Quem roubou o Brasil?

Durante a entrega de provas corrigidas aos alunos da quinta série, uma aluna questiona.

– Professor! minha prova tem uma questão que está certa e o senhor colocou errada.

O que escrevia errado disse:

– Nossa! Quem diria, o professor mais correto da escola…

– O que nunca adoece – Acrescentou a que estava pendurada por faltas.

– O professor mais inteligente – Concluiu a burra que puxava saco.

– CHEGA! Que questão foi essa? Provavelmente deve ter sido o corretor de palavras do computador, eu jamais imprimo a prova sem antes revisar. Qual foi a questão?

– A que diz ” Quem roubou o Brasi?l”.

– Os portugueses. Chegaram de boa, viu que tinha ouro, levaram tudo.

– Aproveitadores. Disse Joãozinho

–  Mas também, os índios queriam o ouro só pra eles, tem que dividir.

– Socialista!

– Eu coloquei que foi Dom Pedro, chegou, roubou mas não foi embora.

– Monarquista de merda!

– Eu vi no youtube que foi Getúlio Vargas.

– Pelego! – Prosseguia Joãozinho.

– Seu Luis da padaria me contou que foi JK, construiu Brasília sem uma moeda no bolso, os juros tá rolando até hoje.

– Lobo em pele de cordeiro!

– Os militares! foram os militares. Inúmeras obras e nenhum documento que comprove a necessidade delas.

– Gangsters!

– Meu avô me disse que foi o Sarney, primeiro o Maranhão, depois o Brasil.

– Oportunista!

– Foi o Collor, congelando as poupanças.

– Moderninho salafrário.

– Meu falou que foi o FHC, criou a reeleição para continuar roubando.

– Espertalhão!

– Meu tio disse que foi o Lula, roubou tanto que caiu um dedo com o peso das moedas.

– Mentiroso!

– Minha mãe disse que foi a Dilma, roubou mas não conseguiu comprar uma roupa bonita.

– Deselegante!

A turma agitada indaga:

– E aí professor, qual é a resposta correta?

– Fora Temer!

A turma em uníssono respondeu

– FORA TEMER!

– Fora todos!- Retrucou Joãozinho.

E assim começava mais um dia na quinta série.

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Trump, Superman e Homem Aranha

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Durante o credenciamento, tumulto, gente mexendo no celular, mulheres histéricas, chihuahuas latindo e muito terno pra pouco defunto. Clark havia se  perdido de Jimmy, com tantos protestos nas ruas nós sabemos onde um fotojornalista gosta de trabalhar. A posse do novo presidente do Estados Unidos estava muito competida, concorrida. Políticos apagados na gestão Obama, militares e muitas socialites.  socialights . As Os Kardashians não conseguiam conter a emoção e a inveja. Clark estava desatualizado  sobre os bastidores da política americana. A última briga com Lex Luthor ocupava sua mente em momentos de folga. Mas, imagine você saber que seu inimigo está mandando snaps para Lois, que por sinal é sua esposa. Por uma simples cabeçada, Lois  tinha feito Clark dormir na sala por uma semana, coisas que um homem casado às vezes precisa sentir na pele. Segundo Lois, não eram nada demais. Algumas mensagens românticas e um pouco de seminu (careca conta). Brincadeiras que nunca foram de se esperar do último conservador vindo de Kripton, que tinha tudo para ser um planeta foda, mas que sem moeda, resolvia tudo era na força e no raio laser. Deu no que deu. Ainda bem que Jonathan e Martha Kent já tinham parado de usar umas coisinhas e viram que tinha um menino na nave que veio do céu. Salve a cultura racional da gringa!

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– Gravador não entra!

Segurança com cara de mau.

– Mas como irei decupar o discurso do presidente?

– Caderninho de anotações também não entra! Nem caneta. Só celular, mas não tem rede.

Clark pensou em ativar o olho vermelho de fogo naquele segurança,  mas lembrou que já havia um Kent Lane Júnior em casa pra alimentar, pagar escola, levar ao parque… Existe superpoder pra tudo, mas pra ganhar dinheiro, só trabalhando mesmo. Ainda na fila imaginou que merda iria fazer naquele lugar sem gravador e sem o parceiro fotógrafo. Tudo seria televisionado do jeito que o novo chefe gosta, só que pela sua emissora, a Fox, de forma careta e tediosa. Provavelmente fizeram curso com a nossa EBC (Empresa brasileira de Comunicação). Ainda na fila, um jovem segurando de forma desajeitada uma Pentax entrava sem parceiro. Clark precisava garantir um furo. A coisa não estava fácil nas redações. Basta olhar o que aconteceu com a Playboy.

– Quanto você quer para fazer uma foto pra mim?

– Eu te conheço.

– 100 dólares.

– Você é o Superman!

– E você o Pateta.

– É sério! Fiquei olhando mas agora tenho certeza, esse cabelo com esse olhar de galã de comercial da Avon… É o Superman!

– Isso é passado, mas pelo meus velhos instintos você também não é normal.

– Peter Parker, sou fotografo do News Luthor.

– Trabalhar para o cara que quer, ainda vai, mas comer minha mulher não pode ser normal.

– Eu preciso de 100 dólares, vou pedir minha namorada em casamento.

– Se tu soubesses o buraco que vai entrar, não cavaria.

–  Como é? Vai precisar de uma foto ou não?

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Era trato feito, afinal Clark não podia vacilar. Entraram e acomodaram-se. Cerimônia careta, Obama com um sorriso branco e feliz, família com cara de foto da revista Quem, todos sorrindo e batendo palmas,  mas no fundo com aquele sentimento de “vai dar merda”.
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Apos o discurso, Peter já havia feito a foto, foi aberto para algumas perguntas, todas sobre economia, Israel e Palestina, petróleo, geração de emprego, qualidade de vida, saúde, fronteiras, aquecimento global. Para Clark  não sobrou assunto nenhum de interesse relevante para o Planeta Diário. Em sua vez aproveitou e fugiu das perguntas tradicionais, resolveu captar uma resposta espontânea.

– Presidente Trump, como vai ficar sua vida pessoal? Sendo mais especifico… e quanto ao sexo?

– Vai ser foda. Não tenho nenhuma estagiária aqui.

–  Se fosse Hilary, iria chover. Garanto!

Clark foi expulso, mas tinha um furo. E um emprego.

Obrigado Peter

 

Vendedor de Histórias

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Rodoviária de Brasília, seis da tarde, uma corrente sanguínea entre os que precisam ir e os que chegam para irem mais longe de onde vieram. Um pontinho preto no meio do quadro do Romero Brito, este sou eu. Os passageiros disputam espaços entre os pombos que farejam migalhas e os ambulantes que mais parecem anunciantes de Herbalife há um passo para bater a meta do mês. As meninas seguram a saia e os cabelos para não pegar o cheiro da fritura dos pastéis. Os meninos com o vale na mão contam os minutos para chegarem em casa a tempo de verem o início da partida.
As senhoras com suas sacolas enormes pedem ao motorista para entrarem pelos fundos por conta da muamba. Os idosos ostentam sua identidade, intimidando aqueles que ainda pagam passagem.
Eu estou a caminho da fila do meu ônibus que mais parece o último trem saindo da Serra Pelada, sem pressa, vou caminhando observando as peculiaridades daquele lugar exótico e seus personagens.
– Ei brother! Como vai?
– Bem…
– E sua mãe?
– Tá bem.
– Sua mãe é uma mulher de ouro.
– É…
– Brother, saí do lava jato, depois fui tentar algo na padaria da esquina mas também não deu certo.
– Tá difícil pra todo mundo né?
– Oh! Aí resolvi tentar vender uns perfumes aqui.
– Que boa notícia.
– Olha só, leva esse Givenchi para tua mãe e pega esse Ferrari pra você, pelos velhos tempos, tua mãe me ajudou muito, devo muito a ela.
– Eu não tenho dinheiro.
– Quem tá falando em dinheiro? É pela amizade.
– Que seja, obrigado.
Me viro e vou indo em direção a minha fila.
– Oh irmão! Faz um favor pro seu brother aqui.
– O que?
– Me paga um lanche que eu tô cheio de fome.
– Cara mas eu só tenho…..
Neste momento o perfumeiro pegou rapidamente oito reais de minha carteira com um passe me deixando apenas com um.
– Tá tudo certo, com esses oito eu tomo um caldo com pastel e esse passe eu volto pra casa, aquele abraço na sua mãe.
Já na fila, minha namorada chega e pergunta:
– Você tem um vale sobrando?
– Não! Só perfumes.
Contei toda a história que havia acabado de vivenciar, uma história de superação, de força de vontade, de coragem. O cara tá na luta, não desistiu.
– Amor isso não perfume, é água com amaciante.
– Como eu ia saber.
– E você conhece ele de onde?
– Nunca vi mais magro.

Vingativa

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Imagine duas bahianas conversando.

– E o que ele disse à você?

– Disse que você não significa nada na vida dele.

– E o que mais?

– Como e o quê mais?

– Como o quê rapaz?

– Oxi, eu que lhe perguntei sua porra.

– Apoi agora tá tirando onda.

– Não se arreta e nem pica a mula.

– Sim, mas o que foi  mesmo que você ouviu?

– Eu vi! Os dois todo chique entrando na pizzaria.

– E depois?

– Depois… não sei…

– Tem que saber, tu num entrou?

– Entrei, mas tive que passar ligeira no banheiro, tava apertada.

– E quando saiu?

– Já não estavam lá.

 

Pronto, foi o suficiente para Rosi, jovem, negra e linda se sentir traída por Lindomar, seu noivo. Bastou um simples comentário dizendo que o mesmo foi visto na noite passada com outra para o circo estar armado. Depois da fofoca, o segundo item essencial na vida de qualquer pessoa deve ser a vingança. Nós somos feitos no amor e lapidados no ódio, amamos o que não temos e odiamos quem tem.
Vingança só existe por que libera dopamina, assim como o sexo.Vingança boa é planejada, sexo bom não tem cerimônia, chega sarrando, vem passando o braço no beco, subindo a respiração, encoxando… Pois é. Mas tudo é passado, depois dessa, Rosi só pensava em vingança.
Nenhuma estratégia é feita na emoção, era preciso cautela porque quem pega galinha não diz xô. Iria esperar ver os dois entrarem no motel, quando a coisa estivesse rolando, iria surpreender os apaixonados jogando pimenta nos olhos do canalha e da piranha.

O telefone tocou
– Alô!
– Rosi, minha flor de dendê, vou me atrasar para o nosso jantar.
– E tu vai tá fazendo o que mesmo?
– Oh minha rainha, vou fechar a contabilidade da pizzaria do Tonico.
– Tá bom…

Desligou.
Era a hora de colocar o plano em prática, mesmo planejando, vingança boa se come quente.
Chegou na surdina, ficou imperceptível, pediu uma coca cola, avistando de longe o noivo a conversar com uma loira. O sangue nordestino subiu, pegou a garrafa de coca, quebrou na quina da mesa, antes de levantar já vociferava as ameaças que pertencem ao vocabulário bahiano, o dedo indicador fazendo apologia ao crime dizia que Rosi não estava para brincadeira. Mesmo antes de chegar próximo da mesa, a presença de Rosi foi notada através de uma cadeira que voou toda a pizzaria seguido por um grito de raiva.

– PIRANHAAAAAA!
Não houve tempo para a esquiva, a loira levou uma cadeirada e desmaiou. Lindomar mais perdido que analfabeto em banca de revista, não sabia se acudia a desfalecida ou a noiva em fúria que se arremessava com a garrafa de coca cola quebrada em sua reta.

– Agora eu vou matar vocêeeeee.

PLOFT!
Silêncio geral na pizzaria.

Duas mulheres acudiam Rosi estalecada no chão, rodeada de cacos de vidros e um cheiro forte de cachaça Pitu. Rosi atordoada e bêbada olhava em volta e nada lhe parecia familiar.

– Mulher aprenda a beber pelo menos.
– Fazendo um vexame desse…
– Cadê o Lindomar?
Eis que surgia o noivo repetindo em voz alta meu amor, meu amor, meu amor… levando sua amada pelo colo até a mesa pedindo uma água e se prontificando a pagar pelos excessos causados por sua rainha.
– Acho melhor você ir para casa, as meninas vão lhe acompanhar enquanto eu acerto com o Tonico os danos e o custo da noite.
Sem entender e ainda zonza, foi caminhando. Ao lembrar que havia esquecido sua bolsa encontra Lindomar trazendo do banheiro a loira desmaiada nos braços.

– Seu filho da putaaaaaaaa, eu vou matar os dois.
Pense numa noite animada, só acabou quando chegou a ambulância para Lindomar e a polícia para Rosi.

E eu juro que comecei escrevendo uma crônica de amor.

Cinismo

 

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– Pouca vergonha!
– Ninguém precisa ver isso.
– E porque você está olhando?
– Para um dia dizer aos meus filhos o que era errado no meu tempo e os outros diziam ser progresso.
– Eu não acho errado, mas na rua não é o local certo para esse tipo de coisa.
– Justamente, por isso devemos ir lá falar com eles.
– Não vamos não.
– Mas se você discorda precisa me apoiar, de que vale toda essa discussão.
– Sou contra isso em público, mas também sou contra a repressão, eu sim vivi a ditadura na pele, nunca fui a um congresso da Uns por medo de ser levado e desaparecer para sempre.
– Comunista enrustido. Pois eu nunca me calei, nem naqueles tempos,dei sorte mas jamais me escondi.
– Então vai lá e acaba logo com isso, seu moralista de mentira. Teu filho já deve ter feito coisa pior e você não fez nada.
– E tuas filhas? Que ninguém sabe onde dormem nos fins de semana.
– Não vamos mudar de assunto.
– Você começou…
– E você termine.

Não ia dar certo. Dois coroas discutindo um simples beijo na boca, mas não era qualquer beijinho não, era a Dona Higina que estava toda agarrada com um rapazote pra lá de vinte poucos anos. Na verdade o que se discute é a legitimidade do ato, sendo que os dois estavam a cortejá-la quatro semanas ininterruptas, cada um com seu repertório de boas histórias, sobre ditadura, bossa nova, a vida no morro, a vida no campo, o Rio de Janeiro em 70, as Minas Gerais do pão de queijo. Mas ninguém havia se preparado para um gole certeiro como aquele.

– Aquilo só pode ser golpe.

– Não tem outra explicação.

– Não há contraindicação porém, não é normal.

– Pois é.

Por mais de uma hora, discutiam se um deveria ou não apartar aquele amasso descarado. Na frente de todo mundo, ato impensável.

– Como amigo vou defendê-la desse patife. Você fica aqui!

Por amizade eu vou também.

Mas não foram. Olharam-se e satisfizeram-se com a derrota.

– Vamos jogar buraco.

– Só até as 17h, hoje eu tenho um encontro.

O negócio é acreditar, sempre, em você mesmo.

Ps: Não havia encontro nenhum, coisa de velho se achando pra outro.

Inveja de ano novo. Feliz 2016!

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Se arrumou, chegou cedo, local vazio porém funcionando, chegou antes de todos, queria prova para falar mal do lugar, da alegria dos outros, da escolha das músicas, das bichas velhas que sempre fazem o mesmo programa no réveillon. Seria a primeira vez que iria curtir uma festa diferente.

Tava difícil reclamar, o lugar estava impecável, arejado, serviço de qualidade, sentou, programação pontual. Para exibição do primeiro show, pipoca.No segundo, brigadeiro (de panela). No terceiro Kitkat (todo mundo come). No quarto show, Coca cola gelada pra rebater.

Não haveria do que falar mal, como é que alguém com 26 anos pode falar mal de alguma coisa? A vida é dura mais é simples, algumas farras, emprego, transa sem compromisso, futilidades, problemas amorosos,  fofocas, peguetes, academia (interrompida), promessas não cumpridas, esse foi seu 2015.

Na verdade, seu réveillon seria mais do que esperado, cultivou inveja quando as amigas casaram, quando o colega assumiu chefia, quando teve festa surpresa pro vizinho do 402, quando a irmã anunciou gravidez, quando o Corinthians ganhou, quando viu a inimiga magérrima, o ex declarando amor no face pra qualquerumazinha da vida. Até quando um cachorro foi manchete na TV por latir de saudade do dono pois, até ele tinha alguém para sentir saudade.

Encerrou 2015 da melhor forma que se podia esperar. Sem grana, sem gato e sem graça. Vendo o show da virada na Globo!

Feliz 2016!

 

Como é que chama aquele menino?

Thiago Maroca

– Jesus!

– O filho da Maria?

– É.

– Irmão do Tiago?

– Eh mulher!

Ninguém acreditou, como podia, logo o filho do José, o carpinteiro, homem calado, de pouca conversa na vila, ter um filho danado como aquele e ainda por cima, inventador de histórias.

– Mulher, tu imagina que ele agora anda conversando com os animais, e o que é pior é que os bicho fica tudo calado, foi- se a época da Galiléia de meus avós.

– Minha irmã! ontem mesmo ele tava no rio com os meninos , mergulhou e ficou lá no fundo por quase dez minutos, quando Maria chegou aperreada, deu um puxão e perguntou o que ele tava fazendo , Jesus respondeu que tava contemplando o universo, vê se pode.

Um menino de apenas sete anos com uma criatividade incrível. Maria conversava com José, enquanto servia o café da tarde.

– Aí José, tô preocupada com Jesus, vive fazendo umas esquisitices na vila, tenho medo do futuro desse menino.

– Calma Maria, esse menino tem jeito, acho que ele vai ser artista. Num sei… mas esse menino vai fazer história.

E fez. Parabéns Jesus! Que a mensagem a ser repassada seja sempre o amor.

Arrasou no natal, o mundo para pra agradecer a você.

Cannabis Free

 

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São 14h30, uma marola invade a janela da firma, cheiro amigável para Isabele, recepcionista, que namorou o Guto, que lhe apresentou a religião Rastafari, pouca pregação, muita fumação, coisa boa. Isabele conhecia pelo cheiro se era prensado ou puro, extraido apenas das flores. Cannabis Brother!

Ela queria ter falado alto, mas poderia não ser bem aceita no escritório de contabilidade onde havia um crucifixo enorme na parede, ali Jesus ficava olhando de canto de olho para quem enrolava no trabalho, Isabele queria enrolar outra parada.

– Todo dia agora é isso, esses vagabundos ficam fumando maconha aqui embaixo do prédio, vou ligar pra polícia.

– E adianta? Hoje em dia a maconha não dá flagrante, o cheiro é que incomoda mesmo, fecha essa janela!

Enquanto Almeida e Roberto fechavam todas as janelas, Isabele ria por dentro ao saber o que atraía aqueles garotos pra fumarem maconha no pé prédio, a wi-fi liberada. E foi graças a ela que a internet continuou sem senha. Do escritório se ouvia as risadas, as músicas de estilos variáveis.

– Porra! Ouvir funk é sacanagem.

– Isso é eletrônico, é diferente.

– Você escuta essas músicas Isabele?

Ficou compenetrada em seu trabalho, o cara da parede estava pronto a dedurar os preguiçosos.Lá embaixo se ouviu:

– Valeu Isabele!

Os chefes entreolharam-se.

Isabele cansou de enrolar, desceu e foi enrolar com os brothers.

Internet livre, viva a liberdade!

 

 

Futebol de cegos

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-Alo  você que esta nos ouvindo na Se toca FM, estamos aqui eu, seu locutor favorito, Jacinto Forte e meu amigo Cuca Buloso. Eeeeeee hoje é a final do primeiro torneio de futebol de cegos da nossa querida cidade. Queria agradecer ao nosso prefeito Botelho Nabo que prestigia essa festa com sua linda esposa Agata dos Prazeres.

– É isso aí querido ouvinte. Vamos dar início a nossa partida, lembrando que o único que enxerga é o goleiro. E hoje o campinho está lotado para a grande final dos times Cegamente com:  Dorival, Reinaldinho, Farinha, Novalgina, e no gol ele Cocacola. No outro time, Só se for com os Zoio Com: Marreco, Tome uma, Zézé,Um palmo, e no gol Sabichão.

A partida começa, arquibancada atenta, só se ouvi o sino da bola e um cego chamando o outro. Mas não adianta esperar educação em um lugar onde nunca houve bons costumes e decência. Em menos de cinco minutos de jogo, uma gritaria da porra, uma falta de respeito só. O tonho levou cerveja no isopor e vendeu tudo, a Maria aproveitou pra vender suas petas pra quem estava com fome.

No segundo tempo, a torcida estava embriagada e a cara cheia de farelos, já não se ouvia o sino da bola, os jogadores zanzavam no campo, até que sabichão teve a idéia de gritar.

Tome uma, Marreco encima do Novalgina.

De repente uma sacola vazia de peta voa pra dentro do campinho. O prefeito levanta e grita:

– Pega a sacola!

Com a gritaria os cegos entenderam Cocacola.

– O prefeito tá torcendo para o Cegamente, filho da puta.

– Também, todo mundo passou a mão na na mulher dele, ele é mais cego do que nós.

Gargalhada geral, o prefeito entrou no campo pra tomar a bola e acabar com aquela difamação mas, quando abaixou. levou um chute no olho e cego ficou naquele momento, enquanto gritavam sacola, os cegos entendiam Cocacola . Correram em direção ao campo e sentaram a porrada no goleiro, e uns nos outros, briga generalizada, até a torcida foi em defesa do time e dos amigos cegos. Uma criança mequetrefe enquanto comia o último saco de petas, pegou ar, encheu e….

POOOOOOOOOUUUUUUUUU!

– É tiro!

O povo correu desesperado, os cegos seguiram o sons do passos e foram embora também, no meio do campo com a roupa toda rasgada apenas o prefeito ainda procurava seu rumo.

Na cidade, contam até hoje sobre o jogo de futebol que os cegos enxergaram e o prefeito ficou cego, coisa de Satanás.

Dieta off line (ganhe tempo, pergunte-me como)

Segunda feira, dia de começar dieta e iniciar novos projetos, para Jhon Jhon seria a maior audácia desde a criação da internet, ficar sem comunicação on line.
–  F#D*U!!!! Pensou e disse, e disse alto.
Desde a criação do bate papo no BOL, nunca ficou mais de uma semana sem conexão. Fez uma viagem nos últimos dez anos e analisou sua vida on line.
Começou visitando uma lan house que havia na feira permanente da cidade, comprou um disquete para copiar as imagens com ilusão de ótica, tentava imaginar como alguém era capaz de criar aquilo, mas em seis meses o mundo caiu em desgraça quando ele conheceu as redes de fotos: Fotolog, Gigafoto, Flogao e outros milhares.
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Além de bater papo mandava o link do fotolog e comentava no da paquera, eram fotos horrorosas, sem foco, sem luz e sem pixels.
Sua vida social entrou em colapso e nunca mais foi a mesma quando criou a conta no orkut.Tudo era orkut. Comunidades,scrapbook,fotos, amigos em comum.
Uma possibilidade infinita de conhecer pessoas, de compartilhar idéias malucas e descobrir que o cara da Elma chips tem catapora.
elma chips
A febre do Orkut não parava, já bastava ter mais comunidades do que amigos, eles criaram a colheita feliz e isso gerou uma onda vandalismo pois, era permitido roubar da fazenda alheia.
O twitter deu uma elitizada na web, mas foi por pouco tempo, a galera do Orkut descobriu que era moda resumir a vida em 140 caracteres. Jhon Jhon Tentou encabeçar um perfil no Myspace que já tinha ido pro espaço há tempos (Trocadilho horrível), Criou um perfil no facebook e em 5 anos não sabia mais o que era portal de notícia, calendário de eventos, grupos de interesse, Msn, tudo tinha perdido o sentido, o Facebook é tudo. #SQN
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O mundo agora era mobile. Instagram, Vine, Snapchat e o viciante Whatsapp. Tudo feito para você ficar preso na tela de um celular, Jhon Jhon aceitou o desafio da dieta off line, usaria o bom e velho diálogo para sobreviver.
No começo teve tremedeira, suou frio, perguntava as horas só para as pessoas mostrarem seus smartphones, olhava a rua e imaginava qual aplicativo poderia lhe ajudar a todo instante. O waze sobre o transito, o Google + para pesquisar, uma olhadela rápida no Facebook pra não perder o parabéns do dia.
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Aos poucos foi se acostumando e achando engraçado como as pessoas perdiam momentos banais por não prestarem atenção na simplicidade da vida.
Foi a pé até o mercado, ajudou uma senhora com as sacolas, deu moedas ao lavador de carros, jogou pão aos cachorros da rua, sentiu o cheiro de madeira sendo serrada, ouviu um zilhão de freadas bruscas,  passou a mão no muro chapiscado da igreja, notou os lábios ressecarem.
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A dieta lhe permitiu isso, ativar os sentidos novamente.  Você já tentou fazer uma dieta assim?