
Como tudo começa? Com um beijo
É impossível pensar em outra coisa: tudo começa, de fato, no beijo. É ali que a química acontece, a pele arrepia e o desejo ganha espaço. Ninguém resolve ficar pelado porque acabou de beijar na boca, a roupa pede licença ao corpo para que a conexão aconteça: o sexo. Mas antes vem o beijo. É no beijo que a história decide se vai acontecer ou se vai virar amizade — e amizade, convenhamos, é o cemitério mais educado do desejo.
Nada apaga mais rápido o desejo do que palestrinhas, excesso de conselhos ou aquele carinho exageradamente fraterno. Percebe-se logo que a noite acabou quando se ouve o clássico “você é uma pessoa super especial” — expressão que, em bom português, só quer dizer “jamais”. O clima vai por água abaixo de vez em quando; em pleno preâmbulo, ele resolve bancar o mentor e manda: “Você precisa aprender a se valorizar”. Ninguém procura terapia entre os lençóis. O que se quer é desejo puro e boca.
Reparem só: o beijo é a única etapa do sexo concedida em praça pública, em plena luz do dia, sem o risco de alguém chamar a polícia. Trata-se do disfarce perfeito. Sob ele, abrigam-se todas as histórias: o primeiro encontro, a briga derradeira, a saudade guardada há quinze anos e aquela vontade que jurávamos ter enterrado. Beijar nada mais é do que dar novo sentido à própria existência. Ao beijar de olhos fechados, transportamo-nos para outra dimensão — uma em que não há medidores de curtidas, a foto sem foco não incomoda, a bateria do celular perde a importância e a hora de ir embora vira mero detalhe. Um beijo bom converte todo esse calor na sensação gostosa de um dia de verão na praia, vestindo trajes curtos e transbordando tesão.
E, quando o fogo acende, vale tudo. Posição perigosa, brinquedo emborrachado, fumaça, álcool espalhado pelo corpo, óleos duvidosos e muita criatividade. Vale ver algumas produções proibidas para ter inspiração, mas não usá-la para estimular a imaginação. O objeto do desejo tem que ser o que está à sua frente.
A escolha do lugar também conta muito: privacidade, porta trancada e pelo menos um ventilador. Se couber no orçamento um quarto com ar-condicionado e banheira, vale o investimento. Levar uma muda de roupa extra é sempre uma boa prevenção. Planejar o encontro exige atentar para vários pormenores — tarefa que frequentemente sobra para as mulheres, enquanto para os homens o simples gesto de tentar ser agradável já costuma ser visto como um grande mérito. Embora minoria, existem homens atenciosos, e assegurar o local ideal é a chave para tirar a fantasia da teoria. Contudo, preparar todo o cenário e negligenciar a proteção é como produzir uma peça sem figurino: a apresentação até acontece, mas o vexame é certo. Trata-se do preservativo. Um espaço qualquer se arranja fácil: banco traseiro em lugar calmo, sofá emprestado ou cama de amigo — a imaginação para isso é inesgotável. Falta, contudo, a modéstia de reconhecer que, no percurso do desejo até a cama, é indispensável passar pelo armário do banheiro ou questionar abertamente: “você trouxe?” Trata-se de um cuidado tão atraente quanto uma boa cantada, afinal, a paixão vivida com responsabilidade se prolonga com mais qualidade. Em suma, o ambiente serve apenas de pano de fundo.
O que decide se a história vira comédia romântica ou boletim de ocorrência é sempre o mesmo pacotinho, guardado na carteira, discreto, esperando a sua vez — que, ao contrário do que muita gente insiste em pensar, não vem depois. Vem junto. Mas, antes de tudo isso, o beijo tem que ser bom, muito bom.
Fui.
Se cuidem e se amem!
Thiago Maroca é escritor, cineasta, chefe escoteiro e pai do Théo, que foi gerado sem o uso de camisinha, acreditem.
Manda um oi: thiagomaroca@gmail.com