

No culto seguinte Getulio resolveu fazer uma benção coletiva, ficava de frente para o irmão e dizia:

– Senhor, entra na vida desta criatura.

Rolava um aleluia e era a vez do próximo, na vez de Cida, ela lhe piscou de longe, ao tocar sua cabeça, Cida pigarreou, foi a deixa.

– Te achei demônio, você tá atrasando a vida dela, deixando ela sentir azia e dor de dente….

Foi um show completo, se Joaquim tivesse visto casaria na hora, usou um pouco de cada entidade, pediu cerveja, doces e um cigarro, não foi atendida, o demônio saiu e a igreja virou um sucesso, satanás só descia em Cida, a igreja era renovada.

Casaram, tiveram filhos, a igreja virou igrejas e o pastor Getúlio um ídolo. Na mesa do café, enquanto servia o café ao seu digníssimo esposo

– Cida, você não precisa pedir cigarro toda vez.

– Nem você me bater.

Cida não largou o cigarro e nem Joaquim.

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